fiteiro


vai um azeite aí?

Essa dica é para quem tem paladar. Um site criado pelos produtores de azeite espanhol permite o acesso a receitas virtuais e ainda oferece, como prêmio, livros caprichados, de excelente qualidade, inteiramente grátis. Basta responder a um quiz e obter os pontos para trocá-los pelas publicações. As respostas são facilitadas a partir de uma consulta aos textos do site. Em 20 minutos, tudo está terminado, podendo-se então preencher o cadastro e esperar o recebimento do livro em casa. Sem trapaças e sem aborrecimentos. E um belo fio de azeite para costurar tudo: http://www.azeite.com.br/index.php 



Escrito por goethe às 19h43
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se todos fossem iguais a você

Exemplo de site de uma personalidade pública, o mantido pela família de Vinicius de Moraes permite que você tenha acesso a todas as obras do poetinha e que ainda monte a sua própria antologia. Eu fiz a minha, batizada de "A Arca de Vinicius", que não consta das colocadas em destaque. Gilberto Gil também fez a dele. A visita vale assim mesmo: http://www.viniciusdemoraes.com.br/



Escrito por goethe às 19h29
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histórias de música popular (parte I)

 

Tom e Pixinguinha na TV (16.08.1971)

Ainda não está dando para acreditar.

Eu vi Antônio Carlos Jobim e Pixinguinha na televisão!

Vi, sim.

Tom cantava, tocava piano; Pixinga tocava piano, cantava, um espetáculo.

Não tinha ninguém dizendo besteiras; ninguém falou bobagem. Só música. Só ligação total. Pixinga era todo ternura.

O Tom até falou. Falou, sim. Ainda não estou acreditando. O que será que está dando nessa gente. Ainda há pouco, vi João Gilberto e Caetano. Agora, Tom e Pixinga. O que estará acontecendo? Será que ficou todo mundo louco? Onde já se viu? Então esse pessoal da televisão não sabe que esse não é o caminho?

O que dirão os Silvio Santos e os Flávio Cavalcantis da vida? Que negócio é esse? Então esses meninos Walter Clark e Boni não sabem que televisão não é isso? Que televisão quanto mais burra melhor? Onde já se viu? Mostrar Antônio Carlos Jobim e Pixinguinha juntos numa só noite, num só programa? E ainda apresentados por essa talentosa cantora Elis Regina, que Ella Fitzgerald acha que é a maior do mundo? Que que é isso?

Não façam mais isso. A não ser que vocês queiram ser chamados de “por fora”. Aceitem um conselho. Conservem seus empregos. Continuem com os Waldicks, os repolhos do Chacrinha, as tiradas de gênio do Silvio, senão essa televisão vira adulta e depois como é que vai ser?

PÁGINA 51

 

 

Magal, sim, senhor (14.08.1978)

As vozes da classe média sempre falaram contra os que conseguiram se comunicar com a maioria, geralmente cantores populares ou compositores de grande êxito comercial.

Foi assim quando Torres, Serrinha e Rielli cantavam o imortal Pingo d’Água, ou Cabocla Tereza, de João Pacífico, só agora redescoberto por Adauto Santos que gravou Doce de Cidra, uma das melhores gravações deste ano.

Foi assim com Orlando Silva, na época esnobado pela mesma intelligentsia, por ser ídolo das massas. Houve até quem, em público, o chamasse de “mulatinho pedante”, lembram?

Foi ainda assim com Nelson Gonçalves e Adelino Moreira, quase crucificados por cantarem o sentimento deste povo, ou da grande maioria dele. Logo depois, foi a vez de Waldick Soriano ser o alvo dos “entendidos” de música popular.

E agora é a vez de se apedrejar o cantor Sidney Magal.

Coitado. Como o discriminam. Outro dia, numa emissora de rádio, um desses entendidos agrediu publicamente mais uma vez com palavras altamente desairosas o dono da preferência popular da atualidade, o cantor Sidney Magal.

Precisamos assumir nossa incultura.

O povo está preparado para ir até Magal e daí para frente ele não entende mais nada. É preciso aceitá-lo e não combatê-lo. É preciso, antes de tudo, reconhecer seu talento em se comunicar com a maior parcela da população e tentar falar com ela da mesma forma que ele fala. Se não for possível, o melhor é calar e reconhecer que ainda há muito a ser feito no sentido de orientar e instruir esse povo, tarefa aliás de responsabilidade dos veículos e dos “entendidos em rádio” que falam mal de Magal.

PÁGINAS 186 E 187



Escrito por goethe às 19h10
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histórias de música popular (parte II)

 

Carta a Elis (13.02.2001)

Pois é, baixinha: já faz todo esse tempo que você se foi. Era dia 19 de janeiro de 1982 e eu estava dentro do estúdio do Balancê, na Rádio Excelsior, quando a notícia que jamais gostaria de ouvir bateu nos meus ouvidos. Saí feito louco, cantando os pneus de um velho carro grande que tinha e, junto com o produtor de Humberto Marçal, Aquiles Franzotti, fui para o IML, onde a notícia dizia que teu corpo deveria estar. Logo em seguida ele chegava, depois de passar pelo crivo do médico-legista, o mesmo que um dia atestou que Wlado havia suicidado.

Como me doía tudo aquilo. Escolher o lugar para que teu corpo fosse velado. Por sugestão de Roberto de Oliveira e de teu irmão Rogério, escolhemos o Teatro Bandeirantes para os teus últimos aplausos.

Nunca pensei que tantas lágrimas estivessem dentro de mim; aliás, até hoje elas não acabaram. Choro tudo o que posso, principalmente quando te vejo na televisão, como no especial recém-lançado pela TV Cultura, mostrando teipes contigo em várias épocas de tua carreira. Obra de gente que é do ramo. Bem editado, mostrava até aquele luminoso que se acendeu no dia da tua partida, gritando na avenida São João: “Elis, que saudade!”.

PÁGINA 300


 

Walter Silva, rebatizado pelos amigos de Pica-Pau, pela semelhança com o personagem de desenho animado, começou sua carreira profissional em 1952, como locutor comercial na Rádio Piratininga, em São Paulo. Em mais de 50 anos de vida artística, foi testemunha privilegiada da música popular brasileira, produzindo shows e discos para muita gente boa que surgiu no cenário a partir da década de 1960: Elis Regina, Milton Nascimento e Belchior entre outros nomes. Neste livro lançado em 2002, ele recolheu muitas histórias ao longo de 304 páginas, entre crônicas publicadas na imprensa e textos inéditos. Só ele mesmo para contar tudo isso...

Para quem quiser saber mais, vale uma passagem pelo site dele: http://www.waltersilvapicapau.com



Escrito por goethe às 19h03
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nada além de uma ilusão (parte I)

 

Pela última vez entrava naquele estúdio, que freqüentava quase todas as semanas, desde os 19 anos de idade, para gravar seus discos. Agora, perto de completar 27 anos, ali estava para se despedir. Nada havia mudado. Estava tudo como sempre esteve, desde que entrou ali pela primeira vez, fisicamente ainda um menino, tímido e desajeitado num terninho modesto e sem qualquer elegância, mas extremamente seguro e orgulhoso por estar sendo conduzido pelo Rei Francisco Alves, que lhe sorria paternal e encorajador, para gravar seu disco de estréia. Lembrava-se de ter percorrido aquele mesmo corredor que há poucos instantes havia atravessado, e que exibia agora num ponto nobre da parede um quadro envidraçado e emoldurado em dourado, com uma de suas fotografias mais bonitas, onde se lia ORLANDO SILVA – O Cantor da Multidões, e num canto, Astro Exclusivo da RCA Victor, sobre o logotipo do cachorrinho ao pé de um gramofone.

...

Sete anos inteiros em que toda a sua vida e o seu destino foram virados pelo avesso e resplandeceram para a glória, jamais atingida por qualquer artista brasileiro, desfilavam por sua mente naqueles momentos que antecediam a saída definitiva. As despedidas sempre o entristeciam e ele estava triste. Enquanto o maestro Radamés Gnatalli, sem perceber a sua presença, mantinha-se atarefado com a papelada dos arranjos das três músicas que iriam ser gravadas por sua voz, o cantor aproximou-se do velho microfone e acariciou-lhe os contornos brilhantes, no gesto habitual de carinho, pois cada vez que deles fazia uso era como o ritual de um ato de amor. Ao tocá-lo, murmurou como numa oração silenciosa, agradecendo por tudo o que havia obtido na carreira e na vida com o concurso daquele ente mecânico e sempre pronto a entender suas emoções. Encostou nele os lábios e beijou-o tão ternamente como se beijasse um objeto sagrado da sua devoção.

PÁGINAS 23-25

  

Entre lágrimas explodiram os aplausos, que fizeram estremecer o enorme auditório, repercutiu no palco e em todas as dependências da rádio onde muitos artistas e funcionários levaram enorme susto, sem saber o que estava acontecendo. Alguns imaginaram a tragédia de um desabamento que se iniciava. Outros correram pelas escadas a ver de perto, enquanto outros subiam a gritar o “estrago” que Orlando Silva estava promovendo no show. Os locutores ficaram sem saber como agir para cumprir com a regra primária do rádio de não permitir silêncios no ar. Não havia vozes cantando nem falando, havia apenas uma aclamação tão ruidosa que era impossível alguma voz conseguir ser ouvida naquele alarido.

Era uma consagração pública como jamais se vira um cantor conquistar com uma breve exibição. Atrás do palco, um fato inusitado: os companheiros e funcionários eram possuídos da mesma euforia,e  aplaudiam a não poder mais. Oculto do público, nas coxias, Francisco Alves batia palmas emocionado. Os músicos da orquestra socavam o chão os pés e o maestro, no proscênio, espichava-se para apertar fortemente a mão do jovem cantor, a essa altura completamente atônito, sem saber se prosseguia nas inclinações de agradecimentos ou se fugia do palco correndo. Por fim, o locutor recobrou o senso de iniciativa, e do seu microfone gritou com grotesca deformação de voz:

- Este foi o grande Orlando Silva, a gema noventa que a Rádio Nacional trouxe para o seu cast de estrelas.

PÁGINA 193



Escrito por goethe às 11h07
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nada além de uma ilusão (parte II)

Antes de voltar às gravações em novembro – com resultado tão lastimável que seria melhor ter ficado afastado um pouco mais -, cometeu um dos maiores erros de toda a sua vida: influenciado por sua então companheira Zezé Fonseca, apenas por razões estéticas, para melhorar a aparência, extraiu todos os dentes naturais e passou a usar dentaduras postiças, o que foi um desastre para sua requintada emissão vocal. Numa aventura impensada, num dia ruim (como se diz no jargão musical) da sua voz, gravou, para a Colúmbia, um disco avulso para o Carnaval de 1943 com dois números sem qualquer expressão de qualidade, embora as assinaturas notáveis dos autores: “Adolfito mata-moros” (João de Barros/Alberto Ribeiro) e “Lealdade” (Wilson Batista/Jorge de Castro).

...

Aos poucos, o grande público começou a perceber que o seu ídolo deixava prematuramente a fase de intérprete incomum e ingressava no estágio de intérprete comum. Nuns raros registros de 1944 e 1945, como que lutando contra a morte, a bela voz voltou a ressoar com o mesmo frescor e a beleza perdida, mas não passaram de estertores de agonia diante do fim que se aproximava. As vendas recordistas de seus discos somente alinhavam os antigos sucessos; os novos lançamentos iam sendo esquecidos nas prateleiras das lojas. As apresentações públicas das milionárias excursões a cada dia eram menos solicitadas.

Despreparado para ocupar uma posição inferior àquela a que, ainda rapazinho, foi alçado e em que permaneceu inabalável durante toda a mocidade, agora, roçando os trinta anos de idade, atirou-se ainda com mais desatino à bebida e ao vício da morfina. Sentia-se desprotegido e perdido num mundo que parecia querer expulsá-lo de seu convívio. Prosseguia cantando o repertório anual de hábito, mas a qualidade das canções deixava muito a desejar, como se passasse a ser desatencioso com aquilo que sempre fora mais cioso na carreira. Desleixado com o repertório, deixou de se preocupar com o fato de serem adequadas ou não ao seu estilo as canções que apareciam para cantar, resultando daí um completo desperdício de sua inata categoria, com números na maioria desprezíveis.

PÁGINAS 282 A 284


Orlando Silva foi um dos maiores fenômenos da música brasileira, talvez o maior, levando-se em conta que a estrutura de marketing na sua época ainda não priorizava a aparência dos intérpretes. Um rapaz de subúrbio, manco do pé esquerdo, durante sete anos, entre 1935 e 1942, foi o senhor absoluto dos corações e mentes de um público que o idolatrava ao pé do rádio e que ficava horas em pé, no meio da rua, à espera de um sinal do cantor quando este excursionava pelas capitais. O livro do jornalista Jorge Aguiar é um presente para quem gosta de histórias do Brasil. Em 325 páginas, voltamos ao tempo dos discos de 78 rotações e acompanhamos a ascensão e queda de Orlando Silva, enquanto este convivia com nomes como Getúlio Vargas, Francisco Alves e Noel Rosa. Aliás, foi este livro que o ator Tuca Andrada usou como base para compor o personagem na peça que retrata a vida do cantor. As duas obras se complementam, como na relação de Orlando Silva com o microfone.



Escrito por goethe às 11h04
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história feita de homens e livros

Asra liga para o hotel Sheraton, a fim de que mandem um carro para cada um de nós. Em Karachi, não é é bom arriscar. Segundo o protocolo convencional, deve-se contratar um carro e chofer de confiança para levar-nos aos compromissos, e esperar-nos em cada parada. Embora já tenha viajado pelo mundo inteiro e feito reportagens nos lugares mais perigosos, Danny continua a acreditar na segurança. É por natureza um homem cauteloso. Quando nos mudamos de Bombaim, ele quase enlouqueceu o concessionário de nosso automóvel ao fazer questão de mandar instalar cintos de segurança no banco de trás do nosso Hyundai Santro. Como, no banco de trás? O homem achou engraçado. Danny achava indispensável.

O Sheraton não tinha carros disponíveis. Isso nunca havia acontecido antes. Asra tentou outro serviço de aluuel de carros e motoristas, mas também nesse a espera seria longa, pelo menos 20 minutos. Se esperarmos tanto tempo, Danny chegará tarde ao primeiro encontro, o que comprometeria o segundo e ameaçaria o terceiro. Desesperados, mandamos Shabir, o empregado, trazer dois táxis da esquina. Como se isso os fizesse chegar mais depressa, Danny saltita nas pontas dos pés. Olha repetidamente para o relógio de prata que lhe dei de presente no seu último aniversário, quando fez 38 anos. Finalmente Shabir reaparece em sua bicicleta, trazendo dois táxis. Aceno a Danny para que tome o primeiro, pois ele está mais apressado. Depois de jogar a bolsa para dentro do carro, ele me segura pelo pescoço com a mão, puxa-me para junto de si e beija meu rosto. Depois mergulha no assento de trás do táxi.

Em poucos segundos, Danny desaparece.

PÁGINAS 20 E 21 

Danny tentou escapar.

Nos meses vindouros, ficarei sabendo que os seqüestradores o mantiveram em uma cabana isolada, num conjunto residencial nos arredores de Karachi, do lado norte, longe de alguma rua, longe de transeuntes. Ao ser desacorrentado para ir ao banheiro, tentou fugir esgueirando-se por uma janelinha de ventilação. Foi apanhado e trazido de volta, e desta vez acorrentado ao motor de um carro, pesado demais para ser arrastado. De outra feita, tentou escapar ao caminhar com os seqüestradores do lado de fora. Certa vez ouviu um vendedor ambulante vendendo legumes de porta em porta e gritou por socorro; fizeram-no calar, fosse apontando uma arma ou tapando sua boca com as mãos. Suspeitou que a comida estivesse drogada e não comeu durante dois dias. Somente concordou em alimentar-se depois que um dos guardas provou um sanduíche que lhe trouxeram.

Às vezes, quando penso que ele deve ter tido muito medo, passo mal. Mas não o torturaram. Não o espancaram. Alimentaram-no, mas não muito. A comida era trazida por Naim Bukhari, o intermediário entre duas células, a de de Omar e a que mantinha Danny prisioneiro. Naim era uma força poderosa em Karachi. Líder do ramo local da Lashkar-e-Jangvi, já era procurado pela polícia mesmo antes do seqüestro de Danny. Era acusado do assassinato de dúzias de muçulmanos xiitas. Estava com Omar no aeroporto de Karachi em 21 de janeiro, e era um dos que se encontraram com ele sob a ponte Baloch no dia seguinte. No outro dia, 23 de janeiro, quando Danny entrou no carro do hotel Metrópole, foi Naim, montado em uma motocicleta, quem indicou o caminho àquela impiedosa cabana.

Os homens que vigiavam Danny falavam muito pouco inglês. Era impossível a ele comunicar-se a ele comunicar-se com seus seqüestradores, ou eles com Danny. Creio que por isso não notaram os gestos que ele fazia com os dedos quando tiraram as fotos com a Polaroid - com uma das mãos o V de vitória, com outra o gesto obsceno, com o dedo em riste. Não podiam controlar a energia e desafio que ele mostrava no rosto.

Ele lutou até o fim. No vídeo, contam meus amigos, Danny diz: "Meu pai é judeu, minha mãe é judia, eu sou judeu". Sim, tenho certeza de que o obrigaram a dizer isso, assim como o fizeram denunciar a política exterior dos Estados Unidos e talvez até acrescentar que seu pai vem de uma família de sionistas. Afinal, seu pai se mudara para Israel em 1924.

Mas eis que por que até o fim Danny foi vitorioso. No vídeo, ele diz: "Na cidade de Benei Beraq, em Israel, há uma rua chamada Chaim Pearl, em honra a meu bisavô, que foi um dos fundadores da cidade".

Isso não era uma informação que seus seqüestradores pudessem ter sabido ou que o obrigassem a pronunciar diante da câmera, para sua propaganda. A escolha dessas palavras e a decisão de dizê-las foi puramente de Danny Pearl, seu ato pessoal de desafio, dizendo em essência: "Se vão me matar por causa do que sou, podem fazê-lo - mas não me vencerão". Danny disse aquilo por mim, por seu filho, e por seus pais. Disse-o para que soubéssemos. Para que tivéssemos orgulho, e para prosseguirmos. Suas palavras sobre o passado criaram um futuro.

PÁGINAS 200 E 201


Daniel Pearl, repórter do Wall Street Journal, foi seqüestrado no Paquistão em janeiro de 2002. Ele investigava as conexões dos grupos terroristas do país com a rede montada por Osama Bin Laden. Em 280 páginas, a mulher de Danny, Marianne Pearl, conta sua história de espera e descoberta da tragédia. Ela nunca viu o vídeo divulgado na internet, onde o marido é cruelmente degolado. Grávida, ele teve um filho, Adam, nascido em maio do mesmo ano. Como tributo, escreveu este livro, que não procura glorificar o homem com quem viveu. "Coração Valoroso" é uma obra de de testemunho. Neste ano, um dos poucos livros que me comoveram, mesmo eu sabendo o final da história. A indignação ainda é a prova dos nove.



Escrito por goethe às 18h33
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um homem, um hotel, muitas vidas

Jamie Foxx que me desculpe, mas sua interpetração de Ray Charles no papel que lhe conferiu o Oscar de melhor ator neste ano não supera a incrível performance de Don Cheadle como Paul Rusesabagina, neste "Hotel Ruanda" que somente agora está passando nas telas brasileiras. Avaliando bem, já foi muita coisa a Academia indicar para três premiações (além de Chandler, Sophie Okonedo concorreu como melhor atriz coadjuvante e Kerry Pearce e Terry George como autores do melhor roteiro adaptado) este filme. O diretor irlandês Terry George poderia ter optado por uma narração sangrenta do episódio histórico que vitimou mais de um milhão de pessoas, mas acertou a mão em narrar o drama vivido por um gerente de hotel de luxo que conseguiu salvar mais de mil pessoas, entre hutus e tutsis, as duas etnias instadas pelo ódio pelos antigos colonizadores belgas.

Ninguém sai ileso dessa experiência. Rusesabagina, que hoje mora na Bélgica e tranformou-se num motorista de táxi, participou do projeto como consultor. Indiretamente, sua política de conseguir seu objetivo através de subornos lembra outra experiência vivida em outras terras. Que a história não se repita. Pelo menos isso...


Foram cem dias. Entre abril e julho de 1994, 800 mil pessoas foram assassinadas em Ruanda, pequeno país da África Central. Mortas a facão ou queimadas vivas. Dez anos depois, a imprensa mundial começa a publicar poucas linhas sobre esta tragédia. Na semana passada, o secretário-geral da Organização das Nações Unidas (ONU), Koffi Anan, reconheceu que faltou empenho dos países "civilizados" para intervir nesta chacina anunciada. A intenção de massacre da etnia minoritária tutsi pela majoritária hutu já era conhecida. Não se fez muita coisa. Agora Hollywood farejou que pode faturar alguns milhões de dólares com tudo isso. Dois filmes sobre o tema estão no forno, um estrelado por Nick Nolte (lembra dele?). Entre maio de 1995 e início de 1998, o jornalista Philip Gourevitch percorreu o país e foi atrás de todos os personagens vivos de ambos os lados. Publicou este livro, cujo título foi tirado de uma carta enviada por sete pastores adventistas aos seus superiores, que nada fizeram para impedir um ataque ao hospital que abrigava dois mil tutsis.

Publicado no Fiteiro no dia 12 de abril de 2004



Escrito por goethe às 17h14
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ferida aberta na terra dos bravos

As informações dadas pela TV eram superficiais. Embora o Serviço Secreto, o FBI e a polícia de Dallas, juntamente com uma enorme multidão de circunstantes, estivessem presentes no cenário do crime, durante pelo menos duas horas as vozes tensas dos repórteres não forneceram nenhum fato concreto sobre o atirador ou atiradores. Contudo, ficamos como que hipnotizados pela confusão, pelas infindáveis banalidades, pela magia do espetáculo das comunicações. Preocupados com o que acontecera com o presidente e com nossa própria dor, ninguém deixou o restaurante naquela tarde. Os homens de negócios e os profissionais liberais que tinham ido almoçar cancelaram seus compromissos. Frank e eu telefonamos para o tribunal e voltamos para a sala de TV.

Foi então que, no meio da tarde, anunciaram de repente a prisão do acusado. Cerca de 15 policiais de Dallas o haviam detido, assistindo a um filme num cinema que ficava a uma distância considerável do local do assassinato. A prisão retardada estourou como uma bomba na tela da TV e com isso terminou o longo silêncio no restaurante. Podia-se sentir a repentina explosão de fúria, o ódio contra aquele rapaz antes desconhecido. Seu nome era Lee Harvey Oswald.

PÁGINAS 1 E 2

As fotografias incriminadoras tinham sido encontradas na garagem de Ruth Paine em Irving, onde presumivelmente ela as estivera guardando. Quando em 21 de fevereiro de 1964, uma das fotografias explodiu na capa da revista Life, algumas pessoas concluíram que as provas contra Lee Oswald eram incontestáveis. No entanto, para a maioria das pessoas de bom senso, inclusive eu, a combinação do fuzil e do jornal comunista levantava mais perguntas do que as respondia.

À primeira vista, as fotografias pareciam ser de Lee Oswald. Entretanto, depois de examinadas com atenção ficava evidente que em cada uma delas o rosto de Oswald não se ajustava com precisão ao pescoço e ao corpo. Além disso, o rosto de Oswald aparecia exatamente igual em ambas as fotos, ao passo que a postura e a distância entre seu corpo e a câmara diferiam. Ademais, se o comprimento do rosto de Oswald fosse usado como medida, em uma das fotos o corpo era claramente mais alto do que na outra.

PÁGINA 50

 

 

Eu sabia, pelo testemunho de seus colegas do Corpo de Fuzileiros, que Oswald era notoriamente um mau atirador. Mas aquele feito seria impossível até para o melhor dos atiradores. Da toca do assassino, a primeira coisa que um atirador veria, se quisesse alvejar alguém passando de carro pela rua Elm, era uma árvore enorme, ainda cheia de folhas em pleno mês de novembro. Isso tornava improvável que o primeiro disparo houvesse atingido mais do que um galho ou um punhado de folhas.

Além disso, menos de dois minutos depois dos tiros, Oswald fora visto no refeitório do segundo andar do depósito. Não somente parecia tranqüilo, como estava bebendo uma Coca-Cola comprada numa máquina automática. Teria sido necessário que Oswald se movesse quase à velocidade da luz para executar sua façanha histórica de tiro (causando oito ferimentos em dois homens em menos de seis segundos), esconder o fuzil debaixo da pilha de caixas descritas pelo guarda Weitzman, descer quatro lances de escadas e depois comprar um refrigerante na máquina - tudo isso em menos de dois minutos e sem perder o fôlego.

PÁGINAS 79 E 80


Promotor em Nova Orleans quando Kennedy foi assassinado, Jim Garrison iniciou uam investigação para levantar o que o suposto matador do presidente, Lee Harvey Oswald, fez na sua cidade nos meses anteriores ao crime que abriu uma ferida no orgulho norte-americano. Ao longo da década de 1960, Garrison acabou se convencendo que os próprios órgãos de segurança do governo (CIA e FBI), com o apoio de cubanos anticastristas, usou Oswald (que foi morto logo depois pelo mafioso Jack Ruby, mesmo cercado por muitos policiais) como bode expiatório de um complô que visava preservar a política de linha dura contra os comunistas, beneficiando as indústrias de armamentos. Neste livro de 245 páginas e letras miúdas, o promotor conta em detalhes como as provas fundamentais foram destruídas e como testemunhas importantes foram deliberadamente esquecidas. A batalha de Garrison ganhou as telas sob a direção de Oliver Stone, com Kevin Costner no papel principal. Neste caso, a justiça não foi feita.



Escrito por goethe às 02h23
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uma luz na idade das trevas (parte I)

A parte central do cômodo era uma gigantesca estrutura de cama, com
vários catres de palha empilhados, todos infestados de parasitas.
Todos dormiam ali, independentemente de idade ou sexo – avós, pais,
filhos, netos, e galinhas e porcos -, e se um casal resolvia ter
relações, os outros acompanhavam cada movimento. No verão, podiam até
assistir. Se um forasteiro estivesse pernoitando, a hospitalidade
exigia que ele fosse convidado a compartilhar o colchão familiar. Isso
valia mesmo que o chefe de família estivesse ausente, por exemplo, em
uma peregrinação. Caso a situação suscitasse relações, e o marido
voltasse e descobrisse sua mulher grávida, sua primeira explicação era
que, durante a noite, enquanto ela dormia, havia sido penetrada por um
incubo. Os teólogos haviam confirmado a existência desses monstros e
estabelecido que sua missão demoníaca era impregnar mulheres
solitárias enquanto cochilavam. (Os padres ofereciam a mesma
explicação para as poluções noturnas dos meninos.) Mesmo que a criança
fosse muito parecida com alguém que não fosse o chefe da casa, as
acusações diretas eram raras. Maridos traídos eram motivo de escárnio;
os homens relutavam em se identificar como um deles. É claro que,
quando moças solteiras engravidavam e contavam a mesma história, eram
recebidas com mais ceticismo.
PÁGINAS 87 E 88

Lutero tinha outras peculiaridades. Seus colegas monges falavam do
diabo, alertavam sobre o diabo, temiam o diabo. Lutero via o diabo –
estava sempre esbarrando em aparições suas. Era também o mais anal dos
teólogos. Isso devia-se em parte ao caráter nacional do Reich. Um
ditado posterior dizia que, se o senso de humor inglês está na sala de
estar, o senso de humor francês está no quarto de dormir, e o senso de
humor alemão está no banheiro. Para Lutero, o banheiro era também um
lugar de reverência. Seus momentos mais sagrados eram com freqüência
quando ele estava sentado na latrina (Abort) em uma torre do

monastério de Wittenberg. Foi ali, enquanto defecava, que ele concebeu
a revolucionária doutrina protestante da justificação pela fé. Mais
tarde, escreveu: "As palavras 'justo' e 'justiça de Deus' eram um
trovão para minha consciência... Eu logo pensei que a justiça de Deus
deveria ser a salvação de todos os crentes... Portanto, é a justiça de
Deus que nos justifica e nos salva. E essas palavras tornaram-se para
mim uma doce mensagem. Esse conhecimento me foi dado pelo Espírito
Santo na latrina da torre".
PÁGINA 191



Escrito por goethe às 01h32
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uma luz na idade das trevas (parte II)

Hieronymous Bosch (1450-1516) - "Paraíso e Inferno"

Alguns humanistas foram vítimas; outros se tornaram líderes da
revolta. Todos, quando capturados, tiveram mortes horrendas. Os que
haviam sido líderes tornavam-se mártires, mas as mortes dos líderes e
liderados pareciam igualmente sem sentido. Em seu Christianismi
restituo
(A restituição do cristianismo), o teólogo e físico nascido
na Espanha Miguel Servetus descartava a predestinação como blasfêmia;
Deus, escrevia ele, condena apenas aqueles que condenam a si mesmos.
Servetus foi ingênuo o bastante a ponto de enviar um exemplar para um
pregador que acreditava na predestinação como palavra revelada e que,
sabendo a igreja que Servetus freqüentava e quando ele o faria, montou
uma emboscada para ele durante o culto. Um concílio protestante
condenou-o à morte em fogo lento. Agora aterrorizado, consciente de
seu erro, o autor condenado implorou clemência – não por sua vida, era
esperto o suficiente para não fazer isso; queria apenas ser
decapitado. Seu pedido foi negado. Em vez disso, ele foi queimado
vivo. Levou meia hora para morrer.
PÁGINAS 254 E 255



A expedição havia partido de Sanlúcar com 420 tonéis de vinho. Estavam
todos secos. Um por um, os outros víveres iam sumindo – queijos, peixe
seco, porco salgado, feijões, ervilhas, anchovas, cereais, cebolas,
passas e lentilhas -, até sobrarem apenas barris de uma água salobra e
malcheirosa, e biscoitos que, depois de terem se esfarelado virando um
pó cinzento, estavam agora imundos com fezes de ratos e cheios de
vermes. Misturados com serragem, formavam uma gororoba medonha que os
homens só conseguiam engolir tapando o nariz. Os ratos, que podiam ser
assados, eram tão valiosos que cada um deles era vendido por meio
ducado. O capitán-general os havia avisado que eles talvez precisassem
comer couro, e esse momento chegou. Desesperados para aplacar as dores
de estômago, "os rapazes famintos", escreveu Antonio Pigafetta, que
era um deles, "eram forçados a mastigar o couro que cobria a verga
> grande para evitar o atrito". Já que essas tiras de couro haviam sido
endurecidas "pelo sol, pela chuva e pelo vento", explicava ele,
"éramos obrigados a amaciá-las colocando-as no mar por quatro ou cinco
dias, e depois disso as cozinhávamos sobre brasas e as comíamos
assim".
PÁGINA 347


O escritor norte-americano William Manchester condensa, em 427
páginas, mais de mil anos de história, neste excelente livro lançado
no Brasil pela Ediouro, com direitos a ilustrações e mapas e um
prático índice remissivo. Erasmo de Roterdã, Martinho Lutero, Leonardo
da Vinci, Nicolau Copérnico e Galileu Galilei - entre tantos nomes que
lembram nossa época das bancas escolares - estão misturados neste
relato que procura explicar as causas do fim da civilização clássica
na Europa, o posterior renascimento artístico e cultural e as
descobertas científicas e territoriais que ajudaram a derrubar o
completo domínio do Vaticano sobre corações e mentes. No meio de tudo
isso, muito sangue de inocentes. Autor de uma elogiada biografia de
Winston Churchill, Manchester escolheu o navegador português a serviço
da Espanha, Fernão de Magalhães, o primeiro a circunavegar a Terra,
como o símbolo desta época. Se o mundo dá tantas voltas, então é
melhor entender esta história direitinho...

P.S. Em tempo: encontrado a R$ 9,90 nas Lojas Americanas.



Escrito por goethe às 01h30
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amo muito tudo isso

Mais uma safra de discos em http://lottacontinua.zip.net



Escrito por goethe às 01h25
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