a vida é doce, mas o trabalho é duro

da cana espreme-se o sumo,
e o descartado forma o entulho
trabalho para homem e para burro

o bagaço vai para a fornalha
alimentar o calor dos infernos
para quem perto trabalha

no galpão desarrumado
a higiene fica de lado
na política de resultados

vasilhames esvaziados
esperam a nova chance
de provar de novo o melado

parecem lingotes de ouro
mas são feitos de açúcar
riqueza na língua dos tolos

a marca identifica
que o dono leva o lucro
no jogo doce da vida

o menino esquece a bola
na tarefa da embalagem
a vida que espere lá fora
Estas imagens foram feitas num dos poucos engenhos ainda existentes em Barbalha, no Ceará, local onde eu voltei nas férias de novembro. Aproveito para alertar aos poucos navegantes deste blog que o período de descanso foi um dos motivos para o descaso de postagens nas últimas semanas. Espero voltar ao normal. Enquanto isso, aceito encomendas de rapaduras...
P.S.: apesar da data de 25/11, este post é da madrugada de 05/12. É que já havia deixado as fotos a salvo no blog. Preguiça...
Escrito por goethe às 18h53
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o mundo todo na telinha
Os norte-americanos têm toda a logística da produção, mas geralmente erram nos ingredientes. Para quem está cansado de explosões, perseguições de carros, espancamentos de rivais e de salvação do mundo graças aos ianques com seus tanques e suas bandeiras, três boas surpresas estão esperando os desbravadores nas locadoras de DVD. Este é um serviço de utilidade pública. Reclamações apenas em três vias, com o carimbo de nada consta na ficha de cinemaníaco.

Esta produção grega de 2003 tem o nome original de Politiki Kouzina. É mais apropriado do que o abrasileirado “Tempero da Vida”, que soa piegas e quase me afastava do filme. Dirigido por Tassos Boulmetis, que também é o autor do roteiro, mostra o drama dos turcos de origem grega que acabam sendo expulsos do país depois de uma série de atritos entre os dois países. No centro da história está um menino e seu avô, dono de uma loja de especiarias. Como em Cinema Paradiso, o menino já adulto retorna à sua terra natal (no caso, Istambul) para reencontrar suas origens. Para alguns pode parecer açucarado demais, para outros muito insosso, mas a história tem duas devidas porções de drama e comédia. Vai ver que me ganhou pelo estômago mesmo.

Produção francesa de 2003, este filme da diretora Julie Bertucelli, que também assina o roteiro ao lado de Bernard Renucci, conta a história de avó, mãe e filha que vivem em Tbilissi, capital da Geórgia, às voltas com racionamento de água e luz decorrentes da vida moderna após o fim da dominação soviética. O principal homem da história, o Otar do título, está ausente. Médico, foi para Paris trabalhar como pedreiro. Suas cartas e dinheiro conduzem a trama, que tem um ritmo lento, mas não cansativo. A velhinha, interpretada por Esther Gorintin, é uma graça. Vale também por mostrar aspectos de um país tão diferente do nosso. Cinema também serve para isso.

Filme com criança carismática. Preciso escrever mais? Só talvez acrescentar que, mais uma vez, os argentinos mostraram que é possível fazer cinema sem efeitos especiais, bastando apenas um bom elenco e, principalmente, uma bela história. Rodrigo Noya é o protagonista, interpretando o Valentin de nove anos de idade, um menino que vive em Buenos Aires em meados da década de 1960, sonhando em ser astronauta e empenhado em reunir a família novamente após a separação dos pais. Se for para levar apenas um dos três DVDs da locadora, comece então por esse. A espanhola Carmen Maura participa como a avó de Valentin, e o diretor e roteirista Alejandro Agresti aparece como o pai do menino. Se o sueco “Minha Vida de Cachorro” lhe agradou, então a sensação de ver este filme argentino produzido em 2004 deverá ser a mesma após o fim da história.
Escrito por goethe às 17h41
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um pouco mais de vinho, por favor

Nas profundezas do Atlântico há um livro. É a sua história que vou contar.
Talvez vocês conheçam o desfecho, os jornais o noticiaram na época, alguma obras têm-no mencionado desde então: quando o Titanic naufragou, na noite de 14 para 15 de abril de 1912, ao largo de Terra Nova, a vítima mais ilustre foi um livro, exemplar único dos Rubáiyát de Omar Khayyam, sábio, poeta e astrônomo persa.
Do naufrágio falarei pouco. Outros que não eu calcularam a desgraça em dólares, outros que não eu devidamente recensearam mortos e últimas palavras. Seis anos depois, a única coisa que ainda me obceca é este ser de carne e tinta do qual, por um momento, fui o indigno depositário. Não fui eu, Benjamin, O. Lesage, que o arranquei à sua Ásia natal? Não foi em minha bagagem que ele embarcou no Titanic? E seu percurso milenar, quem o interrompeu senão a arrogância de meu século?
Desde então, o mundo se cobriu de sangue e sombras, e a cada dia mais, e a vida já não me sorri. Tive que me afastar dos homens para escutar apenas as vozes da lembrança e acalentar uma ingênua esperança, uma visão insistente: amanhã irão reencontrá-lo. Protegido por seu escrínio de ouro, ele emergirá intato das opacidades marinhas, com o destino enriquecido por uma nova odisséia. Dedos poderão tocá-lo, abri-lo, atirar-se a ele: olhos cativos seguirão de ponta a ponta a crônica de sua aventura, descobrirão o poeta, seus primeiros versos, seus primeiros inebriamentos, seus primeiros sobressaltos. E a seita dos Assassinos. Então se deterão, incrédulos, perante uma pintura cor de areia e esmeralda.
Ela não traz data nem assinatura, nada além dessas palavra, fervorosas ou desiludidas: Samarcanda, a mais bela face que a Terra jamais virou ao sol.
Ainda hoje me arrependo. Deveria ter comprado os três exemplares que estavam lá, oferecidos a R$ 3,00 cada no último dia da feira de livros no Centro de Convenções. Acabei levando apenas um, cuja capa mostrava um pequeno desgaste desde que saiu das impressoras da Editora Brasiliense, em 1991. A imagem não é das melhores, mas o texto é que me chamou a atenção. Somente depois de mergulhar na história é que percebi que o autor, Amin Maalouf, não era um nome estranho. Ele é o historiador que escreveu As Cruzadas Vistas Pelos Árabes, fundamental para quem pretende conhecer um pouco mais sobre o preceitos que regem o povo do Islã. Em Samarcanda, ele também aproveita o mote da obra de Khayyam para contar um pouco mais sobre os conflitos entre os sunitas e xiitas, o surgimento da seita dos Assassinos (de onde Osama Bin Laden se inspirou) até chegar ao século 20, quando o livro precioso vai parar nos destroços do Titanic. Devia ter comprado os três exemplares, já que não há sinais de que será relançado. Como diria o Barão de Itararé, é necessário comprar três peças de uma mesma obra: uma para ser devidamente lida, outra para ser exibida aos amigos (que elogiarão a sua inteligência) e outra para ser surrupiada pelos mesmos amigos e nunca mais devolvida.
Escrito por goethe às 16h31
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um filme para lula perder a cabeça

Holywood já se prepara para refilmar Oldboy, o filme coreano de 2004 vencedor do Grande Prêmio do Júri em Cannes e dirigido por Chan-wook Park. Cogita-se até que Nicholas Cage e Russel Crowe disputam o papel do protagonista, interpretado originalmente por Min-sik Choi. Soube disso quando procurava agora uma imagem do cartaz do filme, que acabei de conferir em DVD. Pena não ter visto na telona, mas é melhor ficar com o original. Por mais dinheiro que os norte-americanos injetem no projeto, será impossível superar a narrativa de Park, que consegue contar a história de um homem preso por 15 anos sem saber os motivos, que depois sai em busca de vingança. Contando assim parece simples, mas não é. Melhor ir ao dentista antes de apertar o play.
Escrito por goethe às 21h09
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os metaleiros também se vestem mal

O nome da figura acima é Rob Darken. Figura em nono lugar no top ten das dez fotos mais bizarras do heavy metal neste ano. É risada garantida por contagem regressiva. A lista completa está neste link: http://ruthlessreviews.com/top10/10blackmetal2.html. Vale a pena uma visita, mas segue o aviso de que é melhor tirar as crianças (e os metaleiros fanáticos) da sala.
Escrito por goethe às 20h45
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há um passado entre nós
 
 
 
"Esses, digamos assim, erros, ficam explicados ao fim, lá no expediente da coleção, onde se lê que um só e não mais que um jornalista foi chamado para tão importante trabalho. Pesquisa sobre quase dois séculos, creiam, mais edição e textos a cargo de um só profissional. Que dizer diante de semelhante empresa? Que desprezo, não é?, para uma coleção que deveria merecer uma grande equipe de historiadores, jornalistas e estudiosos das mais diferentes especializações. Chega a ser um milagre o que sai às bancas todas as segundas-feiras. Tal maravilha, nos 180 anos do Diario, bem que merecia uma missa em ação de graças".
Quando me alertaram que havia saído um comentário no site Observatório da Imprensa sobre o trabalho que vinha realizando, esperei por uma saraivada de críticas. Até que o Urariano Mota fez umas observações bem pertinentes sobre minha capacidade de contextualizar a história do jornal em que trabalho em 180 anos de acontecimentos históricos. Reproduzi acima o último parágrafo do artigo dele porque entendi como um elogio. Foi trabalho demais para uma só pessoa. E apesar dos erros (somente vistos pelo autor, com desgosto, já com os cadernos sendo vendidos nas ruas), valeu a pena. Ainda emagreci ao longo das última seis semanas. Um tipo de spa cultural, onde pesquisa-se muito, dorme-se pouco, a alimentação fica toda desregulada e a convivência com família e amigos (reais e virtuais) fica para outra vez.
O Urariano acertou. Foi realmente um milagre cada tablóide desses sair na segunda-feira programada. Fiquei craque em girar manivela da máquina leitora de microfilmes. Preencher 24 páginas todas as semanas não foi fácil. Mas agora, literalmente, tudo é passado. Tanto que já cortei os cabelos. O desafio vai ser reativar o Fiteiro.
Agora, com licença, eu vou ali em Comandatuba e volto no domingo.
Escrito por goethe às 22h54
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por um fio
respondendo às poucas intimações: a tarefa hercúlea está acabando hoje. em breve voltarei à vida normal. a primeira providência será cortar os cabelos, revoltados demais depois de oito semanas. pensando bem, em vez de "tarefa hercúlea", poderia ter usado "tarefa sansônica", para fazer um trocadilho infame com as melenas revoltas. é, perdi mesmo a forma...
Escrito por goethe às 15h33
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