mais um ano se passou... estou ficando velho e acabado

Os poucos e fiéis leitores que prestigiaram este blog ao longo de 2005 mereciam coisa melhor. Como resolução de início de ano, que 2006 resgate o fiteiro do limbo. O proprietário deste espaço agradece a preferência e promete renovar completamente o estoque de comentários, descobertas e poemicos. Aos amigos locais e aos virtuais, até daqui a alguns dias. Desejo a todos muita saúde, amor e um pouco mais de dinheiro.

Escrito por goethe às 06h46
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smells like teen spirit

Copo na mão, ele arrasta uma banqueta para a frente do aparelho de som montado sobre engradados de leite, carrega seis discos na cartucheira do CD player, começando com Let It Be dos Replacements, de 1984. Noite de sexta-feira tradicionalmente é noite da Vitrola da Ressurreição. Pete e muitos da sua turma acreditam que não existe nada mais importante ou emocionante do que um bom rock-and-roll, mas felizmente a maior parte dessa crença não é verdadeira.
O riff simples do baixo de "I Will Dare" vibra no peito de Pete e ele acende um Camel sem filtro e balança a cabeça afirmativamente acompanhando Paul Westerberg, "How young are you, how old am I, let's count the rings around my eyes...".
Pete tem uma vaga consciência de que está um pouco velho para se fixar em canções intituladas "Sixteen Blue", "Unsatisfied" e "Gary's Got a Bonner", mas não perde muito tempo pensando nisso. Pete prefere viver a pensar. E tem insistido nessa atitude apesar de os resultados não serem conclusivos.
Let It Be é seguido por R.E.M., Life's Rich Pageant, de 1986, com as faixas "These Days", "Fall On Me" e "Cuyahoga". Depois ele passa para Alice Copper's Greatest Hits, de 1975, e ouve "I'm Eigtheen", "No More, Mr. Nice Guy" e a velha e banal "Teenage Lament '74".
Perto de Cooper está London Calling, do Clash, de 1979, e, depois de "Lost In Supermarket", Pete avança para "Train In Vain", a última faixa não listada - "you didn't stand by me...".
Às nove e meia ele está no terceiro copo de Johnnie e no primeiro álbum do Pearl Jam, de 1991. Durante Black, a nostalgia e a solidão começam a pintar, justamente o que ele estava tentando evitar.
Ele tem Tricuits e molho picante para o jantar, troca a calça do terno por uma Levi's, tira a gravata e enfia os pés em seus velhos mocassins. No assoalho, perto do edredom, está um exemplar da SPIN, que ele chuta para debaixo do suplemento literário do New York Times. Nesta noite ele espera encontrar uma garota que ficará impressionada com este último, mas sabe que o mais provável é encontar alguém que conheça bem o primeiro.
É ainda provável que ele volte para casa sozinho, mas quem precisa de planos para isso?
Nascido em Seattle, Mark Lindquist conseguiu fazer um inventário inventado da geração que conviveu com o grunge e viu a ascensão e queda de Kurt Cobain. O texto acima é o da abertura da história de um advogado (como o autor) em crise por ter rompido a barreira dos 35 anos. Um bom pretexto para se falar de música, à moda de Nick Hornby. Preparem as vitrolas para hoje à noite, meus caros amigos.
Escrito por goethe às 01h24
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watching shadows on the wall

People say I'm lazy dreaming my life away Well they give me all kinds of advice designed to enlighten me When I tell them that I'm doing fine watching shadows on the wall Don't you miss the big time boy you're no longer on the ball
I'm just sitting here watching the wheels go round and round I really love to watch them roll No longer riding on the merry-go-round I just had to let it go
No auge dos Beatles, Lennon favorecia causas radicais. Marchou contra guerra no Vietnã. Fez experimentos perigosos com drogas, filmes que contrariavam a moral vigente (um sobre o próprio pênis), se tornou feminista etc. Sob Yoko, milionário, parecia mais criatura de astrologia, comedor de macrobiótica, "mãe de família" (ele cuidava do filho do casal, Sean, de 5 anos, enquanto ela dirigia os negócios da família), e, coisa incocebível num radical, chegou a dar uma contribuição de mil dólares para a compra de coletes à prova de bala para a polícia de Nova York, a mesma polícia que sob o pretexto de que era drogado tentou deportá-lo até que todo mundo depôs a favor dele e conseguiu permanecer em Nova York, a polícia que não o protegeu do assassino quando morreu na cidade que mais amou.
A morte dele é o fim de uma época, talvez a última que conheçamos em que uma geração de jovens talentosos, como os Beatles, tentou humanizar o nosso mundo de poderes impiedosos, impessoais e letais. Que John Lennon tenha morrido um milionário egoísta, rancorosos, vivendo no casulo de uma japonesa aventureira, não diminui as boas intenções iniciais dos jovens revoltosos dos anos 60, ainda que o fim dele, mesmo antes de morrer, também revele a ingenuidade dos métodos e aspirações que abraçaram.
Lennon baniu Reagan, Brejnev, Israel, Síria e Jordânia do centro das notícias. Talvez porque a maioria das pessoas reconhecessem nele um ser humano, enquanto que esses outros problemas não podem ser tocados pelo cidadão comum, que, se interessado neles, é submetido a uma dieta de "press releases" dos poderosos. Com Lennon se foi, não só uma era, nos parece, mas um anseio de simplicidades que se tornaram aparentemente impossíveis em nosso tempo.
Paulo Francis, 9 de dezembro de 1980 - Folha de São Paulo
Escrito por goethe às 19h22
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um penetra inesquecível


Presenteie o principal amigo secreto nestas destas festas de final de ano: você mesmo. Reserve R$ 19,90 para comprar o DVD deste filme. "Um Convidado Bem Trapalhão" é um clássico que mereceria uma edição com muitos extras, mas o dinheiro será bem empregado assim mesmo. A parceria entre Peter Sellers e Blake Edwards funciona às mil maravilhas. E ainda tem a trilha sonora de Henry Mancini.
Escrito por goethe às 17h51
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maravilhas contemporâneas
   
Maravilhas da música brasileira da década de 1960 estão disponíveis em um site mantido por um estrangeiro. As capas acima fazem parte do acervo de discos dele (ou dela), obtidos através de buscas em sebos. O melhor é que pode-se fazer o download de álbuns inteiros, que são renovados continuamente. A jóia atual é o Brazilian Octopus, banda que tinha na sua formação Hermeto Paschoal e Olmir Stocker. Para os pernambucanos, um atrativo a mais é o material referente à fábrica de discos Rosenblit, através do selo Mocambo. Uma visita realmente lá vale a pena: http://www.sabadabada.com
Escrito por goethe às 02h26
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histórias de uma geração

Um Callado, um Candido, um Houaiss e um Jobim. Os quatro antonios reuniram-se na tarde de 8 de fevereiro de 1993. A idéia foi do cineasta Dodô Brandão, que contou com a coordenação dos produtores Marília Martins e Paulo Roberto Abrantes, além da ajuda do jornalista Zuenir Ventura para as entrevistas particulares que compõem este belo livro em formato de álbum que vem à luz através da editora Relume Dumará. Quem leu e gostou do encontro entre os argentinos Borges e Sábato, deve sentir algo parecido em testemunhar a conversa ao mesmo tempo erudita e bem-humorada destes gênios da raça brasileira. Encontrei este livro por R$ 9,90 no tabuleiro das Lojas Americanas no Shopping Tacaruna. Um bom presente de Natal antecipado para mim mesmo. Vai como dica aos amigos.

CALLADO - Penso que se está inventando no momento um sistema de entretenimento que não vai se confundir no futuro com a parte da cultura propriamente dita. Para comunicar e adquirir cultura, você não pode prescindir de sossego e tranqüilidade. Viver cercado dessas máquinas pode ser muito bonitinho, mas impede uma comunicação maior da pessoa consigo mesma. Você só aprende conversando muito com você mesmo. Por mais que a informação venha de fora, você é o laboratório que vai transformar aquilo em coisa viva. E essa bagunçada que está aí não vai durar muito.
CANDIDO - É o fim das utopias. Nós estamos agora vivendo esta coisa duríssima, o fim das utopias, que gera um quadro muito estranho... A utopia cria o homem superior, faz você subir acima de você mesmo. Agora, nós estamos numa era de homens inferiores. Não existem mais grandes homens. Eu costumo dizer que quando éramos moços havia uma quantidade de grandes homens, para o bem e para o mal. Em política, havia Stálin e Mao-Tsé Tung, Mussolini e Ho-Chi-Minh, Hitler e Churchill, Roosevelt, De Gaulle...
HOUAISS - A poesia, a escultura e a pintura são para mim as mais belas formas de sensibilidade e da inteligência humanas. É claro que admiro outras formas. Admiro, por exemplo, a inteligência e a habilidade de um grande médico. Mas isso não chega a constituir para mim motivo de inveja. Eu não gostaria de ser um grande médico. Só seria médico se não tivesse alternativa. Para mim, o ápice da humanidade são os artistas criadores. Não os artistas perfomáticos ou perfomânticos, os que executam, mas os que de fato concebem a obra de arte.
JOBIM - Tem uma coisa que o Caetano disse que eu acho muito certo: o Brasil precisa merecer a bossa nova. Precisa ficar bom, com saúde, ir à praia, casar com moça bonita, sair no barquinho do Menescal e do Bôscoli... O barquinho vai e a tardinha cai... O amor se faz num barquinho... a navegar no macio azul do mar... Em suma, o Brasil precisa poder usufruir a bossa nova, como ela foi usufruída lá fora.
Escrito por goethe às 01h45
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