fiteiro
conversa afiada? só no fiado, porque o dono é desconfiado


mostrando a cara a tapa (parte I)

Caravaggio (1571-1610)

Di Cavalcanti (1897-1976)

Frida Kahlo (1907-1954)

Paul Gauguin (1848-1903)

Picasso (1881-1973)

Boilly (1761-1845)



Escrito por goethe às 22h42
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mefistófeles cobra sua parte

Durante a refeição, pela primeira vez, Hitler dirigiu-me perguntas de cunho pessoal. Soube então que eu fora o autor da decoração para a manifestação do dia 1º de maio.

- E a de Nuremberg? Foi também o senhor que fez? Mas foi um arquiteto quem me apresentou o projeto! Ah! Era o senhor mesmo! Outra coisa que jamais pensei foi que o edifício de Goebbels pudesse ficar pronto na data prevista.

Não me perguntou se eu pertencia ao partido. Parecia-me, aliás, que isso não lhe interessava, quando se tratasse de artistas. Em compensação, quis saber particularidades da minha origem, atividade profissional, das obras de meu pai e do meu avô.

Anos depois, Hitler lembrou-me daquele convite, dizendo:

- Durante as minhas inspeções, prestei atenção ao senhor. Eu buscava um arquiteto a quem pudesse confiar meus planos de construção. Tinha que ser moço, pois como sabe esses projetos visam muito longe, ao futuro. Necessito de um homem que, depois da minha morte, continue trabalhando com a autoridade que tiver recebido de mim. Eu vi que este homem é o senhor.

Depois de anos de esforços vãos, eu estava aos vinte e oito anos possuído de muita vontade de trabalhar. Tal como Fausto, eu venderia minha alma por uma obra de grande vulto. E tinha encontrado meu Mefistófeles. Esse Mefistófeles parecia não menos absorvente do que o criado por Goethe.

PÁGINAS 37-38

+++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++

Eram já quase três horas. Hitler levantara-se e mandei dizer-lhe que eu queria me despedir. Aquele dia fora de provas para mim e eu temia não poder dominar meus sentimentos, no momento da despedida. Ainda uma vez, eu via o ancião trêmulo, o homem a quem consagrara minha vida, durante doze anos. Mas, se eu estava emocionado, ele, pelo contrário, não demonstrava a menor alteração. Suas palavras foram frias como a mão que me estendeu.

- Então, já vai? Está bem, adeus.

Nem recomendações à família, nem bons augúrios, nem agradecimentos, nada.

Por um instante, não me contive e disse-lhe que pensava em voltar. Ele > compreendeu que se tratava de desculpa e voltou-se para o outro lado. Já havia me despedido.

Dez minutos depois, ante o silêncio de todos, eu saía daquele abrigo subterrâneo. Quis ver pela última vez o contíguo palácio da chancelaria, construído por mim. Era a minha última visita à chancelaria do Reich, que eu
projetara e construíra, animado de planos para o futuro. Agora, eu deixava aquele montão de ruínas, ruínas não somente de da minha obra, mas também dos melhores anos de minha existência.

PÁGINAS 531-532


Albert Speer escapou da forca em Nuremberg. Por ter assumido a sua parcela de culpa nos crimes de guerra cometidos pelos nazistas, foi condenado a vinte anos de prisão. Teve tempo suficiente para contar sua história e revelar detalhes do poder exercido por Hitler sobre um séquito que pilhou a Alemanha e levou o mundo inteiro a uma guerra com mais de 56 milhões de mortos. Primeiro o arquiteto das obras portentosas sonhadas por Hitler depois que vencesse a guerra, Speer tornou-se, a partir de 1942, ministro de Armas e Munições, controlando a economia alemã e fazendo com que o conflito se prolongasse até 1945, mesmo com a carência de recursos ocasionada pela perda dos territórios conquistados.

Em 570 páginas, ele conta como entrou para a cúpula nazista e revela a degradação moral que rapidamente tomou conta de todos quando o Reich de mil anos já desabava diante do avanço dos aliados. Claro que, em todo esse mea-culpa, Speer tenta mostrar que era
diferente dos outros. Deixou o testemunho de alguém que entrou na História pela porta dos fundos.

Do saudoso Círculo do Livro, este exemplar faz parte de uma leitura tardia do material colhido para produzir o material sobre a II Guerra Mundial.



Escrito por goethe às 22h20
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cultura de almanaque

A palavra mais comprida do mundo foi descoberta na Islândia pelo poeta W.H. Auden. Tem 56 letras e se escreve assim: Haestarjettarmalaflutunesmanskiftofustulkonutidyralykill. Ele não sabe como se pronuncia essa palavra, mas diz que significa "a chave da porta da moça que trabalha no escritório de um advogado".

A informação, muito útil, está no livro de Auden e Louis Mac-Neice, Letters From Iceland (1937).



Escrito por goethe às 01h46
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o homem que ri é um animal?

 

colorida borboleta

espetada na tela:

eterna passarela

 

no canto, isolada,

a barata espera

a fatal chinelada

 

o mosquito camicase

arrisca um rasante

sobre a balançante carne

 

o elefante alça vôo:

fuga impossível

das grades do zôo

 

o cachorro precisa

de esforço sobre-humano

para entender o dono


Na falta do que postar, seguem alguns hai-kais feitos na delegacia, enquanto esperava para ser atendido quando fui prestar queixa do roubo do celular. Por coincidência, todos sobre o mundo animal. Inofensivos, podem até figurar numa das páginas do meu livro que, um dia, será publicado. 



Escrito por goethe às 17h32
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luz, quero luz

Às vezes, as melhores imagens não são publicadas nos jornais. Pelo menos o blog de Glauco Spindola pode suprir esta falha. O endereço está ao lado na lista de amigos ao lado.

Por falar em fotógrafos que não escrevem apenas com a luz, vale também uma visita no blog da jaca, da parceira Jaqueline Maia.



Escrito por goethe às 19h33
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hai-kai das pequenas coisas


formigas afogadas na pia:


na cozinha da vida, pequena


tragédia a cada novo dia



Escrito por goethe às 19h30
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comentário ouvido em mesa de bar

"Aquele ali vai pro céu com tripa e tudo..."



Escrito por goethe às 03h07
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play it again, bolden

Buddy Bolden foi um pioneiros do Jazz. Nascido provavelmente no ano de 1876, ele ficou famoso na noite de Nova Orleans como um criativo e poderoso tocador de cornetim. Diziam que quando ele tocava podia-se ouvir o som a dez quarteirões de distância. Trabalhava como barbeiro durante o dia, editava um jornal de fofocas e se relacionava com muita gente do submundo, coisa comum para um músico da época. Começou a apresentar sinais de insanidade em 1906. No ano seguinte, foi internado num hospício, onde faleceu em 1931. Apesar de ser apontado como uma das principais referências no novo estilo musical, inclusive por gente que surgiu anos depois dele, não deixou nada gravado.

O escritor Michael Ondaatje, nascido em Sri Lanka em 1943 e que vive em Toronto, no Canadá, escreveu a história de Bolden de uma forma bastante livre, costurando os fiapos de verdade em meio aos retalhos de boatos sobre o cornetista. O livro de 176 páginas, Buddy Bolden’s Blues, lançado originalmente em 1976, chegou ao Brasil através da Companhia das Letras. O autor de O Paciente Inglês mostra seu amplo repertório ao misturar diferentes estilos narrativos para mostrar a desintegração mental de Bolden.

Se fosse para fazer um trocadilho, diria que é um livro para se ler num sopro só.

Disponível por R$ 6,90 na Livraria Imperatriz.

P.S. Na imagem, Bolden é o terceiro em pé da esquerda para a direita, o único que sorri para o fotógrafo. Será que ele já sabia dessa história toda?


"Dez minutos depois ele estava debruçado sobre a pia junto com Bellocq, vendo o papel dançar na bandeja de ácido. Como se a busca pelo amigo estivesse depois de tanto tempo chegando ao fim. Naquela luz vermelha densa, o homenzinho batia no papel com os dedos delicados para que a cópia saísse uniforme, e enquanto esperava limpava a bandeja com gestos minuciosos e clínicos. Os dois vendo o retângulo rosado lentamente cobrir-se de formas negras, agora surgindo mais depressa. Daí de de repente as linhas verticais brotaram do papel branco grávido, os contornos dos seis homens e dos instrumentos que eles seguravam em poses formais. Primeiro surgiram as roupas escuras, deixando o espaço da camisa. Depois os rostos. Frank Lewis olhando um pouco para a esquerda. Todos sérios, menos o sorriso de Bolden. Vendo o amigo surgir da página sorrindo para eles, um amigo que na realidade revertera aquele processo e sumira no branco, que naquele filme de má qualidade parecia já estar semidesaparecido, com aquele sorriso que talvez não fosse um sorriso, mas sua dignidade enlouquecida."

PÁGINAS 57-58



Escrito por goethe às 02h39
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entre quatro paredes

E. J. Bellocq viveu em Nova Orleans no início do século XX, como fotógrafo de uma empresa de navegação. Sua função era registrar os estragos dos navios para facilitar o trabalho dos restauradores. Nas horas vagas, ele ia para Storyville, o bairro da luz vermelha na época, para retratar prostitutas. Mulheres à deriva. Oitenta e nove imagens foram recuperadas, como esta acima, onde o cenário desglaumorizado ressalta a vida em preto em branco da modelo e do artista. Bellocq era um quase anão, portador de hidrocefalia. Teria convivido com Buddy Bolden. A relação entre os dois foi recriada por Michael Ondaatje. Uma amostra de como um livro pode abrir muitas outras portas de conhecimento.

Não tenho nada confirmado, mas acredito que sua vida tenha inspirado o personagem principal do filme "Pretty Baby", do diretor Louis Malle, estrelado por Keith Carradine, Susan Sarandon e Brooke Shields em 1978.



Escrito por goethe às 21h15
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melinda & melinda em duas frases

sou do tempo em que Woody Allen era engraçado, não patético

em que pra se gostar dos filmes dele não se usava o pretérito



Escrito por goethe às 20h35
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who'll stop the rain?

Chuva de caju

(Joaquim Cardozo)

Como te chamas, pequena chuva inconstante e breve?
Como te chamas, dize, chuva simples e leve?
Teresa? Maria?
Entra, invade a casa, molha o chão,
Molha a mesa e os livros.
Sei de onde vens, sei por onde andaste.
Vens dos subúrbios distantes, dos sítios aromáticos
Onde as mangueiras florescem, onde há cajus e mangabas,
Onde os coqueiros se aprumam nos baldes dos viveiros
e em noites de lua cheia passam rondando os maruins:
Lama viva, espírito do ar noturno do mangue.
Invade a casa, molha o chão,
Muito me agrada a tua companhia,
Porque eu te quero muito bem, doce chuva,
Quer te chames Teresa ou Maria.


Poeta, dramaturgo e engenheiro calculista. Nasceu no Recife em 26 de agosto de 1897 e faleceu em Olinda em 4 de novembro de 1978. Inovou os métodos tradicionais do cálculo estrutural e viabilizou a execução das obras de Oscar Niemeyer, principalmente as de Brasília. Lançou dez livros.



Escrito por goethe às 20h14
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as almas também sonham

DOC - Quantos atores vamos trabalhar?

GARCÍA MÁRQUEZ - Pense numa família. Eu não creio que até o final sejam mais de quinze, ainda que sejam muitos os que passem por aqui...

SUSANA - Mas nos sonhos pode haver mais personagens.

GARCÍA MÁRQUEZ - Não, nunca vemos os sonhos.

DOC - Essa é a estrutura dramática, a forma dramática que você vai apresentar. Então, quer dizer que não há sonhos.

GARCÍA MÁRQUEZ - É que nos filmes os sonhos quase sempre parecem muito elementares. Sabe por quê? Porque os sonhos não podem ser filmados. Na literatura eles também são difíceis. Têm que ser simples, mas quando são incluídos nos filmes, a tendência é complicá-los mais ainda do que costumam ser de verdade. Em compensação, falar deles, contar os sonhos, é mais misterioso do que vê-los. Isso, sim, que é uma maravilha: falar de sonhos. Em todas as casas, quando existiam famílias, a conversa do café da manhã era sempre sobre os sonhos. E aí tem outra limitação: o momento chave de cada episódio é sempre o café da manhã. Essa é a hora de contar os sonhos e de saber o que cada um vai ou não fazer durante o resto do dia. No nosso caso, todas as decisões cotidianas acabam sendo tomadas a partir dos sonhos dessa mulher.

PÁGINA 28

..............................................................................................................................................................................................

GARCÍA MARQUEZ - Uma coisa me assusta. Você não aceita um milagre, mas aceita dezessete.

DOC - Mas se ela é uma morta-viva...

GARCÍA MÁRQUEZ - Só você achou que Alma é um ser sobrenatural. As pessoas só morrem para sempre na vida real. Na literatura a gente pode fazer o que quiser. Para isso alguém inventou a literatura: para desafogar todos os seus desejos.

DOC - É verdade. Mas isto aqui é um roteiro.

GARCÍA MÁRQUEZ - Esses são limites racionalistas que me atemorizam, porque então não podemos fazer nada. Nem mesmo os sonhos!

DOC - Mas os sonhos são reais.

PÁGINA 114


Quem gostou de "Diálogos - Borges/Sabato" também vai se deliciar com este livro, resultado de uma oficina de roteiro realizada em Cuba, na Escuela Internacional de Cine y Televisión de San Antonio de los Baños. O professor é ninguém menos que o colombiano Gabriel García Márquez, que ajuda um grupo de seis alunos a adaptar para a TV uma história do seu livro "Doze Contos Peregrinos". O brasileiro Doc Comparato também participa e ele é quem faz os comentários sobre sua relação com o escritor durante todo o processo criativo. Acompanhamos o surgimento e a definição dos personagens quase como testemunhas. O processo de leitura das 289 páginas é rápido. No final, o roteiro foi finalizado e gravado por Ruy Guerra, o moçambicano que adotou o Brasil como porto. Uma prova de ninguém é uma ilha.

Tomei conhecimento desta obra através de Nealdo, jornalista e publicitário de Maceió que já tem um livro no prelo com uma bela história: a de um pianista de um cinema mudo no início do século passado. Dica repassada, companheiro!



Escrito por goethe às 03h15
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es cierto que no hay arte sin emoción

Poucos sites de artistas são tão interessantes quanto o do uruguaio Jorge Drexler. Apesar de só ficar conhecido no Brasil depois de ter levado o Oscar de melhor canção - e, de quebra, ensinado Antonio Banderas a cantar - ele já tem sete discos gravados, todos com o mesmo padrão de qualidade. Pode-se conferir todas as letras e trechos em MP3. "Guitarra y Vos" é um bom exemplo. ¡Que viva la ciencia, que viva la poesía!



Escrito por goethe às 02h58
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da série sonetos insensatos

Rua Gervásio Pires

 

Arborizada rua de mão única

Sentido Suassuna-Boa Vista

parece do alto grande túnica

a cobrir de verde a negra pista

 

Decenárias árvores te margeiam

Sombra gratuita aos passantes

Mas os troncos, coitados, arqueiam

Não são mais fortes como antes

 

Veio a chuva e, com ela, as raízes

Travando luta inglória nas calçadas

Não mais suportam o peso acumulado

 

Caídas, restam apenas as cicatrizes

Das velhas árvores que, serradas,

Atrapalham os motoristas apressados


Andava eu pela Gervásio Pires quando resolvi criar um soneto. Claro que imperfeito, sem respeito à métrica, apenas para registrar este episódio das últimas chuvas, quando a rua - que eu considero uma das mais bonitas do Recife - perdeu pelo menos três árvores. Criei tudo na cabeça até chegar no computador e registrar tudo. Claro que um soneto não surge assim por acaso. Tinha lido recentemente sobre o relançamento do primeiro livro de Mário Quintana, justamente apenas de sonetos e com o poético nome de "Rua dos Cataventos". Esta explicação pelo menos me salva da cretinice.



Escrito por goethe às 02h15
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sobre homens e livros

BORGES: Não sei que escritor disse: Les idées naissent douces et viellisent féroces. "As idéias nascem doces e envelhecem ferozes."

SABATO: Bela frase! Além disso, são sempre os pensadores que movem a história.

BORGES: Eu acho que toda a história da Humanidade pode ter começado de forma não transcendente, em conversas de café, em coisas assim, não é mesmo?

SABATO: Desculpe, mas fiquei tocado por essa frase que o senhor citou. Lembremos das coisas ferozes que se fizeram em nome do Evangelho. E as atrocidades que Stálin fez em nome do Manifesto Comunista.

BORGES: Que estranho! Nada disso aconteceu com o budismo.

SABATO: (Com tom cético) Mas me diga, Borges, o senhor se interessa pelo budismo seriamente? Quero dizer, como religião. Ou só lhe interessa como fenômeno literário?

BORGES: O budismo me parece ligeiramente menos impossível do que o cristianismo. (Riem.) Bom, talvez eu acredite no Karma. Agora, que haja céu e inferno, isso não.

SABATO: Em todo caso, se existem, devem ser dois estabelecimentos com uma população muito inesperada.

Por um instante as risadas se confundem com as palavras. Os dois se divertem.

PÁGINAS 33/34


BORGES: Mas que música interessa à juventude hoje?

SABATO: O rock.

BORGES: O estrondo, o barulho?

SABATO: Não sejamos injustos. Sei que o senhor, em geral, não se interessa por música. Mas os Beatles são grandes músicos.

BORGES: Acredito que sim. O meu sobrinho me disse uma vez: você vai ouvir um disco. "O que é?", perguntei. Não vou te dizer, me respondeu. Pôs o disco, eu o ouvi e fiquei muito enternecido. Eram os Beatles. Se eu tivesse sabido de antemão, teria ficado na defensiva. Que foi o que me aconteceu com o blues, que eu achava que não gostava. Um dia, Ulisses Petit de Murat me fez escutar Saint Louis Blues. Quando acabou, eu tinha os olhos cheios de lágrimas. "Isso é o que você não queria ouvir", ele me disse.

SABATO: É, é comovente. Mas os meninos gostam de outra música, que surge do jazz mas não é jazz.

BORGES: E o jazz, por que não? Por acaso os instrumentos são diferentes?

SABATO: Em muitos casos, sim. Introduziram novos instrumentos como a guitarra, o órgão e até a cítara. Sonoridades às vezes trazidas da Índia ou da música barroca.

BORGES: É música alegre ou triste?

SABATO: De tudo um pouco: alegre, triste, nostálgica, frequentemente terna.

BORGES: Quando eu estive nos Estados Unidos, ouvia muita música que eu não sabia bem se era para tristeza ou para alegria.

SABATO: Há um renascimento na música do Oeste, mas feita por músicos novos, como Bob Dylan e Joan Baez. Canções muito lindas, às vezes com restos de antigas baladas irlandesas ou escocesas.

BORGES: Sim, a influência das grandes planícies.

PÁGINAS 67-68 

Os encontros eram nas tardes de sábado, no período de 14 de dezembro de 1974 a 15 de março de 1975. Por sugestão do jornalista Orlando Barone, dois dos maiores escritores argentinos de todos os tempos consentiram em documentar uma série de conversas sobre todos os assuntos possíveis, com exceção de um único tema: política. O resultado foi este livro-documento de 175 páginas, agradabilíssimo, lançado agora no Brasil pela editora Globo. Três décadas depois, Jorge Luis Borges e Ernesto Sabato ainda esgrimam conhecimento e sensibilidade. Bem-aventurados os que podem presenciar estes encontros, mesmo que apenas no papel.



Escrito por goethe às 00h03
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se divertindo e cantando

 

SOY LATINO AMERICANO

Zé Rodrix - Livi

Não acordo muito cedo
Mas não fico preocupado
Muita gente me censura
E acha que estou errado

Deus ajuda a quem madruga
Mas dormir não é pecado
O apressado come cru
E eu como mais descansado

Soy latino americano
E nunca me engano
E nunca me engano

Meu caminho pro trabalho
É um pouco mais comprido
Eu vou sempre pela praia
Que é muito mais divertido

Chego sempre atrasado
Mas eu não corro perigo
Quem devia dar o exemplo
Chega atrasado comigo

Soy latino americano...

É legal voltar pra casa
Mas eu não volto correndo
Quem tem pressa de ir embora
No transporte vai morrendo

E eu que não me apresso nunca
Pro meu bar eu vou correndo
E encontro a minha turma toda
Sentada na mesa dizendo, assim!

Soy latino americano...

Quando eu abro a minha porta
Muita gente está jantando
Quando eu ponho a minha mesa
Muita gente está deitando

Eu me arrumo e vou pra rua
E na rua eu vou achando
Muita gente que trabalha
Se divertindo e cantando, assim!

Soy latino americano...
Oh-Oh-Oh-Oh-Oh...
Soy latino americano...


Música dedicada ao amigo Luiz, do blog Soy Loco Por Ti, que curte merecidas férias em algum litoral latino-americano...



Escrito por goethe às 01h48
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entre as revistas

Nas bancas de revistas mais um belo presente mensal. A segunda edição da "Entre Livros" mantém o mesmo padrão da primeira, desta vez trazendo como destaques uma bela matéria sobre o gaúcho Moacyr Scliar e um guia acessível para se entender  "Ulisses", do irlandês James Joyce. Quase 100 páginas de deleite. O caderno de resenhas apresenta um bom mostruário para as futuras compras.

"Ficção, para mim, tem de ter humor", defende Scliar. Na vida também, nem que seja por um dia. 



Escrito por goethe às 01h45
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e segue o baile calmamente

REI DO GATILHO

"Ele atirou, eu atirei e nós trocamos tantos tiros

que até hoje ninguém sabe quem morreu.

Eu garanto que foi ele, ele garante que fui eu"

 

TIRA OS ÓCULOS E RECOLHE O HOMEM

"Me recolheram e era um cadafalso.

Meu quartinho parecia um protótipo

de um conjugado water-closet: quelque chose!"

 

NA SUBIDA DO MORRO

"Na subida do morro me contaram

que você bateu na minha nega

isto não é direito

bater numa mulher que não é sua"

 

PISTOM DE GAFIEIRA

"Mas a orquestra sempre toma providência

tocando alto pra polícia não manjar

e nessa altura como parte da rotina

o pistom tira a surdina e põe as coisas no lugar"


Malandro que é malandro não pode deixar passar essa: R$ 9,90 nas Americanas...



Escrito por goethe às 01h34
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pés na terra e mãos à obra

"Essas poéticas serão criadas por nós ao reabitarmos essa terra com as pessoas que nós sabemos que pertencem a ela; para quem "primitivo" não é uma palavra que significa passado mas, primordial, é futuro.

Elas serão criadas ao aprendermos a ver, região por região, como vivemos especificamente em cada lugar.

Os poemas saltarão à frente dos automóveis e aparelhos de TV de hoje e se perderão na vastidão da Via Láctea (visível apenas quando puxamos as tomadas), para enriquecer e humanizar cosmologias de caráter científico.

Essas poéticas vindouras nos ajudarão a aprender a ser pessoas de conhecimento nesse universo em comunidade com outras personalidades - não-humanas incluídas - irmãos e irmãs."

Gary Snider, poeta beat e zen-budista, abril de 1975  



Escrito por goethe às 01h09
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sexta-feira politicamente incorreta

A coisa tá preta?

então botaram coca

na sua cerveja



Escrito por goethe às 04h13
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uma m... de vida

Se você gosta de freqüentar sebos em busca de livros usados, aí vai uma dica em primeira mão (trocadilho irresistível). Durante a década de 1980, a editora L&PM lançou uma série batizada "Oitenta", espécie de almanaques com textos variados, desenhos e fotografias de nomes conhecidos no meio artístico mundial. Este nono volume é de 1984 e serve como mostruário para os interessados. É o tipo de livro para você ter sempre à mão: na fila do banco, na rede da varanda e até mesmo no banheiro. Um dos textos que mais gosto é justamente é um que trata justamente desta última questão. O "Elogio da Bosta" é a reprodução de artigo publicado na revista paranaense Prata da Casa, no ano de 1930. O autor usa até uma epígrafe - "a merda é tanto melhor quanto mais fedida" - de um tal de Swam-Merdam para ressaltar a importância da substância como adubo. Um trechinho como aperitivo...

"Para um cientista nada existe na mater Natureza que seja sujo ou vil. Quantas vezes não realizam os sábios as suas mais esplendentes descobertas pelo exame de elementos que, aos olhos dos ignorantes, são vis e desprezíveis? Quantas vezes não examina o sábio as fezes putrefatas de seus doentes para para firmar preciosos elementos de dianóstico? Aqui mesmo, em Curitiba, não vimos os médicos examinarem a água que distribuía à população e que foi que acharam nela?

...

Queres ver? É a bosta um elemento fétido, sujo, vil. Seja tudo o que de ruim quiseres. Mas repara bem. É com esse elemento que o raio de Sol, divino artista, fabrica as delicadas pétalas de rosa, diante da qual te extasias maravilhado. É com esse mesmo elemento que fabrica os mais variados perfumes sutis com que te deleitas. É ainda com ele que fabrica o louro grão do trigo que te alimenta, que te sustenta. Não comas o que de Bosta se faz e uma horrenda morte ser-te-á castigo da impiedade.

Escusados sejam, porém, os ignorantes, esses que escancaram a boca em riso aparvalhado diante de coisas mais comezinhas da vida. Escusados sejam! Quanto a mim eu te perdôo o me haveres querido achincalhar no exercício de um nobre sacerdócio. E perdôo-te ainda porque, com a máxima certeza, estás convencidíssimo de que, se te abrissem o ventre, haveria de tresandar em sândalo".



Escrito por goethe às 03h39
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rua dos bobos, número zero

Há filmes que se sustentam pela história, outros pelos atores que conseguem segurar a atenção até o final. "Casa de Areia e Névoa - House of Sand and Fog", que chegou recentemente às locadoras, consegue unir estes dois alicerces. Dirigido pelo estreante Vadim Perelman, um dos roteiristas desta história baseada no livro de Andre Dubus II, esta produção de 2003, orçada em US$ 16 milhões, emplacou três indicações ao Oscar: Melhor Ator (Ben Kingsley), Melhor Atriz Coadjuvante (Shohreh Aghdasloo) e Melhor Trilha Sonora. Kingsley é o grande motivo para se ficar 126 minutos diante da telinha (ou telona, se sua TV for acima de 29 polegadas). Sua caracterização como o iraniano Massoud Amir Behrani, que compra uma casa colocada a leilão, onde vivia a depressiva Kathy (Jennifer Connelly), é marcante. O que as pessoas não fazem por um lugar para chamar de lar...



Escrito por goethe às 01h43
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a vida como ela é

Deve ser assim que os afogados sentem. Dois minutos antes, ele pressentiu que os quatro caras, torcedores do Sport, não estavam simplesmente indo para casa. Havia saído da loja de conveniência na esquina, na mão um saco com quatro garrafinhas de cerveja e três kinderovo - vício recente, não o de beber, mas de colecionar os brinquedinhos de brinde do chocolate - e caminhava pela avenida Conde da Boa Vista. O apartamento onde mora fica no outro quarteirão. Em cinco anos, passou incólume por esta rotina, mas desta vez não.

Deitado, sentia nas costas a água suja acumulada na calçada com a chuva recente. Imobilizado, tinha os bolsos da calça vasculhados. Ouvia os caras dizendo "pega o celular, pega a carteira", mas só conseguia pedir calma quando o joelho sobre o seu pescoço diminuía a pressão.

Durou pouco, mas foi o mais próximo que ele pôde definir como eternidade. Quando se viu rodeado pelo grupo, tentou mudar de direção, saindo da calçada em direção ao posto de gasolina, mas foi cercado e jogado no chão. Além dos quatro à sua frente, viu que tinha mais um na retaguarda. Só pensava em acabar logo, negociando pelo menos ficar com os documentos e torcendo para não ser alvo de uma agressão física ou de uma arma.

Do seu limitado ângulo de visão, notou que um ônibus parou do outro lado da avenida. O motorista gritava avisando que alguém estava sendo assaltado. Os caras correram. Ele ficou ali, estirado no chão, sem reação por segundos. Levaram apenas o celular e as cervejas, desprezando os kinderovo, o crachá e o bloquinho de anotações que estavam jogados na calçada. Demorou a se levantar, mesmo sabendo estar sendo observado de longe por gente que apareceu para ver a vítima. Saiu da letargia quando ouviu gritos na outra esquina e avistou, a cerca de 200 metros, duas motos da Polícia Militar. Percebeu duas pessoas sentadas na calçada, guardadas pelos PMs. Eram do grupo que o havia abordado, mas sem a mesma confiança irônica de momentos antes.

Agora chamavam-o de "senhor", alegando que nada tinham a ver com a história. Eram bons rapazes, honestos, trabalhadores. O adulto ele reconheceu como o que lhe havia barrado a passagem, talvez quem usou o joelho para prender sua cabeça. O menor, com a camisa colorida, era um dos que cercaram. Um dos PMs disse que, se ao invés de dupla estivessem em trio, como era o padrão anteriormente, conseguiriam prender todos os cinco agressores. Por acaso, os policiais estavam passando na avenida a tempo de perseguir e algemar dois dos cinco fugitivos. Não havia mais espaço para piedade. O próximo passo era a delegacia. As delegacias, porque um informava ter 15 anos. Significava horas de espera em locais sem infra-estrutura, com policiais civis sonolentos, para o preenchimento de relatórios e perguntas de comissários aborrecidos pelo trabalho de lavrar o flagrante.

Sujo, por fora e por dentro. E sem o celular para contar a história. Mas vivo para deixar tudo claro. Tim-tim por tim-tim.


Podia ser ficção, mas aconteceu comigo, na noite de terça-feira. Escrevi o relato acima no meu bloquinho sujo de barro, enquanto esperava o final do processo na delegacia, por volta das quatro da manhã, cinco horas depois do roubo do celular. E por falar nele, peço aos caros amigos e fiéis leitores deste blog que enviem-me um e-mail com seus números para eu atualizar minha agenda no novo aparelho. Podia ser pior.

Escrito por goethe às 01h03
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lost in space

Negócio é o seguinte: o modem do meu computador resolveu deixar esta vida. Por conseguinte, será difícil, nos próximos dias, postar alguma coisa decente neste espaço de poucos leitores. Pelo menos será um tempo em que me dedicarei a livros, filmes e discos, além do trabalho. Gostaria muito que fosse nesta ordem.

Lembrando Ana Cristina César, sou um homem do século passado vivendo no século XXI. Um homem de modos. Temporariamente sem modem.  



Escrito por goethe às 22h25
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valeu o peixe, adams!

Na quinta-feira à noite tive a oportunidade de conferir a pré-estréia do filme baseado na obra do Douglas Adams, o boa-praça da foto aí de cima. Foi uma boa experiência, apesar de não ter conseguido a toalhinha promocional que estavam dando para quem achasse um vale-brinde no braço da poltrona na sala de cinema. "O Guia do Mochileiro das Galáxias" poderia ser melhor, mas não é ruim como diversão e serve como um belo mostruário para o texto de Adams. Se servir para este propósito, já valeu como missão. A história é toda conduzida para ter uma continuação e torço para isso. No mais, valeu o peixe. E o convite.



Escrito por goethe às 22h18
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contagem regressiva

Que George Lucas, que nada. Sem entrar em pânico, vem aí o filme mais aguardado da temporada (pelo menos para mim). "O Mochileiro das Galáxias", a criação suprema do inglês Douglas Adams, deve entrar em cartaz na próxima sexta-feira. Digo "deve" porque nunca se sabe quando a Terra vai ser destruída para dar lugar a uma via expressa espacial. Tive a sorte de ler os quatros volumes lançados pela Brasiliense na década de 1980, numa tradução mais esperta do que a recente da editora Sextante. Aliás, apenas os dois primeiros livros da saga de Arthur Dent voltaram às prateleiras. Nós, pobres terráqueos brasileiros, merecíamos coisa melhor. Pelos trailers e as imagens, pode-se esperar um filme fiel aos personagens de Adams, uma figura muito louca que soube misturar humor com astrofísica. O finado é uma das minhas referências em estilo. Deve estar em algum lugar deste universo, fazendo o sinal de carona com a toalha em volta do pescoço.



Escrito por goethe às 02h32
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