fiteiro
conversa afiada? só no fiado, porque o dono é desconfiado


peleja do agnóstico com o dono do céu

o agnóstico,

pernóstico

e catastrófico,

é categórico:

"deus é téorico"

 

majestoso,

o deus garboso

puxa o moço

do fundo do poço:

"acredita, ó horroroso?"

 

o agnóstico,

filosófico,

ainda é retórico:

"deus é teórico"

 

sem paciência,

mas com imponência,

o deus sem clemência:

"vá ao diabo bater continência"



Escrito por goethe às 01h38
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silly love songs

O casal mais famoso pós-Beatles foi Lennon & Yoko, mas Paul & Linda também escreveram uma bela história de amor. "Wingspan- An Intimate Portrait" é um documentário de duas horas que traça um painel da carreira de Macca após a separação dos Fab Four. É um panorama geral da banda Wings, que garantiu o sucesso do baixista em sua carreira solo. O DVD apresenta a história toda e ainda reúne os clips promocionais de "Jet", "Rockestra" e "Let 'Em In". Num período de dez anos, Paul & Linda tiveram quatro filhos, gravaram onze discos e fizeram dez turnês. Vale os R$ 14,90 gastos numa loja do Bompreço. Nem que seja para forjar uma falsa intimidade. 



Escrito por goethe às 01h20
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est omen in nomen

"Nomes condicionam destinos". Não conhecia este provérbio latino até ler uma resenha do escritor gaúcho Moacyr Scliar sobre o novo livro de Amós Oz, "De Amor E Trevas". Li apenas uma obra do Oz, mas já sou fã declarado. E também do Moacyr Scliar, que também é judeu e sabe usar o humor como ninguém. Foi uma tia minha, que morava no Recife, que convenceu meus pais, no interior do Ceará, a me batizar de Goethe. E assim me tornei um gauche na vida. Destino condicionado sem nada para refrigerar a alma na infância. Depois cresci e comecei a usar as palavras. Tornei-me abusado. Mais pra Mefistófeles do que para Fausto. Liberdade condicional ainda que tardia. 



Escrito por goethe às 00h55
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e do verbo se faz carne

Final de semana atípico, com duas peças boas em cartaz, ambas com temática baseada na música popular brasileira. Tuca Andrada revive o mito Orlando Silva, enquanto Pedro Paulo Rangel descortina o conteúdo das letras de Chico Buarque, Caetano, Gil, Paulinho da Viola, Cartola e MV Bill.

No sábado, a platéia no teatro da UFPE era majoritariamente da terceira idade, gente que justificava, na época, o título de Orlando Silva como o "cantor das multidões". Como santo de casa, Tuca esteve impecável. Uma peça com poucos elementos cênicos, onde a música foi a principal atração. As canções das décadas de 1930, 1940 e 1950, com seus dramas e descrições, mantêm um frescor em relação ao que vem sendo produzido em série nos últimos tempos.

Domingo, no teatro Santa Isabel, a platéia é mais jovem, sabe que Pedro Paulo Rangel é um ator global. A colagem de letras de canções é mais palatável. Auxiliado por um trio de corda, sopro e percussão, Rangel vai desfiando o seu rosário, transformando-se em malandro e prostituta e revelando facetas despercebidas naquela música que assobiamos em dias de sol. Letrista de música é poeta? Brasileiramente falando, sim. Em comparação com outros países, o que se canta não é um mero acessório. Ou supositório. Ou algo assim. Suponho.

Fiquei mais pobre R$ 60,00. Mas ganhei alguma coisa. Outras palavras. Tão sólidas que se desmancham no ar.



Escrito por goethe às 10h57
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hai-kais para uma cartilha infantil

um homem, uma mulher

o resto da história?

seja o que deus quiser...

 

na minha idade,

uma só receita:

respeitar quem respeita



Escrito por goethe às 16h11
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livros bons pra cahorro

É como se você estivesse num canil com vários cachorros latindo ao mesmo tempo para chamar sua atenção. Tratados como vira-latas, eles têm seu pedigree, só que na competição acabaram ficando para trás. Quando entro numa livraria, procuro logo pelas promoções. É um vício surgido na época em que eu era estagiário e tinha o dinheiro contado para gastar com livros. Procurava os mais baratos e, nem por isso, de menor qualidade. Claro que não se encontra nenhum best-seller da moda, mas já descobri muito autor bom usando este método. O argentino Ricardo Piglia, considerado o maior do seu país na atualidade, adquiri uma das suas obras fundamentais - "Respiração Artificial' - com um preço abaixo dos R$ 5,00 na cotação de hoje. Aliás, por este preço, pode-se conseguir boa literatura ainda hoje.

Comecei a ler ontem no ônibus e não parei mais. O protagonista desta ficção, um sino-americano chamado Wittman Ah Sing, vive em San Francisco em plena década de 1960. Entre hippies e a comunidade chinesa de Chinatown, ele sobrevive num mundo muito louco. A autora escreve bem pra caramba. Um trecho:

"Ah Sing pensava em suicídio todo dia. Alimentava a idéia. Via surgir junto ao olho direito um revólver negro. Olhava-o de lado. Lá vem ele. Realmente dobrava o dedo no gatilho e - pam! - a cabeça faz-se em pedaços, que voam para todos os lados do universo disperso. Aí, sangue, carne, miolos nojentos, tripas da mente, mas já estava morto e não via a sujeira. A boca permanecia ligada à cabeça. Ele gemia. Hemingway fizera isso na boca. Wittman não era el pachuco loco. Prova: sabia distinguir uma miragem de uma mesa. Ou de uma árvore, batia nela nela com os nós dos dedos, riscava um fósforo no tronco. Acendia um cigarro. Que mente não sofre um desequilíbrio de vez em quando?"

Página 7

 

"Sabe-se muito pouco a respeito de Buddy Bolden (1876?-1931), um dos fundadores do jazz. Dele resta apenas uma fotografia desfocada e um punhado de depoimentos de amigos e conhecidos. Sua música jamais foi gravada. Eis os poucos fatos conhecidos: Buddy Bolden viveu na Nova Orleans da virada do século, trabalhando como barbeiro e tocando cornetim à noite nas bandas locais. Inaugurou uma maneira nova de usar o instrumento, deixando uma impressão profunda em todos aqueles que o ouviram. Aos 31 anos de idade afundou na loucurae jamais recuperou a sanidade. Vinte e quatro anos depois, morreu no hospício. Nas mãos de um ficcionista dotado de imaginação e sensibilidade, a escassez de dados deixa de ser um obstáculo para ser uma vantagem. Em 1976, Michael Ondaatje recria a carreira meteórica de Bolden numa narrativa que se apresenta como romance e não biografia"

Orelha do livro  

"Uma coisa não dá nem pra imaginar: uma orquestra sem contrabaixo. A gente pode até dizer que em geral - e agora é uma definição - a orquestra só começa a existir quando o baixo está presente. Tem orquestra sem primeiro-violino, sem sopro, sem percussão e sem trompete, sem nada. mas sem baixo, não. Aonde eu quero chegar é na afirmação de que o contrabaixo é, de longe, simplesmente o instrumento mais importante da orquestra. E as pessoas não reconhecem isso."

Página 9 - Livro comprado para presente. Tenho um desse há uns bons anos na minha biblioteca 



Escrito por goethe às 01h43
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i'm ready now

 

ANGELS

(David Byrne)

There are no angels left in America anymore
They left after the Second World War heading west
Stopping briefly in Japan during the 60's
Then in Tianamen Square during the last decade
They kept heading west to who knows where
What are they after?
What are they looking for?
A messiah who never comes?
A virgin birth?
A perfect drug?
A sign, any kind of sign?
Anything that looks slightly out of the ordinary


Flying over fields and factories
Momma's going off her head
Daddy's bringing home the bacon
Open up the pearly gates
Fruit of salty lubrication
Tangled up in arms and legs
I can barely touch the bottom
Now I'm working up a sweat!
I'm ready now
I'm ready now


I can barely touch my own self
How could I touch someone else?
I am just an advertisement
For a version of myself
Like molecules in constant motion
Like a million nervous tics
I am quivering in anticipation
Like the sunlight on their wings
I'm ready now (don't look back)
I'm ready now (I'm ready for this)
I'm ready now


The sensuous world - the smell of the sea
The sweat off their wings - the fruit from the trees
The angel inside - who will meet me tonight
On wings of desire - I come back alive


I'm ready
I'm ready (I put the dogs outside)
I'm ready
I'm ready (to take that ride)
I'm ready now
I'm ready now (to take that wine)
I'm ready now but where are you?



Escrito por goethe às 00h10
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a vida é feita de som e fúria

Quando criança, sonhava em ser marinheiro, mesmo morando num lugar distante mais de 500 quilômetros do mar. Nunca aprendi a nadar. Na adolescência, até tentei aprender a tocar violão, baseado na experiência positiva de um irmão mais velho com as mulheres. Continuo desafinado até batendo palma. Só me restou como opção escrever para contar a história.

O desejo de ser músico voltou na noite de ontem, enquanto eu assistia ao documentário do Emir Kusturica, “Super 8 Memories”, sobre a banda Non Smoking Orchestra, onde o dito cujo toca guitarra e o irmão se encarrega da bateria. Lançado em 2001, o filme reúne, em 101 minutos, imagens gravadas durante a turnê de 1999 da banda, que foi criada em 1984. Temos as cenas típicas de entrevistas com os integrantes, com um pequeno perfil de cada um deles. O que diferencia é a forma como Kusturica costura tudo, dando uma sensação de que tudo é uma brincadeira mas, que na realidade, representa bem a cultura fragmentada existente hoje na Iugoslávia após a morte de Tito, em 1980. Nascido em Sarajevo, Kusturica defendia a permanência de uma Iugoslávia unida, mas os sérvios e os bósnios não quiseram pensar da mesma forma.

A música é uma mistura de ritmos ciganos, rock, salsa e tudo o que puder ser tocado com guitarras, violinos e sanfona. Pena que não legendaram a maioria das canções em português. O filme já vale pela participação do eterno The Clash, Joe Strummer, cantando “Police In My Back” com a trupe. O filme às vezes perde o ritmo e chega a ser cansativo, mas logo se recupera por causa da simpatia explícita dos integrantes. “Memórias em Super 8” vai estar em cartaz, na semana que vem, no Teatro do Parque, junto com a cópia restaurada de “Doces Bárbaros”. Pode ter sido uma coincidência, mas tratando-se de Kusturica tudo é possível.



Escrito por goethe às 08h04
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peça pelo número

OPÇÃO 1                           OPÇÃO 2                                  

pobre de novo,                    pacote final de miojo:

só resta ao gourmet            empobrecido, o gourmet

um pacote de miojo             não disfarça o entojo



Escrito por goethe às 23h11
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keaton: a máquina de rir

Ainda não é a edição definitiva, até porque os DVDs da Continental deixam a desejar no aspecto qualidade das imagens. Mas pelo menos podemos ter acesso, no mercado nacional, à obra-prima de Buster Keaton, "A General". Lançado originalmente em 1927, o filme confirmou que Chaplin tinha um adversário à altura. Na história, baseada num fato real ocorrido na Guerra da Secessão, em 1862, Keaton é um maquinista que resolve recuperar seu trem que foi levado por um grupo de espiões nortistas. Nele, estava sua amada, levada como refém. Sem dublês, Keaton mostra sua perícia e sagacidade enquanto se aproxima do seu objetivo. O roteiro, praticamente todo baseado nos trens em movimento, é um primor. Conhecido como "o homem que nunca ri", o comediante escreve seu nome na história do cinema.

No último filme de Bertolucci, "Os Sonhadores", o francês pergunta ao norte-americano quem era melhor: Chaplin ou Keaton? Ao ouvir Chaplin, o francês desdenha. Ele tem suas razões. Ele viu Keaton.  O mais engraçado era que os dois comediantes eram amigos e até filmaram juntos, muitos anos depois, em "Luzes da Ribalta", já no ocaso de suas carreiras. Nesta disputa, um honroso empate com muitos gols de placa para cada lado.



Escrito por goethe às 22h13
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burnin' and lootin'

"How many rivers do we have to cross

before we can talk to the boss?"


Trata-se de uma efeméride mas, em 23 de maio de 1981, Bob Marley era sepultado como rei na Jamaica, 12 dias depois de falecer em um hospital em Miami, vítima de um câncer que atingiu o cérebro. Ele atravessou o rio aos 36 anos de idade. Boa amostra de seu trabalho encontra-se nesta caixa acima. São dois CDs, o primeiro com as 16 faixas remasterizadas de sua coletânea oficial, "Legend", o segundo com 13 outras versões remixadas. O melhor é o DVD com 13 clipes e um excelente documentário de 90 minutos de duração, "Time Will Tell", que eu tinha antes em VHS. Com trechos de apresentações e muitas imagens de arquivo, é a melhor oportunidade para se conhecer o homem e o artista Bob Marley, contraditório e único.



Escrito por goethe às 01h12
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grande poema do desconhecido (parte I)

"Há um momento na vida em que as circunstâncias colocam o homem diante de um precipício que deve saltar – ele que não saltara nunca; ou na entrada de um túnel tomado pelas chamas – ele que nunca resistira aos primeiros calores; ou às portas de uma cidade devastada por uma epidemia – ele que sempre evitara qualquer contágio.

Estas circunstâncias, prematuras para alguns, tardias para outros, mas sempre inevitáveis, determinam o destino de toda uma vida.

O homem de têmpera mediana, o homem normal, equilibrado como uma balança, judicioso e previdente, o homem-tipo que somos todos nós, este homem vira as costas ao precipício que lhe custaria a vida, afasta-se das chamas que o fariam arder e foge dos moribundos que o arrastariam na mesma agonia.

Aquele que escolhe o outro caminho não ignora que morrerá no profundo abismo, no túnel abrasado, na cidade agônica, mas, apesar dessa certeza, tem um só pensamento: deve fazê-lo.

Este sentimento do dever, este impulso do destino que se antepõe à razão, ao siso, à comodidade e ao bem-estar que facilitam viver, constitui, posto em ação, o heroísmo.

Muitas vezes se usou a palavra artista para qualificar ações ou idéias de viva exaltação. Nada mais justo. A têmpera de uma alma é dimensionada na razão direta do teor de poesia que ela encerra.

Não há de ser prosaico e calculista indivíduo que verterá gotas de seu sangue, dia após dia, nos esconsos de uma selva misteriosa que o devora, sem outro objetivo ou outro lucro que a realização, em troca de sua vida, do grande poema do desconhecido.

Não há de ser um gélido administrador da própria existência o biólogo que, não podendo provar a eficácia de suas teorias, abre as portas de suas veias ao vírus de uma enfermidade mortal.

Não há de ser um devoto do bem-estar o ceramista que, durante vinte anos, lançou ao forno sua fortuna e seus móveis, e que no fogo quase extinto lança, por fim, as camas de sua esposa e dos filhos, para obter nesse trágico ensaio final o esmalte que o imortaliza.

Não há de ser tampouco cioso de sua comodidade e seu deleite o artista misérrimo que, depois de trinta anos, ainda se nega a vender sua pena ou seu pincel, embora a vida sempre se lhe depare entre dois pólos: a pequena luz do ideal e o morrer de fome.

São eles – e com eles os poetas da ciência, da invenção, da moral, do sacrifício e da arte – que conduzem a humanidade além do estrito limite do bem-estar animal e que um dia serão reconhecidos como os responsáveis pelo melhor destino de nossas vidas."



Escrito por goethe às 00h35
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grande poema do desconhecido (parte II)

O texto do post acima, escrito pelo uruguaio Horácio Quiroga como introdução para seu pequeno livro “Heroísmos”, onde compila artigos publicados na revista argentina Caras y Caretas, em 1927, retratando aspectos biográficos de gente como Robert Scott, Louis Pasteur e Edgar Allan Poe, poderia ser, na verdade, um epitáfio resumidor de sua própria vida.

Nascido em 1878, em Salto, no Uruguai, Quiroga perde o pai um ano depois, por um tiro acidental de espingarda. Dezessete anos mais tarde o padrasto se suicida também com um tiro de espingarda. Quando tem 24 anos, Quiroga mata acidentalmente o poeta Federico Ferrando com um tiro de pistola. Muda-se para Buenos Aires. Casado, resolve viver em uma fazenda em Missiones. Sua esposa não suporta a solidão e os rigores da selva e se suicida tomando veneno em novembro de 1915. O mesmo destino será seguido pelo próprio Quiroga, em fevereiro de 1937 e pelos dois filhos do casal, Eglé (1939) e Darío (1954). Maria Helena, filha de Quiroga com a sua esposa também se mata em 1989.

Horror e ciência estão neste pequeno livrinho editado pela L&PM aqui no Brasil, a preço camarada, que reúne dois volumes: “A Galinha Degolada e Outros Contos” e “Heroísmos (Biografias Exemplares)". É uma boa oportunidade para se conhecer um dos mais importantes escritores latino-americanos traduzido para a língua portuguesa, já que suas obras vêm sendo lançadas esparsamente por aqui.

Tive a sorte de conhecer o escritor através de uma publicação da editora universitária da Universidade Federal de Santa Catarina. “Contos da Selva”, traduzido por Tânia Piacentini numa edição bilíngüe em 1989, reúne as histórias criadas por Quiroga para seus filhos. É literatura infantil? Sim, mas não infantilóide. O uruguaio legou a eles e à humanidade seu verso neste grande poema do desconhecido.



Escrito por goethe às 00h34
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tati, lasanha e daschund

Domingo, dia de acordar tarde, lasanha no almoço e um bom filme antes de encarar mais uma rotina de trabalho. Neste caso, motivo para rever uma pequena obra-prima, Mon Oncle (Meu Tio), dirigido por Jacques Tati em 1958 e que ganhou, neste mesmo ano, o prêmio especial do júri do Festival de Cannes. Um bom argumento para uma bela digestão.

O filme narra a volta do tradicional personagem de Tati, Hulot, às voltas com a modernidade representada pela família Arpel. Gérard, que é seu sobrinho, é um menino dividido entre dois mundos divididos simbolicamente por um muro em ruínas. Quase 50 anos depois, a mensagem continua atual. Estamos condenados a ser controlados por máquinas até no relacionamento com outras pessoas?

Mon Oncle também serve como demonstração da habilidade de Tati na elaboração do roteiro, com o uso da sonoplastia e de gags visuais. Sem contar os figurinos e o cenário. Quando foi lançado, o filme não chegou a fazer tanto sucesso na França, atraindo menos espectadores do que as duas obras anteriores de Tati: "As Férias do Senhor Hulot" (1952) e "Carrossel da Esperança" (1947). O santo de casa só fez milagre depois que o filme foi cultuado em outros países.

Para quem cria cachorros daschunds, a raça mais conhecida no Brasil como Cofap, por causa daquela propaganda de amortecedores, o filme tem um atrativo a mais. Tudo em família. 



Escrito por goethe às 15h03
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geléia geral da dúvida

as horas voam

ou fazem cera

numa sexta-feira?



Escrito por goethe às 23h11
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era uma vez na tela do cinema

São 156 minutos de volta a um passado que pertence a todos nós, mesmo para quem nasceu no Brasil e em outra época. O homem do bigodinho, a encarnação do mal, aparece na telona como uma figura frágil e louca ao mesmo tempo. Cada vez menos amado e cada vez mais odiado pelos alemães que se protegem da artilharia do exército vermelho num bunker na Berlim sitiada pelos russos. Cada vez mais deslocado do mundo, o mesmo que ajudou a destruir.
“A Queda – Os Últimos Dias de Hitler” é um filme necessário neste momento em que se discute o impacto da II Guerra Mundial nas relações internacionais 60 anos depois do seu final. O diretor Oliver Hirschbiegel encontrou em Bruno Ganz a perfeita personificação de uma das maiores personalidades polêmicas do século XX.

Mergulhamos num universo de demência e desespero graças ao depoimento de Traudl Junge, que em 2002 foi tema do documentário “Eu Fui a Secretária de Hitler”, realizado por André Heller e Othmar Schmiderer. Ela, como muitos outros alemães que estiveram no centro do poder, alegava não saber a real dimensão das atrocidades cometidas pelo III Reich. Tem o direito de se defender, mas não existe mais quase ninguém para contestar a veracidade de seu relato.
O cinema alemão já contribuiu com outro bom filme onde se discutia o papel do exército nazista e as falhas que provocaram inúmeras mortes. Trata-se de “Stalingrado”, uma obra de 1992 dirigida por Joseph Vilsmaier. Nem sei se o drama dos soldados enfrentando o frio e líderes insensatos no front russo está disponível em DVD. Mais uma lição de história do outro lado do espelho.



Escrito por goethe às 21h15
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e os meninos dançam (parte I)

“Nós três, Nicolas que não sabe falar, Alain e Denis, saímos pelas estradas rumo a Jerusalém.

Faz tempo que estamos andando.

Foram vozes brancas que nos chamaram na noite.

Chamavam todas as criancinhas.
Eram como as vozes de pássaros mortos durante o inverno.
E vimos a princípio muitos pássaros, coitados, estendidos na terra enregelada, muitos passarinhos com a garganta vermelha.

Vimos depois as primeiras flores e as primeiras folhas e com elas trançamos cruzes.
Cantamos diante das aldeias, como costumávamos fazer no ano novo.
E todas as crianças corriam para nós.

E avançamos como uma tropa.
Havia homens que nos maldiziam, por desconhecerem o Senhor.
Havia mulheres que nos seguravam pelo braço e nos interrogavam, e cobriam nosso rosto de beijos.

E houve também boas almas que nos trouxeram tigelas de madeira, leite morno e frutas.

E todo o mundo tinha dó de nós.

Pois eles não sabem para onde vamos e eles não escutaram as vozes.

Por sobre a terra há densas florestas, e rios, e montanhas, e sendas cheias de espinheiros.

E no fim da terra encontra-se o mar que iremos cruzar em breve. 

E no fim do mar encontra-se Jerusalém.
Não temos governantes nem guias. Mas para nós todas as estradas são boas".



Escrito por goethe às 01h58
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e os meninos dançam (parte II)

O texto do post acima é um trecho do livro "A Cruzada das Crianças", que reli na noite de ontem inspirado neste cenário de divulgação do filme de Ridley Scott. Trata-se de um episódio menor na história do fanatismo religioso na Europa, mas são os pequenos detalhes que mais me interessam hoje.

 

O francês Marcel Schwob publicou esta pequena obra-prima em 1896. São apenas 88 páginas onde ele deu vozes a personagens reais, como o papa Inocêncio III e a outros fictícios, como um leproso europeu e um mendigo árabe, além de inocentes criaturas como a pequena Allyz. Foram registradas, no século XIII, duas cruzadas de crianças que teriam reunido, na época, cerca de 50 mil criaturas. A primeira, em 1212, na França. Comenta-se que os infantes que conseguiram chegar a Marselha foram raptados por traficantes de escravos e vendidos no Egito. A segunda saiu da Alemanha meses depois, conduzida por um menino chamado Nucholas de Colonia. Duas versões sobre o final desta aventura: a de que eles teriam ficado na Itália e a de que teriam desaparecido misteriosamente. Deste episódio é que resultou a lenda do Flautista de Hamelin, onde os ratos seriam as crianças seduzidas por um ideal cego.

 

O livro do Marcel Schwob é mágico. Não à toa era um dos preferidos pelo argentino Borges. A edição que eu tenho é de 1987, da Iluminuras, em versão bilíngüe. Na internet descobri que outra editora, a Paraula, também lançou uma versão caprichada. Nos dois casos, um grande investimento para a alma.



Escrito por goethe às 01h56
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a história de krishna e radha

Este comentário tem relação direta com o filme "Lagaan", postado logo abaixo. Foi através dele que tomei conhecimento da história de Krishna e Radha, o casal central desta imagem. O caso de amor deles está contado no poema "Baghavad Gita". Krishna, de acordo com o texto, aos 11 anos já tinha se iniciado nos prazeres da carne e, mais velho, chegou a ter 18 mil concubinas. Quando jovem, um dia viu um grupo de gopis (pastoras), banhando-se num rio. Escondeu as roupas delas e divertiu-se ao vê-las nuas procurando um abrigo. Nesta época, ele conheceu Radha num bosque. Apesar dela ser casada, foi a mulher que aparece constantemente hoje ao lado dele em várias pinturas. Krishna teve numerosas amantes (podia estar com duas ao mesmo tempo em lugares diferentes), mas Radha venceu a concorrência, tornando-se a principal protagonista do poema. Os atores principais do filme falam sobre isso e deixam oferendas no altar onde estão os dois enamorados. Só não consegui mais detalhes sobre o desenlace da história, que trata também do sofrimento do casal que não podia ficar junto. Nada que nossa amiga Amita, com sua divina sabedoria, não possa esclarecer...



Escrito por goethe às 04h16
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histórias de homens e livros

"Não importa quantos livros você tem, mas quão bons eles são" - Sêneca

"Um livro de biblioteca não é um mero artigo de consumo; ele é, acima de tudo, um capital" - Thomas Jefferson

"Tudo no mundo existe para, algum dia, terminar num livro" - Stéphane Mallarmé

"Onde se queimam livros, acaba-se queimando pessoas" - Heinrich Heine


Em tempos de bienal do livro no Rio de Janeiro, uma agradável coincidência. Este "A Conturbada História das Bibliotecas" foi encontrado por R$ 9,90 nas Lojas Americanas (o lugar onde, por incrível que pareça, vem contribuindo ultimamente para aumentar meu acervo sem reduzir muito minhas finanças), numa bem cuidada edição da Planeta, a editora espanhola que resolveu investir no mercado brasileiro. Em 240 páginas, Matthew Battles, que trabalha em Londres, na Biblioteca Houghton, conta a história da criação e destruição destes espaços de leitura e conhecimento.

De Alexandria ao Tibete, passando por Sarajevo, a história da humanidade está repleta de histórias de ataques a bibliotecas. Estes lugares são alvos fáceis para os inimigos, que querem apagar o passado para recontá-lo a seu modo. O livro também trata dos métodos de catalogação, que ajudaram a organizar a busca e o acesso de um exemplar específico entre centenas de milhares de volumes.

Sobre a II Guerra Mundial, Matthew Battles relembra duas situações que mostram a relação entre livros e humanidade:

* A cidade belga de Louvain, que abrigava cerca de 700 mil volumes e 300 manuscritos em 500 anos de história, teve a biblioteca destruída pelos alemães ainda na I Guerra. Depois de uma tentativa de reconstrução, o prédio foi novamente bombardeado, desta vez pelos nazistas. Muito se perdeu para sempre.

* No gueto de Vilna, os judeus organizaram uma biblioteca com os volumes em frangalhos que restaram. Em outubro de 1942, o bibliotecário Hermann Kruk fez um relatório que encontra-se hoje preservado em Nova York. Os 20 mil judeus sobreviventes nesta época foram responsáveis pela circulação de 100 mil livros no primeiro ano de atividade da biblioteca. E ele relatou:

"Com frequência, o leitor gosta de usar o livro como um espelho, no qual vê refletida sua situação e as condições circundantes. Analogias: observei que uma pessoa faminta lê vorazmente a respeito da fome, enquanto uma pessoa alimentada não consegue suportar esse tipo de assunto. Aqui, nas condições do gueto, em certo estrato da intelectualidade socialmente madura, o leitor de L. N. Tolstói (em todas as línguas disponíveis) - e em especial de sua obra monumental Guerra e Paz - ocupa o primeiro lugar nas preferências".

Em resumo, meus caros leitores deste blog: ler é estar vivo. 



Escrito por goethe às 03h20
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era uma vez na índia

São 3 horas e 50 minutos de filme. E ainda tem mais um quarto de hora de cenas que não entraram na edição definitiva. Mesmo assim, "Lagaan - Once Upon A Time In Indian", lançamento indiano de 2001, não é indigesto. Pelo contrário, é uma rara oportunidade de se ter acesso, no conforto do lar, a uma mistura bem temperada de drama, comédia, musical e educação para as massas. Trata-se de um legítimo representante da linha de produção conhecida como Bollywood. A história fictícia se passa em 1877, quando o responsável inglês pelo controle de uma província no interior da Índia resolve fazer uma aposta com uma vila. Deixaria de cobrar o lagaan, o tributo anual da colheta, se fosse derrotado numa partida de críquete. Os nativos têm dois meses para se preparar num esporte onde desconhecem as regras. Os personagens vão se delineando aos poucos, em meio a um quase triângulo amoroso. O único ponto negativo é que, na versão nacional do DVD, resolveram não legendar as músicas, mas existe a opção de acompanhá-las em espanhol, mandarim e inglês. Fica ao gosto do freguês.



Escrito por goethe às 18h51
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não permita deus que eu morra

Missão cumprida. Depois de três semanas de leituras de livros, revistas, relatórios e prontuários, consegui contar um pouco da II Guerra Mundial num caderno especial de 12 páginas publicado na segunda-feira, quando o mundo (ou melhor, a Europa), ainda celebrava o final do conflito no continente. Foram dias muitos proveitosos, porque pude aprender mais sobre estratégia militar e conversar com gente que viveu aquela época. Pracinhas de mais de 80 anos de idade que ainda se emocionavam ao lembrar do clima no campo de batalha na Itália. Somos realmente um país sem memória. Este relato aqui vale como um pedido de desculpas pelo fato de estar meio afastado da internet.

No início da madrugada do dia 9 de maio de 1945, os alemães assinam a rendição em Berlim diante dos soviéticos e de delegações dos Estados Unidos, Reino Unido e França. Era o fim do conflito que resultou na morte de mais de 55 milhões de pessoas. Em breve, o mundo entraria numa fria.

No Brasil, Vargas usava a propaganda para mobilizar a população no esforço de guerra, alertando para o risco de ataque aéreo, incitando a compra de bônus, estimulando o racionamento de combustíveis e valorizando o engajamento de mulheres e o trabalho da forças de defesa. O ditador que mandou a força expedicionária combater Hitler e Mussolini na Europa acabou sendo deposto poucos meses depois.

Na Itália, os pracinhas enfrentavam o frio abaixo de zero, a falta de treinamento e um inimigo experimentado por anos de guerra. A campanha brasileira foi subvalorizada ao longo de décadas. Esta foto de um soldado negro fazendo guarda diante de alemães traduz tudo. Os pracinhas formaram a única unidade aliada a aprisionar duas divisões inteiras de inimigos (mais de vinte mil homens) na operação na Itália. E os alemães consideravam que eram melhor tratados com os brasileiros do que com os norte-americanos.

Muitas destas imagens aqui não entraram no caderno por falta de espaço. Esta abaixo, dos soldados feridos, eu acho maravilhosa. Os homens de bigodinhos e a enfermeira brasileira de saia abaixo do joelho...

Muitos morreram sem o devido reconhecimento. Pelo menos contei um pouco da história. Que as palavras ganhem vida. Amém.



Escrito por goethe às 01h13
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amigos bons

"A história é a seguinte: estava eu no Burburinho, em plena segunda-feira da semana passada, quando  começa a chover. Tive que me refugiar no balcão. O fotógrafo Otávio de Souza então me descobre e me obriga, de todas as formas, a comprar um disco que estava à venda no bar. Seriam apenas R$ 15,00 gastos na bolacha, para quem desperdiçava dinheiro com cerveja (ele fazia isso há mais tempo do que eu). A primeira audição no local me agradou. Junio Barreto é de Caruaru, interior de Pernambuco, mas mora atualmente em São Paulo. Soube fazer amizade com as pessoas certas. Seu estilo é samba moderno, com a participação especial na gravação deste disco de Simone Soul. Recomendo, porque sóbrio gostei mais ainda. Preciso dizer mais?"


Escrevi isto no lotta continua no dia 23 de maio de 2004, quase um ano já. Agora que a crítica da banda de baixo do país finalmente descobriu Junio Barreto, com a ajuda de Lenine, vale resgatar esta pequena resenha, até porque o cara vai ter este disco relançado no mercado. Preciso recomendar mais?



Escrito por goethe às 00h53
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teoria da evolução após o gênesis

Éramos o que comíamos

Éramos o que vestíamos

Éramos o que líamos

Somos o que assistimos


Baseado em Peter Gabriel, depois de assistir ao show dele no Multishow na noite de segunda-feira...



Escrito por goethe às 23h22
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uma visita ao alecrim

Quer conhecer uma cidade? Vá ao cemitério. É mórbido, mas é verdade. Cultivo este hábito que levarei comigo ao túmulo (aviso logo que este post estará entulhado de trocadilhos infames). Sempre que posso, vou até o lugar onde os defuntos se livraram dos mortos-vivos. Em Natal, o cemitério do Alecrim é antigo e só recebe gente de famílias que já possuem tumbas. Virou uma espécie de condomínio privado. E tem suas surpresas. A principal delas é a vista de dentro do local. De onde nos deparamos melhor com a sagacidade do dono de bar do outro lado do muro. Existe nome mais sugestivo para um estabelecimento com esta vizinhança? Coragem é se aventurar no tira-gosto... 

Entre os túmulos com esculturas, nichos e outras mumunhas mais, muitas de gosto duvidoso (o ocupante do imóvel, coitado, não pode reclamar...), pode-se apreciar, ao longe, as águas do rio Potengi próximas de se encontrarem com o mar. Definitivamente, uma visão linda de morrer.

Isto eu nunca tinha visto. No centro do cemitério católico, um pequeno cercado com cerca de vinte túmulos de judeus. A maioria de pessoas sepultadas no final dos anos 30 e início dos anos 40. O administrador do local não soube me explicar o início desta tradição, que não encontrei em nenhum outro cemitério por onde passei. Terra para todos. E mais além.

Entre a coleção de túmulos, quase todos em péssimo estado de conservação, destacam-se estes três, de pilotos da Real Força Aérea britânica que morreram durante a II Guerra Mundial quando sobrevoavam o Rio Grande do Norte. Um australiano e dois ingleses repousam eternamente no Alecrim, mantendo uma tradição de sepultamento dos militares nos locais onde morreram. Agora descansam em paz.



Escrito por goethe às 23h17
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do deserto ao mar

ATRAVÉS DE NÓS DOIS

Antes do desculpe, este lugar está livre,

antes da cor dos teus olhos, antes do o que você quer beber,

antes do eu sou Rico, e eu, Dita, antes do roçar

da mão no ombro,

aquilo nos atravessou

como a fresta de uma porta abrindo-se em meio ao sono.

Página 37

E NESSA NOITE TAMBÉM DITA

Na banheira cheia de espuma

compadece-se da solidão de ambos:

esse me queria um pouco mãe

e parece que este me quer filha.

Mulher para os dois

só posso ser na banheira.

Página 155

E VOCÊ?

Lancinante, desesperada, em iídiche, ouve-se ao longe a voz de

uma mulher

  que sob seus próprios olhos

é dilacerada, e ela grita.

E ouve-se um uivo em árabe, novamente de mulher

cuja casa. Ou um filho. Sua voz perfura, aterroriza, e você

aponta um lápis ou conserta uma encadernação rasgada.

Estremeça pelo menos

Página 186


Prosa ou poesia? No texto de Amós Oz, considerado o mais importante escritor israelense da atualidade, esta questão não importa. Principalmente neste livro, publicado no Brasil originalmente em 2001 e que trata-se de um romance "polifônico", por dar voz a vários personagens, todos com seus pequenos sonhos e grandes angústias. Ou vice-versa. "O Mesmo Mar" talvez seja a melhor escolha para se iniciar na literatura de Oz, que significa "coragem". Tem muito de sua biografia aqui. Nascido em 1939, em Jerusalém, o escritor também é conhecido por seu engajamento político. Seu mais recente livro, "Contra o Fanatismo", acaba de sair em edição nacional. Já está na minha lista.

P.S. 1: Lendo Amós Oz, lembrei-me de Dalton Trevisan. Ponte aérea literária entre Arad e Curitiba. Não acha, Maria?

P.S. 2: Se estiver interessado, a dica é procurar esta caprichada edição da Companhia das Letras, 325 páginas, nas Lojas Americanas. Custa R$ 9,90.



Escrito por goethe às 00h19
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a buda o que é de buda

A dica eu vi no blog do Gandalf. Mas só no final de semana, durante uma viagem de quatro horas de duração, é que mergulhei no universo de Osamu Tezuka, o grande mestre na criação de mangás. A série "Buda" se estende por 14 livros e até este momento quatro já foram lançados pela Editora Conrad. Bastam apenas alguns minutos para se acostumar à leitura no modo oriental, de trás pra frente do livro, da direita para a esquerda. Depois disso, é se encantar com a narrativa e os traços de Tezuka, que conseguem transmitir movimento numa folha de papel. Ele adaptou livremente a história de Siddharta Gautama, príncipe dos Sakyas, que nasceu por volta de 560 a.C. na região entre a Índia e o Nepal. Preferiu abdicar do seu poder e suas posses para tentar entender por que as pessoas sofrem. Siddaharta perambulou durante anos nas florestas de Bodhi-Gaya até encontrar suas respostas, tornando-se o Buda (iluminado), elaborando cerca de 84 mil métodos de treinamento da mente, que depois ficaram conhecidos como budismo. O único ponto negativo é que você acaba o quarto volume e fica querendo mais. Lição prática de aprender a ter paciência e esperar sentado pelos próximos. Com a palavra, Amita.



Escrito por goethe às 00h09
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poemico violento

"Estupra, mas não mata",

aconselhou o Maluf?

"Estupro é acidente",

decretou o Severino?

Juntos, violentam

impunemente

a sociedade

neste desatino...



Escrito por goethe às 00h11
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livros entre revistas

Senhoras e senhores, trago boas novas. Encontra-se nas bancas uma revista sobre livros. Ou melhor, sobre as pessoas que dão vida às palavras. A "Entrelivros" é uma grata surpresa editorial. Com material exclusivo da The New York Times Book Review, a publicação traz excelentes textos na sua estréia. De Thomas Mann na capa a Osman Lins, Ferreira Gullar e Pagu no seu recheio, é item obrigatório para quem gosta de ler. Faço divulgação gratuita porque até o fiteiro tem a sua função social. E boa parte do material pode ser conferida na internet, através do site http://revistaentrelivros.uol.com.br/. Foi pela revista que finalmente me decidi a entrar no universo do escritor israelense Amós Oz. Só por isso já valeu a pena. Mas isso é tema para outro post, com mais uma dica de pechincha daquelas.



Escrito por goethe às 00h01
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sangue condensado na tela

Se não emplacam uma boa temporada no circuito tradicional - e a exceção à regra foi "Diários de Motocicleta" - os filmes latino-americanos conseguem espaço no Recife em pequenas salas, onde o desconforto valoriza ainda mais o esforço de se ver refletido na tela. Com "Machuca", este filme chileno de 2004, que representou o país na disputa pela indicação para melhor filme estrangeiro, não foi diferente. Os interessados devem se dirigir ao Teatro Apolo e enfrentar duas horas numa cadeira dura e num calor além do humano. Poderia até fazer um trocadilho com o nome do filme, mas quero ressaltar aqui os méritos do diretor Andrés Woods. Ele reconhece que a história tem uma conotação autobiográfica, mas vale pelo painel da sociedade chilena durante o governo de Salvador Allende. O roteiro nem tão original é. Narra o encontro de dois meninos de classes sociais diferentes. Os dois atores mirins foram escolhidos dentre sete mil candidatos. E cumprem bem o seu papel. Com humor e delicadeza, "Machuca" consegue mostrar bem do que o ser humano é capaz. Do beijo com leite condensado ao sangue derramado.



Escrito por goethe às 23h42
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