fiteiro
conversa afiada? só no fiado, porque o dono é desconfiado


o que você faria se só lhe restasse um dia...

"Luz, mais luz!", teria dito o Goethe verdadeiro no seu leito de morte. "... E o momento presente é eternidade.", escreveu ele no seu testamento. Faço esta introdução apenas para indicar a leitura do blog de Nascimento (http://www.bomtom.blogspot.com/), onde ela faz lista de epitáfios de amigos e personalidades (algumas não tanto assim). É para morrer de rir. O trocadilho é infame, mas irresistível.



Escrito por goethe às 22h42
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tem a hora certa pra viver

Foi na noite de 2 de fevereiro de 1997 que o carro de Chico Science se espatifou em Olinda. O tempo passa rápido, tanto quanto estava o Fiat Uno que o Francisco de Assis pilotava. Lembro-me de ter visto aquele cara do chapéu de palha redondo, mais a turma do Nação Zumbi, num show do finado Projeto Seis & Meia, no Teatro do Parque. Eles abriram para, se não me falha a memória, Arrigo Barnabé. Ou terá sido Eduardo Dusek? Não me lembro, mas também não importa. Achei legal aquela mistura de guitarra com tambores, mas confesso que não percebi, naquele momento, que estava diante de uma fagulha de uma revolução musical. O resto a história se encarrega de conta. Como todos que tiveram contato com o desabrochar daquela flor do mangue, foi difícil acreditar naquela história que me contaram à noite. "O Chico Science morreu". E aí a ficha caiu. Mas vendo os meninos do Nação Zumbi se reinventando, a gente crê nas sete vidas do malungo. O Chico menino continua fazendo ciência. Basta a gente querer ouvir.


Escrevi isto há um ano, bem no início do blog. Continua valendo.



Escrito por goethe às 22h21
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uma sangria desatada

Não sei como anda o clima em outros lugares, mas por aqui o calor está, como diria o grande Stanislaw Ponte Petra, obrigando urubu a voar de costas e se abanando ao mesmo tempo. Resolvi tentar fazer uma sangria, bebida que tem no gelo um dos seus principais ingredientes. Funcionou tanto que duas jarras evaporaram neste final de semana. É uma boa opção para quem vai para a folia ou pretende ficar em algum lugar longe dos blocos e troças. Eu compartilho a receita com você. Bom, barato, refrescante e delicioso.

* Uma garrafa de vinho tinto (só não também ser das mais baratas, porque influencia no resultado final)

* 100 ml de Soda Limonada

* Uma dose de Contreau

* Uma maçã

* Uma rodela de abacaxi

* Uma laranja

* Açúcar

Modo de preparo: corte a maçã em cubos e o abacaxi também. Descasce a laranja e retire a pele e as sementes. Depois também corte em pequenos pedaços. Reserve uma parte das frutas para colocar em cada copo. O restante pode colocar na jarra, junto com o vinho. Depois acrescente a soda e a dose de licor. Coloque açúcar e gelo a gosto e mexa bastante. Depois é só beber com moderação.

Fiz um teste que funcionou. Troquei o Contreau por Dry Martini. Experimente você também.



Escrito por goethe às 22h09
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vamos abrir a roda, enlarguecer...

Um pouco de Carnaval no outro endereço:

http://lottacontinua.zip.net



Escrito por goethe às 21h58
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rádio fiteiro no final de semana

Samba da Benção
(Vinícius de Moraes/Baden Powell)


É melhor ser alegre que ser triste
Alegria é a melhor coisa que existe
É assim como a luz no coração
Mas pra fazer um samba um samba com beleza

É
preciso um bocado de tristeza
Senão não se faz um samba, não


Fazer samba não é contar piada
Quem faz samba assim não é de nada
O bom samba é uma forma de oração

Porque o samba é a tristeza que balança
E a tristeza tem sempre uma esperança
De um dia não ser mais triste não...

Ponha um pouco de amor numa cadência
E vai ver que ninguém no mundo vence

A beleza que tem um samba não
Porque o samba nasceu lá na Bahia
E se hoje ele é branco na poesia
Se hoje ele é branco na poesia
Ele é negro demais no coração



Escrito por goethe às 21h19
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não custa nada sonhar

SONETO IMPERFEITO

 

Sempre fico com bolhas nos pés

Tiro sangue quando me barbeio

Minha herança torrei de viés

Há menos cabelos quando me penteio

 

Amo muito menos do que sou amado

Finjo muito mais do que falo a verdade

Minha condição é fazer tudo errado

Foram vãs as promessas da mocidade

 

O que eu quero está cada vez mais distante

Enfrento tudo sempre com uma dor no peito

Não faço nada do que já fiz muito antes

 

Repito o erro neste soneto imperfeito

Mas que deus me perdoe o rompante

E me garanta um confortável leito



Escrito por goethe às 01h14
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como será o amanhã?

É ISTO UM HOMEM?

(Primo Levi)

 

Vocês que vivem seguros

em suas cálidas casas,

vocês que, voltando à noite,

encontram comida quente e rostos amigos,

                         pensem bem se isto é um homem

                         que trabalha no meio do barro,

                         que não conhece paz,

                         que luta por um pedaço de pão,

                         que morre por um sim ou por um não.

                         Pensem bem se isto é uma mulher,

                         sem cabelos e sem nome,

                         sem mais força para lembrar,

                         vazios os olhos, frio o ventre,

                         como um sapo no inverno.

Pensem que isto aconteceu:

eu lhes mando estas palavras.

Gravem-nas em seus corações,

estando em casa, andando na rua,

ao deitar, ao levantar;

repitam-nas a seus filhos.

                         Ou, senão, desmorone-se a sua casa,

                         a doença os torne inválidos,

                         os seus filhos virem o rosto para não vê-los.


 

Primo Levi, um químico italiano levado para Auschwitz em 1944, sobreviveu ao inferno a tempo de se tornar escritor e contar suas experiências em livros. Foi um dos primeiros a contar o que se passava num campo de concentração durante a II Guerra Mundial. Os relatos de Levi se diferenciam das outras tantas vítimas da “Solução Final” de Hitler porque ele consegue dar uma dimensão humana a uma bestialidade. Seria uma boa leitura, senão obrigatória, para o príncipe Harry, que provocou um escândalo na Inglaterra ao ir a um baile de fantasia envergando um uniforme nazista.

Há seis décadas (ou sessenta anos, ou 21.915 dias), as tropas russas chegavam ao campo de concentração em Auschwitz, na Polônia. No dia 27 de janeiro de 1945, o horror era fotografado e filmado, mas os serviços de inteligência norte-americanos, britânicos e russos já haviam coletado informações sobre o que estava acontecendo com os judeus nos territórios ocupados pelos alemães. Aliás, não somente judeus – os cálculos são de que seis milhões deles foram mortos na Europa – mas também ativistas políticos, homossexuais, ciganos e testemunhas de Jeová.

Amanhã, chefes de estado farão novas promessas de paz. Os poucos sobreviventes ainda vivos contarão suas histórias. Depois só poderemos confiar na memória.



Escrito por goethe às 09h55
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poesia, pois é, poesia

Pego emprestado o título de um livro do grande Décio Pignatari para justificar os poemicos abaixo, hai-kais rasteiros surgidos durante uma espera na última segunda-feira dentro de um shopping center. Será que a pessoa aguardada merece a co-autoria? Em todo caso, alguns ficaram razoáveis a ponto de figurarem no meu livrinho que será desovado até o final deste semestre. Ganha um doce, ou melhor, uma pipoca, quem acertar.


I

Todo elegante,

em risca de giz,

escreve o aprendiz

II

pesadelo medonho:

sonhei que acordava

em pleno sonho

III

o que veio antes?

a sede do menino

ou o refrigerante?

IV

quem espera

sempre alcança

a fruta que balança?

V

menina que puxa a mãe

pai que puxa o menino:

roda-viva do destino

VI

relógio suicida

é o que pára

antes do tempo?



Escrito por goethe às 19h20
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wouldn't it be nice?

Uma informação dessa deve ser prontamente repassada. Está disponível, desde o final de dezembro, uma versão nacional caprichada de um dos maiores discos do século passado. "Pet Sounds" foi a resposta de Brian Wilson ao "Rubber Soul" dos Beatles, que logo revidaram com "Sgt. Pepper's". É uma longa história e muitos links estão disponíveis para quem quiser se aprofundar. O fundamental é que esta tiragem vem com as 13 músicas originais e um bônus na versão mono, como o disco foi lançado em maio de 1966. Na sequência, as mesmas 13 músicas na versão estéreo. As piruetas vocais dos Beach Boys são incomparáveis. "Pet Sounds" figura na lista dos dez mais importantes discos de muita gente, eu inclusive. O encarte traz todos os detalhes técnicos e muitas curiosidades. Um exemplo? Os meninos da Califórnia foram os primeiros da cena pop a usar o nome de Deus numa música. Deu certo. Uma prova de que o ser lá de cima entende de harmonia. Nem que seja somente musical.


GOD ONLY KNOWS

 

I may not always love you
But long as there are stars above you
You never need to doubt it
I’ll make you so sure about it

God only knows what I’d be without you

If you should ever leave me
Though life would still go on believe me
The world could show nothing to me
So what good would living do me

God only knows what I’d be without you

God only knows what I’d be without you

If you should ever leave me
Well life would still go on believe me
The world could show nothing to me
So what good would living do me

God only knows what I’d be without you
God only knows what I’d be without you
God only knows
God only knows what I’d be without you
God only knows what I’d be without you
God only knows
God only knows what I’d be without you
God only knows what I’d be without you
God only knows
God only knows what I’d be without you
God only knows what I’d be without you
God only knows
God only knows what I’d be without you
God only knows what I’d be without you
God only knows
God only knows what I’d be without you
God only knows what I’d be without you
God only knows
God only knows what I’d be without you



Escrito por goethe às 20h28
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um homem, uma mulher, um trem

Uma coisa puxa a outra, como vagões de trem. Lembrei-me que, na Livraria Cultura, havia visto uma caixa importada com todos os filmes de Buster Keaton. Nem perguntei o preço. Ontem à tarde fiquei com vontade de saber se ainda teria a chance de pelo menos calcular a possibilidade de endividamento, mas Inês era morta. Tive uma chance remota de voltar a rever, agora em formato digital, as peripécias do "herói que nunca ri". Para os fãs do cinema mudo, Keaton rivaliza com Chaplin. Principalmente com a sua performance em "The General", produção de 1927 em que ele faz o papel de um maquinista de trem que tenta resgatar a máquina (e, dentro dela, a noiva) que havia sido roubada pelos soldados do Norte. Trata-se da reconstituição de um episódio ocorrido na Guerra Civil norte-americana. Sem a ajuda de dublês, Keaton sobe e desce de um trem em movimento, segura uma bala de canhão, cai diversas vezes e ainda tem tempo para ser romântico. E pensar que eu tinha duas cópias em vídeo desse filme e emprestei... Mas tenho todas as imagens na memória. Uma coisa puxa a outra. Pesquisando na internet, descobri que Keaton faria aniversário no dia 6 de fevereiro. Seria uma festa em pleno Carnaval. Evoé!



Escrito por goethe às 20h12
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tem para todos os gostos

Mais uma safra variada pronta para ser colhida: http://lottacontinua.zip.net



Escrito por goethe às 19h57
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os alquimistas estão chegando

A culpa é do Jorge Ben. Tinha eu seis anos quando meus irmãos mais velhos compraram um vitrola e, como disco inaugural, um compacto duplo com quatro músicas tiradas do "Tábua de Esmeralda". Desde então passei a procurar me informar mais sobre alquimia, mas é o tipo de assunto que se dispõe de pouca bibliografia no Brasil. Aliás, praticamente nenhuma. Esbarrei neste livro há alguns meses, como sempre numa liquidação. Deveria ler mais sobre psicologia, principalmente sobre Jung, um pensador original que também se interessava sobre o legado deixado por Paracelso e muitos outros que tentaram chegar à Pedra Filosofal.

O interessante no livro do Jeffrey Raff, um psicólogo norte-americano, além das muitas citações de livros de alquimistas e a interpretação delas por Jung, é a sequência de imagens do Livro de Lambspring. Também conhecido como De Lapide Philosophico Libellus, foi escrito por um alquimista desconhecido e publicado diversas vezes entre o final do século XVI e início de XVII. São belos emblemas que podem ser interpretados à luz da psicologia. Será que a verdadeira Pedra Filosofal está dentro de nós?

  

EMBLEMA UM

"O primeiro emblema mostra dois peixes nadando em sentidos opostos no meio do oceano. De um lado desse oceano há uma floresta e do outro uma cidade e um castelo. Na água, destaca-se um barco com alguns homens acenando. Não há ponte entre as duas margens. A imagem que predomina no emblema é a dos dois peixes. Como símbolo onírico, o peixe sugere conteúdos do inconsciente coletivo. O mar, ou qualquer porção volumosa de água, simboliza o inconsciente coletivo. O texto refere-se a um peixe sem ossos, um tema geralmente encontrado em textos alquímicos. Michael Sendivogius refere-se ao filho dos filósofos, outro termo para a Pedra Filosofal, como 'um peixe sem ossos, que nada em nosso mar filosófico'. Jung resumiu o simbolismo do peixe dizendo que este 'caracteriza o si-mesmo, nesse estado, como um conteúdo inconsciente'".

EMBLEMA CINCO

"Vemos tensão e inimizade, e os dois animais - um lobo e um cão - parecem querer um pedaço da garganta alheia. Na verdade, o texto apresentado com esse emblema fala de fúria e ciúmes, e indica que os dois animais se matam mutuamente em sua raiva. Embora as coisas pareçam ir mal, esse é o curso natural dos eventos na alquimia. Normalmente, a coniunctio é associada à morte, e a morte dos parceiros costuma ser um requisito para a verdadeira mescla de suas essências. Em The Chemical Wedding of Christian Rosenkreutz, por exemplo, os jovens rei e rainha foram decapitados em seu casamento e o sangue de ambos foi misturado. Quando voltaram à vida, transmutaram-se em seres maravilhosos."

"A imagem em segundo plano remete-nos novamente ao primeiro emblema, no qual se via uma porção de água. Na margem direita havia um castelo e uma cidade e, na esquerda, a floresta. Nesta imagem, a cidade passou para o lado esquerdo que, agora, tem diversas estruturas artificiais. Mais importante ainda é o fato de haver uma ponte conectando as duas margens. Pontes são símbolos de conexão e sua presença neste emblema anuncia que a primeira coniunctio de fato ocorreu. O mundo do inconsciente e o da consciência estão unidos e muito mais interrelacionados que antes."

"O trabalho alquímico baseia-se, como a maioria das jornadas espirituais, no tema da morte e renascimento. Não há crescimento sem alguma morte ocorrida previamente, ou, como os alquimistas costumavam dizer, não pode haver geração sem putrefação. No processo de individuação essa verdade também se aplica".

EMBLEMA SEIS

"Os alquimistas sempre viram sua obra como algo concentrado em uma única substância, uma única matéria: a prima materia, que se transforma na Pedra Filosofal. O dragão é essa prima materia e, consequentemente, o si-mesmo."

"O dragão aparece mordendo sua própria cauda, formando o conhecido símbolo do uroboros. O uroboros tem diversos significados e é um tema difundido na alquimia. Na primitiva alquimia grega, representava a unidade da vida que se manifesta no tempo. Era, assim, o eterno movimento e desenvolvimento. Ao mesmo tempo, poderia simbolizar um guardião do portal que teria que ser eliminado para que o alquimista pudesse obter o remédio arcano que procurava. Jung achava que o uroboros não seria 'outro que o deus absconditus, o deus escondido na matéria'".

EMBLEMA TREZE

"O emblema mostra uma cena horrenda, a ingestão do filho pelo pai. Embora seja perturbador, o ato de devorar faz parte do processo, como indicado pela figura do sábio ancião, contemplando-o e aparentemente dando sua bênção ao rei. O tema do filho que é consumido pelo progenitor pode ser encontrado em muitas fontes alquímicas. Simbolicamente, ingestão significa integração. Como o filho ascendeu às estrelas e assumiu seu poder, o pai deseja agora, devorando o filho, adquirir também esses poderes."

 

EMBLEMA QUINZE

"Pai e filho não apenas se transformaram, cada um a seu modo, como também se uniram. O rei e o príncipe repartem o trono antes ocupado pelo pai. Nessa união duas imagens individuais são mantidas intactas - o si-mesmo humano não é absorvido pela divindade e o si-mesmo divino não é assimilado pelo si-mesmo humano. Cada um se mantém vivo e separado, plenamente autônomo, mas profundamente unido ao outro."

"Note que o guia tambéme stá lá, abraçando pai e filho. Está no centro, como a força que serve para unir continuamente os dois parceiros. O guia simboliza a consciência que dirige todos os processos. Sua orientação corresponde ao que Jung chamou de conhecimento absoluto, cujo modo de atuação ainda é sumamente misterioso."   



Escrito por goethe às 08h20
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oração de uma breve sexta-feira

Jorge de Capadócia

(Jorge Ben)

Jorge sentou praça
na cavalaria
eu estou feliz porque eu também sou da sua companhia (2X)

Eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Para que meus inimigos tenham mãos
e não me toquem
Para que meus inimigos
tenham pés e não me alcancem
Para que meus inimigos
tenham olhos e não me vejam
E nem mesmo o pensamento
eles possam ter para me fazer mal
Armas de fogo
meu corpo não alcançarão
Facas e espadas se quebrem
sem o meu corpo tocar
Cordas e corentes se arrebentem sem o meu corpo amarrar
pois eu estou vestido com as roupas e as armas de Jorge
Jorge é de Capadócia



Escrito por goethe às 08h05
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rádio fiteiro em programação temática

Sina
(Fagner & Ricardo Bezerra, adaptação da poesia de Patativa do Assaré)


Eu venho desde menino
Desde muito pequenino
Cumprindo o belo destino
Que me deu Nosso Senhor

Não nasci pra ser guerreiro
Nem infeliz estrangeiro
Eu não me entrego ao dinheiro
Só ao olhar do meu amor

Carrego nesse meus ombros
O sinal do Redentor
E tenho nessa parada
Quanto mais feliz eu sou

Eu nasci pra ser vaqueiro
Sou mais feliz brasileiro
Eu num invejo dinheiro
Nem diploma de doutor



Escrito por goethe às 18h13
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as aparências enganam aos que odeiam e aos que amam

"Creio que o grande problema do ser humano nos dias atuais, é a constituição precoce de um sentimento de insuficiência. Esse sentimento deixa o indivíduo com a sensação de que não tem habilidades para modificar nada ao seu redor e, portanto, não pode mudar seu ambiente. Sentindo-se assim, o indivíduo terá como padrão a passividade, a dependência, a  raiva e a inveja. 

Para compreendermos isso, vamos ver as quatro fases específicas e que vão se constituir na inveja propriamente dita:  

1 - Primeiramente o indivíduo olha  um objeto, situação ou um traço de alguém que imediatamente admira. Compreende a importância daquele traço para ele. Ou seja, vê, admira e deseja.
2 - No momento seguinte há uma comparação entre o que o outro tem e o que o indivíduo  não tem. Ele toma consciência de uma falta sua porque já discrimina. Aqui o processo cognitivo é importante.
3 - Aí então o indivíduo tem o terceiro momento da inveja, que é a percepção e, ao mesmo tempo, a vergonha, de uma falta nele do que foi admirado (e valorizado) no outro. Surge aí, também, a constatação de que aquilo que desejou é impossível de ser obtido por ele.
4 - Logo estamos na quarta e última fase: a inveja é disparada pela percepção de uma falta no indivíduo. Essa insuficiência faz com que ataque e conseqüentemente espolie o objeto invejado para fazer desaparecer a diferença que foi percebida."

Mário Quilici

 
Internet é uma coisa engraçada, útil e perigosa, tudo ao mesmo tempo agora. Digitei a palavra inveja no Google e apareceram 225 mil páginas apenas em português. O texto acima é deveras interessante e  está disponível na íntegra neste link: (http://www.psipoint.com.br/arquivo_psicologias_inveja.htm). Às vezes é melhor deixar que os outros falem por você. Às vezes.


Escrito por goethe às 17h55
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a ferro e fogo, uma história americana

O AMOR

Na selva amazônica, a primeira mulher e o primeiro homem se
olharam com curiosidade. Era estranho o que tinham entre as
pernas.
- Te cortaram? - perguntou o homem.
- Não - disse ela. - Sempre foi assim.
Ele examinou de perto. Coçou a cabeça. Ali havia uma chaga
aberta. Disse:
- Não comas mandioca, nem bananas, e nenhuma fruta que se
abra ao amadurecer. Eu te curarei. Deita na rede e descansa.
Ela obedeceu. Com paciência bebeu os mingaus de ervas e se
deixou aplicar as pomadas e os ungüentos. Tinha de apertar os
dentes para não rir, quando ele dizia:
- Não te preocupes.
Ela gostava da brincadeira, embora começasse a se cansar de
viver em jejum, estendida em uma rede. A memória das frutas
enchia a sua boca de água.
Uma tarde, o homem chegou correndo através da floresta. Dava
gritos de euforia e gritava:
- Encontrei! Encontrei!
Acabava de ver o macaco curando a macaca na copa de uma
árvore.
- É assim - disse o homem, aproximando-se da mulher.
Quando acabou o longo abraço, um aroma espesso, de flores e
frutas, invadiu o ar. Dos corpos, que jaziam juntos, se
desprendiam vapores e fulgores jamais vistos, e era tanta a
formosura que os sóis e os deuses morriam de vergonha.
(baseada numa lenda cashinaua)


AS PERGUNTAS DO CACIQUE

Entrega comida e ouro e aceita o batismo. Mas pede que Gil
González de Ávila explique como Jesus pode ser homem e deus,
e Maria virgem e mãe. Pergunta aonde vão as almas quando saem
dos corpos e se está a salvo da morte o Santo Padre de Roma.
Pergunta quem escolheu o rei de Castilha. O cacique Nicarágua
foi eleito pelos anciões das comunidades, reunidos ao pé de
uma ceiba. Foi o rei eleito pelos anciões de suas comunidades?
Também pede o cacique que o conquistador lhe diga para que
tão poucos homens querem tanto ouro. Terão corpos suficientes
para tantos adornos?
Depois pergunta se é verdade, como anunciou um profeta, que
perderão sua luz o sol, as estrelas e a lua, e se o céu cairá.
O cacique Nicarágua não pergunta por que não nascerão
crianças nestas comarcas. Nenhum profeta lhe contou que daqui
a poucos anos as mulheres se negarão a parir escravos.
(Cuauhcapolca, 1523)


O EXTIRPADOR DE IDOLATRIAS

A golpes de picareta estão quebrando Cápac Huanca.
O sacerdote Francisco de Ávila grita com seus índios para que
se apressem. Ainda restam muitos ídolos para serem
descobertos e triturados nestas terras do Peru, onde ele não
conhece ninguém que incorra no pecado da idolatria. Jamais
descansa a cólera divina. Ávila, açoite dos feiticeiros, vive
sem sentar-se.
Mas para seus servos, que sabem, cada golpe dói. Esta pedra
grande é um homem escolhido e salvo pelo deus Pariacaca.
Cápac Huanca foi o único que partilhou com ele sua chicha de
milho e suas folhas de coca, quando Pariacaca se disfarçou
com trapos e veio a Yarutini e aqui suplicou que lhe dessem
de beber e mascar. Esta grande pedra é um homem generoso.
Cápac Huanca foi esfriado e convertido em pedra, para que não
fosse levado pelo furacão de castigo que levou, em um sopro,
todos os outros.
Ávila faz com que joguem seus pedaços em um abismo. Em seu
lugar, finca uma cruz.
Depois pergunta aos índios a história de Cápac Huanca e a
escreve.
(Yarutini, 1611)


Eduardo Galeano é uruguaio, mas tem um coração do tamanho do continente americano. A trilogia "Memória do Fogo" integra a minha lista de livros-espelhos, aqueles que servem para revelar o que somos. Os três textos acima integram o primeiro volume, um calhamaço de 334 páginas repletas de pequenas histórias desde as lendas dos donos desta terra antes da chegada de Colombo até o início do século XVIII. É a história dos vencidos a partir dos documentos deixados pelos vencedores. A origem do amor, narrada pelos cashinauas, supera em lirismo muito de tudo o que a literatura ocidental versou sobre o tema. Mesmo não ficando pedra sobre pedra, a alma permanece intacta. Palavras são imortais. De todos os fogos, o fogo.



Escrito por goethe às 19h49
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pagando todos os poemicos

      NEGATIVO*
         (Paulo Goethe)


      na fotografia
      saiu todo mundo:
      ninguém quis se revelar


        
*Este poemico vai fazer parte do meu livro "PiPoCa", que pretendo lançar até o final de julho deste ano, com material produzido desde 1985, sob fortes influências de mestres como Mário Quintana, Oswald de Andrade, Leminski, Bashô e outros entortadores de palavras. Será a primeira e única vez que incluo algo produzido seriamente aqui, porque internet é bicho muito perigoso. Em todo caso, tenho provas de que o poemico acima é meu mesmo. Não é lá essas coisas, mas diante do que vi e li, não faz feio. Como quero lançar uma edição independente, sem patrocínio de ninguém, tive que abortar o projeto no ano passado. Mas a idéia de fazer em um formato que caiba num saco de pipoca (não é original?) e com um preço final de R$ 5,00 permanece. 2005 é o ano das coisas todas acontecerem. Quem viver, lerá.



Escrito por goethe às 18h56
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rádio fiteiro em tom de homenagem

Dance Me To The End Of Love

(Leonard Cohen) 

Dance me to your beauty with a burning violin

Dance me through the panic 'til I'm gathered safely in

Lift me like an olive branch and be my homeward dove

Dance me to the end of love

Dance me to the end of love

 

Oh let me see your beauty when the witnesses are gone

Let me feel you moving like they do in Babylon

Show me slowly what I only know the limits of

Dance me to the end of love

Dance me to the end of love

 

Dance me to the wedding now, dance me on and on

Dance me very tenderly and dance me very long

We're both of us beneath our love, we're both of us above

Dance me to the end of love

Dance me to the end of love

 

Dance me to the children who are asking to be born

Dance me through the curtains that our kisses have outworn

Raise a tent of shelter now, though every thread is torn

Dance me to the end of love

 

Dance me to your beauty with a burning violin

Dance me through the panic till I'm gathered safely in

Touch me with your naked hand or touch me with your glove

Dance me to the end of love

Dance me to the end of love



Escrito por goethe às 17h21
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a bênção, manoel de barros

Para apalpar as intimidades do mundo é preciso
saber:
a) Que o esplendor da manhã não se abre com faca
b) O modo como as violetas preparam o dia para morrer
c) Por que é que as borboletas de tarjas vermelhas têm devoção por túmulos
d) Se o homem que toca de tarde sua existência num fagote, tem salvação
e) Que um rio que flui entre dois jacintos carrega mais ternura que um rio que flui entre dois lagartos
f) Como pegar na voz de um peixe
g) Qual o lado da noite que umedece primeiro
etc
etc
etc
Desaprender oito horas por dia ensina os princípios



Escrito por goethe às 14h41
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não desistir é o primeiro passo para a vitória

A luta, ou melhor, o lotta, continua, companheiros!



Escrito por goethe às 03h18
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macarrão, um negócio da china

Estou lendo um livro sobre alquimia, não culinária. Mas é que, no meio das folheadas, descobri que nunca mais tinha comido macarrão. Inventei uma receita baseada nos ingredientes disponíveis na despensa. Uma lata de molho de tomate com azeitonas, outra de salsichinhas defumadas, cebola picada, meio pimentão. Um fio de azeite na água, sal a gosto e mãos à obra. Nenhuma pedra filosofal, mas com a ajuda de um vinho branco (última garrafa do Carlo Rossi, californiano que recomendo) até que a tarde de sábado foi de bom tamanho. Nenhum macarrão da nonna, como os amigos lembraram nos seus respectivos blogs, mas decente o suficiente para convidá-los à mesa. Uma ceia virtual, por enquanto, mas é só uma questão de tempo. O alquimista está chegando.   



Escrito por goethe às 03h12
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à sombra das palmeiras imortais

"Ninguém passeia impunemente sob palmeiras" - Goethe (o verdadeiro), As Afinidades Eletivas

Nem sabia que este livrinho escrito pelo argentino radicado no Canadá, Alberto Manguel, sobre o escocês que viveu seus últimos dias nas Ilhas Samoa, Robert Louis Stevenson, começava com a citação desta frase de Goethe. Trata-se de uma ficção baseada em fatos vividos ou descritos pelo autor de "A Ilha do Tesouro" e "O Médico e o Monstro", dentro de uma série criada pela Companhia das Letras, "Literatura ou Morte". São apenas 87 páginas, que somente ressaltam a delicadeza estilística de Manguel e despertam o desejo de (re)ler Stevenson. Repararam na bolinha vermelha na capa do livro? Trata-se, na verdade, de um selo de promoção. Mais uma para contar história.



Escrito por goethe às 09h10
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um disco antes, uma pornochanchada depois...

Confesso: sou adepto de uma boa sacanagem, daquelas bem brasileiras, feitas na década de 70 com poucos recursos técnicos e diálogos impagáveis. A pornochanchada - gênero que criou deuses da cultura nacional como os cafajestes Paulo César Pereio e Jece Valadão e as peladonas Helena Ramos, Aldine Muller e Sandra Bréa, entre muitas outras - já tem sua trilha sonora, um disco que já figura como um grandes lançamentos do ano. Este comentário deveria figurar no lotta continua, mas tive uma espécie de vontade precoce e não pude me segurar. Recebi o disco hoje. "Sexy 70" é criação do músico Alexandre Caparroz, o Che, que já foi integrante de uma banda, a Professor Antena, que não fez sucesso nos anos 90. Ele, a princípio, queria fazer uma coletânea com as trilhas sonoras dos filmes produzidos na época. Como não conseguiu, resolveu criar sons para filmes inventados, todos com títulos deliciosos como "Um Grapete Antes, Um Cigarro Depois". E tome pianinho safado, guitarrinha wah-wah, bateria seca e todos aqueles sons que faziam ruído de fundo para as caras e bocas, além de seios e bundas, que surgiam na telona. Pereio e Helena Ramos gravaram vinhetas com frases que traduzem bem o espírito da época:

"Eu não sou mais virgem, faz muito tempo.."

"Eu te amo, porra!"

"Ora, mamãe, você nunca fez isso com papai?"

"Não é qualquer vadia que entra no meu Maverick..."

"Piranha também é filha de Deus!"

"Sobe aí que eu te levo para tomar um sorvete..."

"Mas você me jurou amor eterno, Ricardo!"

"Que tal a gente subir para apreciar a lua cheia?"


O disco tem o subtítulo "Music Inspired By The Brazilian Sacanagem Movies Of The 1970's". Precisa dizer mais? Sim, elogiar o belo texto do encarte, feito por Ricardo Alexandre, que contextualiza bem o clima da época. Era muito criança para assistir aos filmes no cinema, mas temos agora o Canal Brasil para ter acesso a pérolas como "Mulher Objeto", "Histórias Que Nossas Babás Não Contavam" e "O Homem de Itu". Espantoso.



Escrito por goethe às 18h10
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uma verdadeira viagem

Envolvido em funções burocráticas, pelo menos neste ano ainda não havia sentido prazer em trabalhar em jornal até que vi publicadas, no caderno de Viagem, as fotos e matérias sobre a aventura em Israel. As imagens foram editadas no blog antes, mas nada como o cheiro de tinta no papel. Minha vocação é esta. Posso ser um falso Goethe, mas não levo a vida em vão.



Escrito por goethe às 01h33
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não é o que aparenta ser

Resolução de ano novo: voltar a ter um bom ritmo de leitura, com pelo menos um título concluído a cada semana. Ontem foi a vez de chegar ao ponto final de "A Caverna das Idéias", do cubano radicado na Espanha, José Carlos Somoza. A princípio, é apenas uma história policial ambientada na Grécia Antiga. O ateniense Héracles, o Decifrador de Enigmas, é contratado por um filósofo seguidor de Platão para investigar a causa das mortes de jovens alunos da Academia. Seus corpos mutilados aparentam ter sido vítimas de ataques de lobos, mas as aparências enganam. A história é narrada por um tradutor, que está às voltas também com um significado oculto em cada capítulo. Não posso ultrapassar deste ponto.

"Escrever é estranho, meu amigo; em minha opinião, é a primeira atividade mais estranha e terrível que um homem pode realizar - e acrescentou, voltando a mostrar seu econômico sorriso: - Ler é a segunda." (página 144)



Escrito por goethe às 23h59
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neste país tudo acaba em pizza

Mais uma semana de blog atualizado: http://lottacontinua.zip.net



Escrito por goethe às 22h40
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um cavalo na cozinha


O nome científico é Scomberomorus cavalla, mas pode chamar de Cavala, com um "l" apenas. Foi a protagonista de uma receita acavalada que inventei neste domingo. Peguei duas postas e cortei a carne tenra em pequenos pedaços, quase cubos não fosse a espessura. Temperei-os com sal, limão e pimenta-do-reino. No Wok (aquela panela chinesa que bate um bolão na cozinha), esquentei um pouco de azeite, acrescentei um pouco de óleo de gergelim - o segredo do chef aqui revelado. Coloquei o peixe no Wok, acrescentando, logo em seguida, pequenos pedaços de pimentão, tomate e cebola roxa, a santíssima trindade das verduras e agregados. Para contrabalançar o sabor do peixe, que não ficou frito, mas cozido pelo líquido que os legumes soltaram, incluí lascas de azeitonas. Ficou tão bom que quando pensei em tirar foto para compartilhar com vocês pelo menos a imagem já era tarde. Pelo menos fica a receita. Na próxima estão todos convidados. Se eu disser que comi como um cavalo soa mal? É tarde, o trocadilho infame já está feito e ganhou vida própria. 



Escrito por goethe às 21h54
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talvez, quem sabe, um dia

O AMOR 
(Maiakóvski)


Um dia, quem sabe,
ela, que também gostava de bichos,
apareça
numa alameda do zôo,
sorridente,
tal como agora está
no retrato sobre a mesa.

 
Ela é tão bela
que, por certo, hão de ressuscitá-la.
Vosso Trigésimo Século
ultrapassará  o exame
de mil nadas,
que dilaceravam o coração.

 
Então,
de todo amor não terminado
seremos pagos
em enumeráveis noites de estrelas.


Ressuscita-me,
nem que seja só porque te esperava
como um poeta,
repelindo o absurdo cotidiano!

 
Ressuscita-me,
nem que seja só por isso!

 
Ressuscita-me!
Quero viver até o fim o que me cabe!


Para que o amor não seja mais escravo
de casamentos,
concupiscência,
salários.

 
Para que, maldizendo os leitos,
saltando dos coxins,
o amor se vá pelo universo inteiro.


Para que o dia,
que o sofrimento degrada,
não vos seja chorado, mendigado.


E que, ao primeiro apelo:
Camaradas!
Atenta se volte a terra inteira.

Para viver
livre dos nichos das casa.

Para que
doravante
a família
seja
o pai,
pelo menos o Universo;
a mãe,
pelo menos a Terra.

(1923)




Adaptação por Caetano Veloso e Ney Costa Santos

Talvez, quem sabe, um dia
Por uma alameda do zoológico ela também chegará
Ela que também amava os animais
Entrará sorridente assim como está
Na foto sobre a mesa

Ela é tão bonita
Ela é tão bonita que na certa eles a ressuscitarão
O século trinta vencerá
O coração destroçado já
Pelas mesquinharias

Agora vamos alcançar
Tudo o que não podemos amar na vida
Com o estrelar das noites inumeráveis

Ressuscita-me ainda que mais não seja
Porque sou poeta e ansiava o futuro


Ressuscita-me lutando contra as misérias
Do cotidiano, ressuscita-me por isso
     
Ressuscita-me quero acabar de viver o que me cabe
Minha vida para que não mais existam amores servis

Ressuscita-me para que ninguém mais tenha
Que sacrificar-se por uma casa ou um buraco

Ressuscita-me para que, a partir de hoje,
A família se transforme e o pai seja pelo menos o universo
E a mãe seja no mínimo a Terra


Ainda nesta fase de início de ano, lembrei-me deste poema do grande poeta russo e fiquei com a versão cantada por Gal Costa martelando na cabeça. Serve para todas as ocasiões, principalmente para as perdas e os reencontros. Serve para a vida. Esta nossa de cada dia.



Escrito por goethe às 01h30
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aviso de utilidade pública

E perdemos Will Eisner, o famoso quadrinista criador de Spirit. Sem contar outras histórias criadas com um sentimento humanista que vai fazer falta nos dias de hoje. Tinha até uma coleção razoável dos álbuns de Spirit lançados pela editora L&PM, mas pelo meu espírito altruísta eu emprestei a maior parte para um dos dos diretores do jornal Folha de Pernambuco. Seu Américo, quero meu material de volta. Espero que este blog, em 2005, tenha alguma utilidade pública.



Escrito por goethe às 00h30
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dúvida de náufrago

Será que blogar

é versão moderna

da garrafa ao mar?



Escrito por goethe às 18h47
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pátria de homens alucinados e mulheres históricas (parte I)

América Latina Não É Um Barco Sem Destino

 

Gabriel García Márquez

 

Antônio Pigafetta, um navegante florentino que acompanhou Magalhães na primeira viagem ao redor do mundo, escreveu, por ocasião de sua passagem pela nossa América Meridional, uma crônica rigorosa que, no entanto, parece uma aventura imaginada. Contou que viu cervos com o umbigo no lombo e uns pássaros sem patas cujas fêmeas punham os ovos nas espaldas do macho e outros animais sem língua, cujos bicos pareciam uma colher.

Contou que viu uma espécie de animal com cabeça e orelhas de mula, corpo de camelo, patas de cervo e relincho de cavalo.

Contou que ao primeiro nativo que encontraram na Patagônia lhe mostraram um espelho e aquele gigante apavorado perdeu o uso da razão diante de sua própria imagem.

Esse livro breve e fascinante, no qual se vislumbram os germes de nossas novelas de hoje, é nada menos do que o testemunho mais assombroso de nossa realidade daqueles tempos.

Os cronistas das Índias nos legaram outras narrativas incontáveis. Eldorado, nosso país ilusório tão cobiçado, figurou em numerosos mapas durante muitos anos, mudando de forma e lugar segundo a fantasia dos cartógrafos. Em busca da fonte da eterna juventude, o mímico Alvar Nuñez Cabeça de Vaca explorou durante oito anos o norte do México, em uma expedição alucinada cujos membros se comeram uns aos outros e só sobreviveram cinco dos 600 que a empreenderam.

Um dos muitos mistérios que nunca foram decifrados é das onze mil mulas carregadas com cem libras de ouro cada uma, que um dia saíram de Cuzco para pagar o resgate de Atahualpa e nunca chegaram a seu destino. Mais tarde, durante a Colônia, vendiam-se em Cartagena de Índias umas galinhas criadas em terras de aluvião em cujas gargantas se encontravam pedrinhas de ouro.

Esse delírio áureo de nossos fundadores nos perseguiu até bem pouco tempo. Apenas no século XIX a Missão Alemã, encarregada de estudar a construção da ferrovia interoceânica no istmo do Panamá, concluiu que o projeto era viável com a condição de que os trilhos não fossem feitos de ferro que era um metal escasso na região, mas sim de ouro.

A independência do domínio espanhol não nos pôs a salvo da demência. O general Antonio Lopez de Santana, que foi três vezes ditador do México, fez enterrar com cerimônias pomposas a perna direita que perdeu na chamada “Guerra de los Pasteles”.

O general Gabriel Garcia Morena governou o Equador durante 16 anos como um monarca absoluto, e seu cadáver foi velado com seu uniforme de gala e suas condecorações sentado na cadeira presidencial.

O general Maximiliano Hernandez Martinez, o déspota teósofo de El Salvador que ordenou o extermínio, em uma matança bárbara, de três mil camponeses, inventou um pêndulo para averiguar se os alimentos estavam envenenados e fez cobrir com papel vermelho a iluminação pública para combater uma epidemia de escarlatina.

O monumento ao general Francisco Morazan, erigido na Plaza Mayor de Tegucigalpa, é, na realidade, uma estátua do Marechal Ney comprada em Paris em um depósito de esculturas fora de uso.

Há onze anos, um dos poetas insignes de nosso tempo, o chileno Pablo Neruda, iluminou este cenáculo com sua palavra. Nas boas consciências da Europa, e às vezes também nas más, irrompeu, desde então, com mais ímpeto do que nunca as notícias fantasmagóricas da América Latina, essa pátria imensa de homens alucinados e mulheres históricas, cuja obstinação sem limite se confunde com a legenda. Não tivemos um momento só de sossego.

Um presidente prometéico entricheirado em seu palácio em chamas morreu lutando sozinho contra todo um exército e dois desastres aéreos suspeitos e nunca esclarecidos interromperam a vida de outro de coração generoso e a de um militar democrata que havia restaurado a dignidade de seu povo.

Houve cinco guerras e 17 golpes de estado e surgiu o primeiro ditador luciferino que, em nome de Deus, leva a cabo o primeiro genocídio da América Latina em nosso tempo.

Enquanto isso, dois milhões de crianças latino-americanas morriam antes de cumprir dois anos, que são mais do que o total de crianças nascidas na Europa Ocidental desde 1970.

Os desaparecidos por motivos de repressão são quase 120 mil, que é como se hoje não se soubesse onde estão todos os habitantes da cidade de Upsala.

Numerosas mulheres presas em estado de gravidez deram à luz em cárceres argentinos, mas ainda se ignoram o paradeiro e a identidade de seus filhos, que foram dados em adoção clandestina ou internados em orfanatos pelas autoridades militares.

Por não quererem que as coisas continuem assim morreram cerca de 200 mil homens e mulheres em todo o Continente e mais de 100 mil pereceram em pequenos e voluntariosos países da América Central – Nicarágua, El Salvador e Guatemala. Se isto fosse nos Estados Unidos a cifra proporcional seria de 1.600.000 mortes violentas em quatro anos.

Do Chile, país de tradições hospitaleiras, fugiram um milhão de pessoas: 10 por centro de sua população. O Uruguai, uma nação minúscula de dois e meio milhões de habitantes, que se considerava o país mais civilizado do Continente, perdeu no desterro um em cada cinco cidadãos.

A guerra civil em El Salvador causou, desde 1979, quase um refugiado acada 20 minutos. O país que se poderia povoar com todos os exilados e emigrados forçados da América Latina teria uma população mais numerosa do que a Noruega.



Escrito por goethe às 03h29
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pátria de homens alucinados e mulheres históricas (parte II)

Atrevo-me a pensar que é esta realidade descomunal, e não somente sua expressão literária, que este ano mereceu a atenção da Academia Sueca de Letras. Uma realidade que não é a do papel, mas que vive conosco e determina a cada instante de nossas incontáveis mortes cotidianas, e que sustenta um manancial de criação insaciável, rico de felicidade e de beleza, do qual este colombiano errante e nostálgico não é mais do que uma cifra destacada pela sorte.

Poetas e mendigos, músicos e profetas, guerreiros e vagabundos, todas as criaturas daquela realidade desaforada tivemos que pedir muito pouco à imaginação porque o desafio maior para nós tem sido a insuficiência dos recursos convencionais para fazer acreditável nossa vida. Este é, amigos, o nu de nossa solidão.

Pois se estas dificuldades nos entorpecem a nós, que somos de sua essência, não é difícil entender que os talentos nacionais deste lado do mundo, extasiados com a contemplação de suas próprias culturas, se sintam sem um método válido para nos interpretar.

É compreensível que insistam em nos medir com a mesma régua com que se medem a si mesmos, se lembrarem que os estragos da vida não são iguais para todos, e que a busca da identidade própria é tão árdua e sangrenta para nós como o foi para eles.

A interpretação de nossa realidade com esquemas alheios só contribui para nos tornar cada vez mais desconhecidos, cada vez menos livres, cada vez mais solitários.

Talvez a Europa venerável fosse mais compreensiva se tentasse nos ver em seu próprio passado. Se recordasse que Londres necessitou de 300 anos para sua construir sua primeira muralha e outros 300 para ter um bispo; que Roma se debateu nas trevas da incerteza durante 20 séculos antes de que um rei etrusco a implantasse na história; e que ainda no século XVI os pacíficos suíços de hoje, que nos deleitam com seus saborosos queijos e seus precisos relógios, ensangüentaram a Europa como soldados da fortuna.

Ainda no apogeu do Renascimento, 12 mil lasquenetes a soldo dos exércitos imperiais saquearam e devastaram Roma, e passaram na espada oito mil de seus habitantes.

Não pretendo encarnar as ilusões de Tonio Kroeger, cujos sonhos de união de um norte gasto e um sul apaixonado exaltava Thomas Mann há 53 anos neste mesmo local. Mas creio que os europeus de espírito clarividente, os que lutam também por aqui por uma pátria grande mais humana e mais justa, poderiam ajudar-nos melhor se revisassem a fundo sua maneira de nos ver.

A solidariedade com nossos sonhos nos fará sentir menos sozinhos, enquanto não se concretize com atos de apoio legítimo aos povos que assumam a ilusão de ter uma vida própria no elenco do mundo.

A América Latina não quer nem tem por que ser um barco sem destino, nem tem que ser um barco sem destino, nem tem nada de quimérico que seus desígnios de independência e originalidade se convertam em uma aspiração ocidental. Não obstante, os progressos da navegação, que reduziram tantas distâncias entre nossas Américas e Europa, parecem haver aumentado, em contrapartida, nossa distância cultural.

Por que a originalidade que nos admitem sem reservas na literatura nos é negada com toda a classe de suspeitas em nossas tentativas tão difíceis de mudança social?

Por que pensar que a justiça social que os europeus de vanguarda tratam de impor em seus países não pode ser também um objetivo latino-americano com métodos diferentes, em condições diferentes?

Não: a violência e a dor desmesuradas de nossa história são o resultado de injustiças seculares e amarguras sem conta, e não uma conspiração urdida a três mil léguas de distância de nossa casa.

Mas muitos dirigentes e pensadores europeus acreditaram, com o infantilismo dos avós que esqueceram as loucuras criadoras de sua juventude, como se não fosse possível outro destino do que viver à mercê dos grandes donos do mundo. Este é, amigos, o tamanho de nossa solidão.

Sem embargo, frente à opressão, ao saque e ao abandono, nossa resposta é a vida. Nem os dilúvios, nem as pestes, nem a fome extrema, nem os cataclismas, nem sequer as guerras eternas, através dos séculos e séculos conseguiram reduzir a vantagem tenaz da vida sobre a morte.

Uma vantagem que aumenta e se acelera: cada ano há 74 milhões mais de nascimentos do que de mortes, uma quantidade de novos vivos para aumentar sete vezes a cada ano a população de Nova York. A maioria deles nasce em países com menos recursos, e entre estes, naturalmente, os da América Latina.

Em compensação, os países mais prósperos conseguiram acumular suficiente poder de destruição capaz de aniquilar 100 vezes não somente a todos os seres humanos que existiram até hoje como também a totalidade dos seres vivos que passaram por este planeta de infortúnios.

Um dia, como o de hoje, meu professor William Faulkner disse neste mesmo local: “Me nego a admitir o fim do homem”. Não me sentiria digno de ocupar este local que foi seu se não tivesse a consciência plena de que, pela primeira vez, desde a origem da Humanidade, o desastre colossal eu ele se negava a admitir há 32 anos é agora mais do uma simples possibilidade científica.

Ante esta realidade intimidadora que através de todo o tempo humano deve ter parcelado uma utopia louca, os inventores de fábulas que todo somos, nos sentimos com o direito de acreditar que, todavia, não é muito tarde para empreender a criação da utopia contrária.

Uma nova e arrasadora utopia de vida, onde ninguém possa decidir por outros até a forma de morrer, onde na verdade seja certo o amor e seja possível a felicidade, e onde as estirpes condenadas a cem anos de solidão tenham por fim e para sempre uma segunda oportunidade sobre a Terra.

 

Íntegra do discurso de saudação à Academia Sueca, na tradicional cerimônia que antecede a entrega do Prêmio Nobel em 1982.

 

Texto dedicado ao hermano Luiz, do blog Soy Loco Por Ti



Escrito por goethe às 03h27
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declaração de princípios - 2005

Nada Será Como Antes

(Milton Nascimento - Ronaldo Bastos)

Eu já estou com o pé nessa estrada

Qualquer dia a gente se vê

Sei que nada será como antes, amanhã

Que notícias me dão dos amigos,

Que notícias me dão de você?

Alvoroço em meu coração

Amanhã ou depois de amanhã

Resistindo na boca da noite um gosto de sol

 

Num domingo qualquer, qualquer hora

Ventania em qualquer direção

Sei que nada será como antes, amanhã

Que notícias me dão dos amigos,

Que notícias me dão de você?

Sei que nada será como está

Amanhã ou depois de amanhã

Resistindo na boca da noite um gosto de sol



Escrito por goethe às 00h53
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olha lá, olho neles, fique de olho

Ano novo, blog renovado. De olho nas novidades. Sempre foi, sempre será. http://lottacontinua.zip.net



Escrito por goethe às 23h17
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a grande marcha numa semana

Passei a semana entre o Natal e o Réveillon mergulhado na leitura deste livro, um calhamaço de 765 páginas ppr Domingos Meirelles, repórter que já rodou por muita redação de jornal no eixo Rio-São Paulo antes de ficar com a cara conhecida na Rede Globo. A história da Coluna Prestes é um tema que já fascinava há muito tempo Meirelles. Em 1974, ele publicou uma série de matérias no Jornal da Tarde sobre os 50 anos da saga dos revolucionários que marcharam 36 mil quilômetros através de 12 estados brasileiros, entre julho de 1924 e fevereiro de 1927. Conseguiu tempo para pesquisar e lançar um livro que é boa referência em pesquisa histórica e jornalismo. E mostra como a nossa história é fascinante. Principalmente a dos derrotados (?) oficiais.



Escrito por goethe às 20h17
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