fiteiro
conversa afiada? só no fiado, porque o dono é desconfiado


fu quello che fu (parte I)

Fu quello que fu,

Irragionevole, no ci poteva niente,

non potevo immaginarmi senza.

La follia fu quella che fu, fu quella che fu.

L'impero delle parole

La distinzione tra bene e male

La ripida discesa dal cielo alla terra

Disperata verso l'incarcerazione

Fu quello che fu

La circumnavigazione

I nome che si diedero alle cose

La gioia e il dolore dell'esistere

L'enigma del consenso

Le emozionali imprese della specie

Fu quello che fu, tutto fu quello che fu.

Quel che deve ancora avvenire

Il sorgere della cittá di Dio

l'emblema che ci fa forti e sicuri

oppure pazzi e disperati.

Ti gridavo: sono disperso, disperso.

Quello Che Fu (Franco Battiato)

O acaso não existe. Não coloquei o disco "Gommalacca", do Battiato, sabendo que nele existe uma música que refletia tudo o que eu sentia nesta volta ao local onde vivi por mais de uma década. Deve ter alguma explicação o fato de ser, entre dez opções, o primeiro CD a se colocar nas longas dez horas de percurso de ônibus. E de se apertar o "repeat" para ouvir de novo. E ainda havia a lua cheia vista da janela.

O disco me fez companhia no sábado à noite, quando resolvi fazer uma caminhada pelos locais que já fizeram parte do meu cotidiano. E era tudo isso mesmo. As imagens estão aí abaixo. Fu quello che fu. E pronto.



Escrito por goethe às 20h11
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fu quello che fu (parte II)

O dia está clareando quando finalmente se avista a estação de trem transformada em terminal de ônibus. É hora de desembarcar e fazer as pazes com o passado. Quanto mais tempo, mais estranho tudo se torna. As pessoas lhe cumprimentam e você não sabe quem são, mas elas dizem seu nome. Vivi mais tempo fora deste local, mas ainda restam partes importantes, mesmo que empoeiradas desta história.

Rua Coronel João da Cruz. Andei muito por ela. Ainda continua sem asfalto. Ainda continua. Ainda.

Este prédio é uma preciosidade que está se esfarelando. Ficou assim no início do ano, com as fortes chuvas que atingiram o Nordeste. A ironia é que ele foi construído por ordem do imperador Pedro II para dar apoio ao combate à seca no século XIX. Interditado, espera dinheiro para a recomposição. A Cadeia Pública, com seus poucos presos, teve que ser transferida. Nos fundos do prédio, no andar de cima, funcionava uma biblioteca, no final da década de 70, com livros do Mobral. Foi onde, pela primeira vez, conheci Quintana. O livro, "Caderno H", tinha a capa alaranjada. Tudo era poesia e eu não sabia.

Era o cinema, tornou-se um teatro pouco utilizado. Não era o Paradiso, mas foi nos bancos de madeira que descobri a magia das imagens. Principalmente nas sessões dupla, com o invariável filme de karatê como entrada.

Toda cidade importante tem um obelisco. Na frente da igreja matriz Barbalha possui o dela. Aliás, nesta foto dá para ver o "pau da bandeira", o tronco onde se amarra o pano com a imagem de Santo Antônio, o padroeiro. Fica no local até junho do próximo ano, quando a tradição exige que os homens da cidade escolham outro tronco na serra e o tragam no ombro até a frente da igreja. É um espetáculo único, mas hoje está mais pausterizado. Para evitar acidentes, a madeira já não é tão grande. Na minha época, era comum braços e pernas quebrados quando era necessário colocar o tronco no chão para descanso dos carregadores. Se o movimento não fosse sincronizado, sobrava para quem era atingido pelo "rabo" do tronco. Os voluntários são abastecidos de cachaça gratuitamente, existia até uma "carroça do seu vigário" que hoje não sei se tem mais. Essa mistura de sagrado e profano é comum nas buscadas (existe uma famosa, a de São Sebastião, na Bahia). Diz a tradição que a mulher que faz um chá com a lasca do pau tem casamento garantido. Os 15 dias de festa em junho são uma boa oportunidade para se conhecer a cultura do Cariri, com suas bandas de pífanos, grupos de incelenças e reisados. A região, inclusive, pode ser tombada como Patrimônio Cultural da Humanidade por sua mistura de manifestações típicas e atrativos físicos.

Esta praça, no final da rua do Vidéo (o que se poderia convencionar chamar de centro da cidade) era o point da juventude nas décadas passadas. Tempo em que se fazia vaquinha para comprar uma garrafa de bebida, geralmente Vermute Mazile, e paquerava-se as meninas do banco da frente. O interessante é que os próprios moradores da rua do Vidéo preferiram voltar ao paralelepípedo quando a prefeitura resolveu consertar o asfalto estragado. Talvez uma prova de que quem viveu na cidade está condenado ao passado.

Igreja de Nossa Senhora do Rosário. Na frente, jogava-se bola. Dentro, rezava-se pelos pecados que ainda iria cometer.

O colégio Santo Antônio mudou de lugar. No prédio onde eu era praticamente o único freqüentador da biblioteca (para a raiva da funcionária, que tinha que comparecer ao serviço para me atender) funciona hoje a Faculdade de Medicina do Cariri. Passava boa parte do meu tempo no colégio, estudando pela manhã e usando as dependências para jogar tênis-de-mesa, participar de reuniões de grupo de jovens (sim, eu fui católico um dia) ou folhear enciclopédias na dita biblioteca. O menino que usava a farda de bata branca e calça verde-clara, com um ki-chute preto para arrematar me fez companhia por um breve tempo. Era eu.

A cana-de-açúcar ainda faz parte da paisagem que circunda Barbalha. A cidade abriga uma usina e já teve duas fábricas de aguardente, além de engenhos que produzem rapadura. O ritmo é mais lento hoje, mas ainda permite que se chame Barbalha de "a terra dos verdes canaviais". Isso em outros carnavais.

O empreendimento é novo, tem apenas três anos, mas já atrai excursões de cidades interioranas da Paraíba, Pernambuco e do Ceará. O Arajara Park está situado a 630 metros de altitude, em plena Chapada do Araripe, a 14 quilômetros de Barbalha. O clima agradável de serra é o complemento ideal para a água pura que jorra a poucos metros de distância, numa área cercada para se tentar poupar o que não foi destruído para a construção das piscinas e de toda a área de lazer. Em tempo: Arajara era o nome de uma índia que vivia no lugar.

É deste manancial, batizado de Gruta do Farias, que jorra toda a água usada pelo parque do Arajara. São 200 mil litros por hora, uma maravilha para quem pensa que o Nordeste é todo seco. As serras que circundam o Cariri são pródigas em água. Tanto que em Barbalha possui outro balneário, o do Caldas. Uma situação privilegiada que pode mudar se o cuidado ambiental não for levado a sério.

Vai aí um papel de parede? Ou um calendário floral?



Escrito por goethe às 18h36
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milagre do padre cícero (parte I)

A estátua de 27 metros de altura, na localidade conhecida como Horto, é vista pela população de Juazeiro do Norte desde 1969. O homem com o cajado é Padre Cícero Romão Batista, religioso que entrou para a história como "milagreiro" e político, mandando nas questões de corpo e alma na região cearense do Cariri. Uma história melhor contada dele pode ser lida através deste link: http://diariodonordeste.globo.com/materia.asp?codigo=149788. Meu interesse é reprocessar questões que já me são familiares desde a infância, quando já tentava entender porque aquele povo tão sofrido, que não tinha nada para comer ou vestir, fazia sacrifícios para visitar Juazeiro e render graças ao "Padim". Depois de cinco anos, voltei a visitar a cidade com o intuito de fazer imagens que não tinha e colocá-las à disposição dos meus fiéis leitores deste blog. É um local que merece ser conhecido, principalmente por representar bem o que somos. E que não vou deixar de ser. E de me espantar também.

No Horto, um casarão abriga um museu que recebeu parte do material que antes ficava na casa do Padre Cícero, em Juazeiro. Bonecos em tamanho natural representam passagens importantes na vida do religioso, como suas reuniões com seguidores (devidamente identificados com papéis colados nas roupas) e, principalmente, o momento do milagre da hóstia transformada em sangue na boca da Beata Maria de Araújo. Os ex-votos ganham status de obras de arte como realmente são. Vale presenciar a emoção das pessoas em ver o Padre quase em carne e osso. À espera de um milagre.



Escrito por goethe às 18h16
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milagre do padre cícero (parte II)

A igreja ao fundo desta foto abriga os restos mortais de Padre Cícero, em frente ao altar. Durante todo o ano, os romeiros visitam o templo e jogam pequenos objetos na lápide de mármore, na crença de que eles serão abençoados. No entorno da igreja um pequeno nicho abriga a imagem do religioso. É para ajoelhar e rezar. As velas podem ser compradas nas lojinhas que ficam perto. Também próximo à igreja fica o Memorial Padre Cícero, um prédio moderno com auditório para realização de espetáculos e seminários. O local abriga grandes painéis contando a história do padre.

Atrás da igreja onde está sepultado o Padre Cícero encontra-se o cemitério de Juazeiro. Vale fazer uma visita de cortesia ao túmulo do Beato Lourenço, que foi líder, durante cerca de dez anos, de uma comunidade religiosa chamada de "Caldeirão", em terras doadas pelo Padre Cícero. Em setembro de 1936, dois anos após a morte do "Padim", o governo, a pedido das autoridades da região, incomodadas com a experiência comunitária, solicitam a extinção do que seria uma nova Canudos. As cercas de mil pessoas são expulsas à força e as terras voltam ao domínio dos Salesianos. No Caldeirão foi registrada a primeira e única vez que um local foi bombardeado no Brasil por aviões. Temos nossa Guernica, seu doutor. 

Sim, ainda existem romeiros que chegam a Juazeiro em caminhões paus-de-arara, mas a maioria já consegue pagar o suficiente para vir de ônibus. Os menos abonados ficam em "Ranchos", locais adaptados em casas de família para receber gente de todos os lugares. Geralmente se dorme em rede e a comida é feita em pequenos fogareiros. O gasto individual é pequeno, mas multiplique por milhares e saiba porque em Juazeiro todos são gratos ao Padre Cícero. 

A igreja matriz já não comporta mais a quantidade de romeiros que lotam Juazeiro nas principais datas, em julho (morte do padre) e novembro (finados). Uma grande estrutura foi erguida em frente ao templo para as missas campais, onde a grande imagem é dos chapéus dos peregrinos acenando no momento da bênção para a viagem de volta. O povão fica no sol, porque os religiosos e autoridades têm sombra garantida. O que me causou espanto é a existência de um anfiteatro para apresentações que já está quase concluído. Parece o Coliseu. Juazeiro fica no Ceará, mas tem um pouco de Roma e Vaticano.

Não existe lugar santo sem o profano colado nele. As barracas (barracos?) de bebidas se instalaram ao lado do grande pátio onde as principais missas são realizadas. Se o padre tem vinho garantido, o romeiro pode descolar aqui um negocinho para esquentar. Afinal de contas, ele também é filho de Deus...

A grande casa amarela na rua São José (a maioria dos logradouros de Juazeiro tem nome de santos) era o local onde Padre Cícero vivia e recebia seus seguidores e aliados políticos. O local hoje abriga uma espécie de museu, onde pode-se encontrar as vestes que ele usava, a pequena cama onde ele dormia e, principalmente, centenas de fotos e outros objetos doados por romeiros por causa de alguma graça alcançada. É para se passar bons minutos olhando o povo brasileiro na parede. Espelho melhor não há. Na saída, uma lojinha oferece artigos que garantem um upgrade na peregrinação. Se der esmola para as pessoas que se instalaram na calçada, pontos extras.

As imagens do padre, de todos os tamanhos e formatos, estão em toda parte em Juazeiro. Você entra numa lanchonete e come um sanduíche olhando pro padre. Aliás, pensando bem, é um bom lugar para ele, porque de longe parece uma garrafa de Coca-Cola. Vai fazer uma aposta na loteria, pode contar com a estátua do padre por lá também. Nesta foto, além das imagens do "Padim", o comerciante também dá uma mãozinha para os romeiros que vão pagar promessas. Na caixa de papelão, ex-votos de todos os tipos. 

A praça principal de Juazeiro do Norte chama-se como? Ganha um rosário bento quem respondeu Padre Cícero. A estátua dourada dele fica próxima à torre com o relógio que possui painéis contando a história da cidade. Bom mesmo na praça é a sombra das árvores, porque o calor é infernal.

Não se conhece realmente uma cidade sem visitar seu mercado público. O de Juazeiro foi tomado por vendedores de badulaques, como relógios falsificados e jogos eletrônicos. Produtos locais você só encontra na calçada do prédio, onde alimentos e ervas medicinais estão à disposição do freguês.

O milagre do Padre Cícero foi atrair gente que, mesmo com baixo padrão de consumo, transformou Juazeiro num centro de comércio regional. Tem de tudo nestas ruas, desde produtos sofisticados até um birilo para o cabelo da menina remelenta.

Será o calçadão de Copacabana? Não, é em Juazeiro mesmo, com direito a tênis desfocado para finalizar...



Escrito por goethe às 22h20
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aviso de utilidade pública

A proposta deste blog era ter posts diários, mas desde que entrei de férias percebi, na prática, que viver é melhor que blogar. Entrei pouco neste micro nos últimos dias, mais para checar mensagens e visitar amigos do que contar algo que já perdeu a graça ou só serve para abastecer a despensa da memória particular. Aproveito para comunicar que, dentro de duas horas, me embrenho novamente em um ônibus para visitar um irmão que ainda mora na cidade cearense de onde saí para virar uma celebridade recifense. O local chama-se Barbalha, a terra dos verdes canaviais (pena que mais nenhum engenho funcione nos dias de hoje), vizinho de Juazeiro do Norte, a terra do Padim Cícero. Aliás, o padre justifica a fama de milagreiro, porque conseguiu transformar um lugar sem atrativos numa potência econômica regional. Depois de cinco anos, é a chance de voltar a ver os romeiros, a exploração e a fé tudo no mesmo pacote. Um bom material para o blog, que está se tornando mesmo um diário de viagens. Só retorno à civilização na próxima segunda-feira. Gracias.



Escrito por goethe às 17h01
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era tudo verdade

Quem acompanha a saga dos Mochileiros das Galáxias sabe que Ford Prefect serviu de inspiração para o autor, Douglas Adams, batizar o extraterrestre que estava passando uns tempos na Terra. Encontrei-o em Montevidéu, no Uruguai, perto de uma feirinha de antiguidades. Estava muito bem conservado para a idade. Não resisti e fiz este registro. Não é sempre que um nome de livro ganha formas.



Escrito por goethe às 21h09
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it's only rock'n'roll?

Alguém pode me dizer o motivo de nenhuma revista boa de música emplacar no Brasil? Nesta andança por Buenos Aires pude adquirir nas bancas versões em espanhol de dois títulos conhecidos: a Rolling Stone norte-americana e a Inrockuptibles francesa. Material de primeira, que me fez companhia nas viagens de ônibus. Ainda lemos bem menos do que nossos vizinhos.



Escrito por goethe às 20h37
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deu pra ti, baixo astral...

Meu acidente no futebol quase estraga minhas férias, as primeiras em longos sete anos. E o pior é que o roteiro estava cuidadosamente planejado e as passagens aéreas pagas. Ainda bem que tudo se resolveu a tempo de se embarcar para o Rio de Janeiro e, um dia depois, para Porto Alegre, onde após dois pernoites começaria a viagem para o Uruguai e a Argentina. A capital gaúcha é uma cidade simpática, limpa e que tem poucas atrações que chamem a atenção para fotos. Por uma feliz coincidência, estava acontencendo a 50ª Feira do Livro e foi uma maravilha caminhar entre dezenas de barracas que vendiam exemplares de todos os tipos numa larga extensão no centro da cidade. Sem nenhum guia da cidade, foi na feira que descobrimos bem próximo o Centro Cultural Santander, onde havia uma exposição de fotografia com um vasto material de Cartier Bresson. Também no entorno da feira um museu do governo estadual apresentava tapeçarias feitas na Europa desde a Idade Média. E tudo gratuito. Uma parada no Centro Mário Quintana, para se tomar um café como o poeta gostava, com direito a quindim. Tempo também para se fazer um tour pela cidade num ônibus de dois andares, disponibilizado pela prefeitura. O que dizer de um roteiro onde até um McDonald's temático é citado como atração? O melhor é andar pela centro e fazer uma visita ao Mercado Público restaurado, para se comprar frutas secas e ver o movimento. Não é só gaúcho que gosta de mate, mas a visão de gente carregando sua garrafa térmica no suvaco começou a se tornar comum na viagem. E ainda deu para se lembrar de amigos como a Amita, com sua saudação tão peculiar. Vai ver que foi por isso a viagem toda transcorreu tranquila.



Escrito por goethe às 23h58
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uma andada na república cisplatina

Uma busca na internet e a dica realmente comprovou ser verdadeira. As empresas de transporte uruguaias e argentinas prestam um melhor serviço do que as brasileiras. Na hora da compra de passagens de ônibus para Montevidéu, a escolha foi por uma onde o motorista não falasse português. São dez horas de viagem a partir de Porto Alegre, mas as cadeiras são confortáveis e ainda tem serviço de bordo com jantar e café da manhã. E isso sem ser leito. Quando o dia amanhece, pode-se ver pela janela Punta Del Este, o balneário frequentado pelos famosos da Bacia do Prata. É uma bela cidade deserta nestes dias chuvosos. Desembarcamos em Montevidéu às 9h, com um baita frio. Seis graus e um vento que fazia você andar feito Frei Damião. A capital do Uruguai é uma cidade que parou no tempo. Os prédios datam da primeira metade do século XX e muitos carros velhos pela rua. Um povo muito simpático e caloroso com os brasileiros. Uma constatação que só se reafirmou na Argentina. Nossos vizinhos sabem muito mais de nós do que a nossa contrapartida. Foram apenas dois dias em Montevidéu, o suficiente para conhecer os principais monumentos da Ciudad Vieja, fazer um passeio de ônibus num veículo de 1954 restaurado por uma ONG, assistir a um show de rock, ver apresentações folclóricas na rua, presenciar a troca de guarda no monumento a Artigas e, principalmente, comer e beber muito e bem. Nada como uma Pilsen uruguaia de um litro para se refazer das caminhadas. As porções individuais alimentam bem duas pessoas com muita fome. E por falar em comida, mandei para o estômago a famosa parrillada, o prato típico composto por várias pedaços de boi que é melhor não perguntar quais partes da anatomia. Foi uma boa aclimatação para se entender melhor o espírito de nuestros hermanos. O melhor da aventura ainda viria a seguir.



Escrito por goethe às 23h29
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mi buenos aires querido (parte I)

RECOLETA

Foram três horas de barco no Buquebus de Montevidéu a Buenos Aires. A chegada à capital argentina foi em pleno domingo, numa tarde de sol. Depois de deixar as malas no hotel, a primeira opção foi ir caminhando até o bairro da Recoleta, onde uma feirinha é a opção de nove entre dez pessoas que estão de bobeira na cidade. Entre o bairro do Retiro e a Recoleta pode-se perceber porque os mais ricos escolheram viver neste trecho de Buenos Aires. As grifes mais caras do mundo têm uma lojinha por lá. O hotel mais chique, o Alvear, e um shopping center luxuoso já mostram que é melhor nem ficar parado olhando as coisas para não chamarem a polícia. Os gramados dos parques argentinos ficam tomados de gente que quer aproveitar o solzinho de primavera. A feirinha é aquela coisa típica de sempre. O bom é que pode-se caminhar alguns metros a mais e entrar no famoso cemitério que abriga o túmulo de Evita e outras personalidades locais. Melhor ainda foi a carona num grupo onde o guia contava histórias mórbidas, como a moça que foi enterrada viva ou o revolucionário que só tem a cabeça enterrada no local. Um bom programa de domingo. 

CENTRO

Na fronteira entre o bairro do Retiro e o Centro, a Plaza General San Martin domina a paisagem. É considerada o mais belo logradouro de Buenos Aires, com dois monumentos, um ao comandante militar que derrotou os ingleses neste local, em 1807 e outro aos argentinos tombados na Guerra das Malvinas, contra os mesmos ingleses, mais de 150 anos depois. Dois guardas ficam de plantão em frente aos nomes dos mortos, mas não são tão rígidos assim. Podem bater papo e até rir, mas a questão das ilhas Malvinas continua sendo um travo na garganta dos argentinos. As fotos da praça foram feitas do alto da Torre dos Ingleses, inaugurada em maio de 1916 e com 60 metros de comprimento. Aliás, depois da guerra das Malvinas, o prédio tornou-se oficialmente Torre Monumental. As portas estão pichadas com termos nada elogiosos aos súditos da rainha. Nos jornais, as Malvinas são incluídas no mapa da Argentina na divulgação do tempo. Rivalidade é isso, a nossa é apenas uma briga de vizinhos por causa de uma bola.

LA BOCA

São os cem metros de rua mais famosos de Buenos Aires. El Caminito, no bairro de La Boca, tem mais turista do que argentino. É um bom lugar para se tirar fotos, rir das imagens de Maradona barrigudo, tomar uma cerveja Quilmes a seis pesos a garrafa para poder ver um rápido show de tango e sair para outro lugar da cidade. O assédio é grande e irrita quem quer ver os detalhes das construções de lata pintadas com cores berrantes.



Escrito por goethe às 14h08
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mi buenos aires querido (parte II)

PUERTO MADERO

A receita é simples e pode ser feita com ingrediente locais. Pega-se uma região portuária abandonada e utiliza-se a área para a construção de imóveis de luxo e restaurantes. Além da arrecadação de impostos, ganha-se com o aumento no fluxo de turistas. Foi o que aconteceu com Puerto Madero. Os 16 prédios da doca em estilo inglês ganharam uma injeção de dois bilhões de dólares e, quinze anos depois, os portenhos e visitantes hoje podem apreciar a paisagem. A fragata na primeira foto é um museu da Marinha argentina. Na segunda foto, o destaque é a Ponte da Mulher, uma estrutura de 160 metros em aço e madeira com um visual arrojado. Puerto Madero é tão sofisticado que tem até filial de uma churrascaria pernambucana, o Spettus. Pena que o tempo não ajudou. Muito frio e nublado.

SAN TELMO 

Se Buenos Aires fosse o Recife, o bairro de San Telmo seria, com certeza, Olinda. É a parte mais antiga da cidade e lugar dos verdadeiros boêmios. Foi onde tive a sorte de uma refeição saborosa a apenas cinco pesos: um arroz de polvo (calamares) num restaurante familiar frequentado por funcionários de empresas vizinhas com seus grandes crachás nos paletós e casacos. San Telmo é bastante frequentada pelos turistas aos domingos, por causa de sua feira de antiguidades, mas é durante a semana que a verdadeira alma dos moradores aparece. O bairro é cheio de referências ao tango, de painéis em fachadas de prédio à sede do Viejo Almacén, onde os grandes cantores se apresentavam. As lojinhas de antiguidades ficam em prédios antigos restaurados e outros nem tanto assim. E o melhor é que pode-se chegar ao coração do bairro de metrô, gastando poucos centavos. E a maioria dos ônibus também vai ao centro, o que facilita a jornada. San Telmo tem ainda um grande parque, o Lezama, que abriga o Museu Histórico Nacional. Perto dele, a igreja apostólica ortodoxa russa, com suas cinco cúpulas em forma de cebola. Ela fica num endereço simpático: avenida Brasil, 315.



Escrito por goethe às 13h23
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mi buenos aires querido (parte III)

MONTSERRAT

A Casa Rosada fica na Plaza de Mayo e é onde o presidente argentino toma as decisões de reduzir o poder de compra da população. Esperava uma construção maior, mas já me habituei ao fato de que as fotos enganam. Como estava de férias, fiz esta imagem e caí fora. Vai ver que rolava uma coletiva...

Em frente ao prédio da Casa Rosada, a Plaza de Mayo é o local onde a polícia e os manifestantes geralmente se encontram. E foi onde vi a maior concentração de pedintes na viagem. Educados, solicitavam "uma monedita, por favor". Durante a semana, é comum algum grupo estar protestando contra alguma coisa. A turistada adora.

No entorno da Plaza de Mayo está a Catedral Metropolitana, uma construção do século XIX cuja fachada lembra mais um templo grego do que uma igreja. Vale a visita para para ver o túmulo de San Martin, o líder da independência argentina que é residente do lugar desde 1880. Os dois guardas não piscam o olho, mesmo diante do povo que insiste em tirar foto perto deles. Talvez derive disto o ódio que alguns militares cultivam da gente sem farda.

A lenta recuperação econômica argentina trouxe o movimento de volta à Calle Florida, a rua de pedestres repleta de lojas e de gente que entrega papelzinho e quase implora para você ver as últimas novidades em couro. Com o peso paritário ao real, dá para levar vantagem em algumas compras, principalmente roupas. No mais, vale pelo passeio. O importante é não parecer ser turista, para evitar ser vítima de algum golpe. Em Roma, como os romanos. Em Buenos Aires como os portenhos. Se tiver cabelo grande, já é metade da tarefa.

O teatro Colon é um dos orgulhos portenhos. Imagens internas não são permitidas, a não ser no saguão de entrada. Por sete pesos, pode-se conhecer os detalhes deste prédio, que tem três subsolos e um corpo de 1,2 mil funcionários. Inaugurado em maio de 1908, é considerado um dos melhores teatros do mundo. Realmente impressiona. Pena que a próxima ópera só iria estrear nesta semana. Valeria a pena um ingresso, nem que fosse no poleiro.



Escrito por goethe às 13h12
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mi buenos aires (parte IV)

PALERMO

O metrô de Buenos Aires cobre bem a parte voltada para os turistas. É um bom complemento para o sistema viário, onde os ônibus e os táxis são abundantes e, principalmente, baratíssimos. Uma viagem de ônibus custa 80 centavos de pesos e as moedas devem ser colocadas na máquina que fica logo atrás do motorista, de onde se recolhe o tíquete da passagem. Uma viagem de metrô custa 70 centavos e este transporte é a melhor opção para se ir até o bairro de Palermo. Da estação da Plaza San Martin são seis paradas até a Plaza Italia. Na rua, a ordem é caminhar e aproveitar o verde. Palermo tem grande áreas arborizadas e três parques em sequência bem próximas à saída do metrô. Uma boa opção para quem viaja com crianças é o Zoológico. A entrada completa, com direito a todas as atrações, custa nove pesos. A variedade de animais é grande, tudo com as devidas informações.

Outro motivo para se visitar Palermo é o Jardim Botânico, onde as espécies florestais de várias partes do mundo convivem com esculturas, gatos e gente dormindo nos bancos. O prédio principal, que abriga exposições, está passando por reformas, mas só uma caminhada entre as alamedas já garante o passeio. Outro local que merece ser visitado é o Jardim Japonês, que fica a menos de um quilômetro deste local. Um lago artificial com carpas gordas, pontes de madeira e cerejeiras em flor garantiram um pouco de paz antes de voltar pro hotel e arrumar as malas para a viagem de volta.

CURIOSIDADES

O governo de Buenos Aires mantém um canal de televisão que é um exemplo de como se fazer prestação de serviço à comunidade com muito bom gosto e gastando o mínimo. Ciudad Aberta divulga toda a programação cultural da cidade e não tem um único apresentador. Os colaboradores são os próprios moradores, como esse, que enviou a foto de quando se viu pela primeira vez num espelho num dia de muito calor. Era um oásis no meio dos canais de televisão que abordavam apenas futebol ou fofocas de celebridades. Foi uma das boas lembranças que guardarei nesta pequena epopéia. De férias sim, mas sem perder o profissionalismo. 

Uma banca de revistas mostra bem o que consome um povo culto. E o argentino o é.



Escrito por goethe às 20h41
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aventuras na terra dos mullets

Uma digitada rápida em um "locutorio" próximo ao hotel. Depois de um frio de seis graus e uma parrillada em Montevidéu, as pernas e os olhos fatigados de tanto ver coisas em Buenos Aires. A cidade realmente é muito bonita e faz jus à fama de capital européia. Os argentinos cultuam realmente a tradicao (nao achei o cedilha e o til neste teclado, além de outros acentos): tanto que sao o o único povo do mundo que ainda cria cachorros da raca pequines, sem com contar com os mullets, aquele penteado que pensei que apenas os jogadores da selecao eram obrigados a usar. Como o peso vale exatamente o mesmo que o real, dá para conseguir pechinchas em artigos de primeira necessidade, como discos e camisetas de bandas de rock. No mais, o sistema de transporte público é eficiente e aqui tem táxis como moscas. E sao baratíssimos. O bairro da Boca é o lugar mais pega-turista destas bandas, mas vale visitar para ver as estátuas de Maradona barrigudo ao lado de Carlos Gardel. Aliás, vale esquecer o preconceito e deixar uns reais aqui neste país que tanto precisa. No mais, na quinta-feira inicio o longo retorno, com umas boas horas em um onibus até Porto Alegre. Hasta la vista, hermanitos!

Escrito por goethe às 20h02
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deu pra ti, baixo astral...

Acabo de sair de um cinema de shopping aqui em Porto Alegre. O filme é francês, chama-se "A Voz do Coração" e deve ser um dos indicados para concorrer ao Oscar de melhor produção estrangeira. Tem todos os ingredientes para emocionar, inclusive o ator principal de "Cinema Paradiso", que é também o diretor. O dia hoje foi de passear em shoppings, porque tudo que se tinha para conhecer na capital gaúcha foi visitado desde a última terça-feira. Dentro de poucas horas embarcaremos em um ônibus para Montevidéu. Quanto a Porto Alegre, ficamos num hotel bem central e a cidade é bastante fácil de se percorrer. Tivemos a sorte de chegar a tempo da 50ª Feira do Livro, que acontece no meio da rua. São dezenas de quiosques com livros a preço de promoção. Um paraíso. Também experimentei o legítimo "churrasco no espeto", como chamam rodízio por aqui. Passei longe do "cacetinho", preferi o croissant. O Mercado Central, recuperado, é um bom lugar para ver frutas e verduras e artigos exóticos, além de uma cerveja gelada num dos bares que funcionam até tarde. Ainda conseguimos tempo de assistir à peça "A Casa dos Budas Ditosos", baseado no livro de João Ubaldo Ribeiro que virou um monólogo por Fernanda Torres. O teatro São Pedro é belíssimo. No mais, o tempo aqui neste cybercafé está se encerrando. Hasta la vista, que o el fitero vem aí.

Escrito por goethe às 16h00
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