chupam gilete, bebem xampu...

Poema enjoadinho
Filhos... Filhos? Melhor não tê-los! Mas se não os temos Como sabê-los? Se não os temos Que de consulta Quanto silêncio Como os queremos! Banho de mar Diz que é um porrete... Cônjuge voa Transpõe o espaço Engole água Fica salgada Se iodifica Depois, que boa Que morenaço Que a esposa fica! Resultado: filho. E então começa A aporrinhação: Cocô está branco Cocô está preto Bebe amoníaco Comeu botão. Filhos? Filhos Melhor não tê-los Noites de insônia Cãs prematuras Prantos convulsos Meu Deus, salvai-o! Filhos são o demo Melhor não tê-los... Mas se não os temos Como sabê-los? Como saber Que macieza Nos seus cabelos Que cheiro morno Na sua carne Que gosto doce Na sua boca! Chupam gilete Bebem xampu Ateiam fogo No quarteirão Porém, que coisa Que coisa louca Que coisa linda Que os filhos são!
(Vinicius de Moraes)
Poema de Vinicius declamado por Paulo Autran no domingo passado. Dedicado a Débora (que traz Nascimento até no nome) e Milena Andrade, por razões óbvias...
Escrito por goethe às 18h17
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à sombra das bananeiras
 
Meus oito anos
Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras À sombra das bananeiras, Debaixo dos laranjais!
Como são belos os dias Do despontar da existência! — Respira a alma inocência Como perfumes a flor; O mar é — lago sereno, O céu — um manto azulado, O mundo — um sonho dourado, A vida — um hino d'amor!
Que aurora, que sol, que vida, Que noites de melodia Naquela doce alegria, Naquele ingênuo folgar! O céu bordado d'estrelas, A terra de aromas cheia As ondas beijando a areia E a lua beijando o mar!
Oh! dias da minha infância! Oh! meu céu de primavera! Que doce a vida não era Nessa risonha manhã! Em vez das mágoas de agora, Eu tinha nessas delícias De minha mãe as carícias E beijos de minhã irmã!
Livre filho das montanhas, Eu ia bem satisfeito, Da camisa aberta o peito, — Pés descalços, braços nus — Correndo pelas campinas A roda das cachoeiras, Atrás das asas ligeiras Das borboletas azuis!
Naqueles tempos ditosos Ia colher as pitangas, Trepava a tirar as mangas, Brincava à beira do mar; Rezava às Ave-Marias, Achava o céu sempre lindo. Adormecia sorrindo E despertava a cantar!
................................
Oh! que saudades que tenho Da aurora da minha vida, Da minha infância querida Que os anos não trazem mais! — Que amor, que sonhos, que flores, Naquelas tardes fagueiras A sombra das bananeiras Debaixo dos laranjais!
Devia ter postado ontem à noite, mas preferi deixar para hoje. Quem teve a oportunidade de assistir ao Canal Livre, da TV Bandeirantes, foi testemunha de um evento histórico. Aos 83 anos, Paulo Autran defendeu um maior acesso às artes, falou sobre sua experiência nos palcos, criticou Gilberto Gil e Lula e, ao final, declamou poesia. Só bastava isso. A escolha de Casimiro de Abreu não foi aleatória. Na crepúsculo da sua vida, ele mostrou que ainda pode emocionar. "Poesia. Pois é. Poesia (citando o título do livro do José Paulo Paes...)".
Escrito por goethe às 17h54
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for today he is a boy

Lançado em fevereiro de 2005 e considerado pela revista Mojo o álbum do ano, I Am A Bird Now é uma surpresa a cada faixa. Tudo se explica quando se conhece a história de Antony And The Johnsons, o vocalista e a banda surgidos em Nova York e que alcançaram o sucesso no segundo disco. Eles desbancaram Kaiser Chiefs and M.I.A. na disputa pelo concorrido Mercury Prize, que foi anunciado no mês de setembro, em Londres. Com uma opção sexual bem definida, Anthony, um inglês que passou boa parte de sua existência na ensolarada Califórnia, canta as agruras de ser um gauche na vida. Tudo embalado num acompanhamento minimalista, quase acústico, com a participação de artistas como Lou Reed e Boy George. As letras escancaram o que outros astros do Rock, como Elton John e Fred Mercury, apenas insinuavam. Uma drag-queen que não escandaliza: impressiona pelo talento.

What Can I Do
What can I do When the bird's got to die What can I do When she's too weak to fly What can I do When she's calling my name She's crying Mama, Help me to live What can I do
Escrito por goethe às 21h24
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inferno nas torres em páginas de livro

De uma janela no 61° andar na Torre Norte, Ezra Aviles vira tudo. Sabia que não era bomba alguma. Sua janela estava voltada para o norte, e ele viu o avião cortar o céu e ir certeiro em direção à torre. Batera no edifício acima de sua cabeça – quão acima, não sabia. Na verdade, a asa inferior tinha cortado o teto do 93° andar, e a asa direita rasgara o piso do 98° andar no momento em que Patrícia Massari falava com o marido sobre o teste de gravidez.
PÁGINAS 35-36
As primeiras pessoas começaram a cair da Torre Norte às 8h48 ou 8h49, dois ou três minutos após o choque do vôo 11. Eram homens e mulheres que estavam no centro do inferno criado pelo combustível do jato. Os primeiros saltos eram menos deliberados, mais reflexos, como se a pessoa se afastasse de uma fogueira. Para fugir do calor, não tinham de romper caminho pelo fogo. A face do edifício fora rasgada, estava aberta. Sozinha ou de mãos dadas, subiam nos parapeitos das janelas, único refúgio contra o calor e a fumaça.
Um homem. Uma mulher. Um homem e uma mulher juntos.
Mais tarde, as pessoas nos andares superiores da Torre Norte passaram a se retirar para as salas e a selar as portas, mas a fumaça era inclemente, empurrava-as contra as janelas, que não podiam ser abertas. À medida que fumaça e fogo se espalhavam pelos edifícios, multidões de pessoas ligavam para o 911 pedindo permissão para quebrar as janelas. Não, diziam os atendentes, isso vai piorar ainda mais a situação. Então, elas chamavam de novo para dizer que a situação estava pior. Dou outro lado da sala, relatavam, os outros já quebravam as janelas. E estavam saltando.
PÁGINAS 155-156
O que acabava de cair era mais que uma torre gigantesca. A construção do Trade Center absorvera o trabalho de homens, mulheres e máquinas. Do mesmo modo como a ordem e a forma de um poderoso trabalho se desfaziam, também se dissolviam os esforços empenhados ali por milhares de pessoas. Ainda assim, as leis da física afirmam que a energia não é destruída. Durante três décadas, toda a força usada pelos operários da construção para levantar aço, derramar concreto, martelar pregos estivera acumulada nos edifícios como energia potencial, assim como um skate no topo de uma colina armazena o vigor da criança que o levou até lá, ou uma bicicleta no ponto mais alto de uma estrada montanhosa guarda todo o esforço e a energia de cada pedalada que a conduziu até aquele ponto. Estocada na Torre Sul estava uma tremenda reserva de energia, 278 megawatts-hora. Toda ela foi liberada no momento da morte do edifício, e os andares ganharam velocidade à medida que despencavam e se arrebentavam uns sobre os outros. Mais tarde, os cientistas lutariam para descrever a explosão da força em termos que as pessoas comuns pudessem entender. Era equivalente a um centésimo de uma bomba nuclear. Tinha potência suficiente para fornecer eletricidade a todas as casas numa cidade de 400 mil habitantes, como Atlanta, Oakland ou Miami, durante uma hora. Foi tão forte que a terra se convulsionou em ondas capturadas num sismógrafo a mais de quatrocentos quilômetros de distância, em New Hampshire. Ainda assim, os que sentiram o choque no edifício não compreenderam que o outro prédio desabara.
PÁGINAS 230 E 231
Em inúmeros funerais de bombeiros e policiais, o prefeito Giuliani declarou que eles haviam salvado as vidas de 25 mil pessoas, "o maior resgate já registrado". Houve ocasiões em que a estimativa dos "resgatados" chegou a 50 mil. O prefeito criou um fundo especial de assistência às famílias dos resgatadores uniformizados e mais tarde ampliou-o para incluir os policiais da Administração do Porto; uma nação generosa despejou 216 milhões de dólares nisso. Nas primeiras histórias contadas sobre o resgate do Trade Center, os civis simplesmente não apareciam como colaboradores no resgate – embora tivessem sido instrumentos de salvação de muitas pessoas nos andares mais elevados.
Tratava-se de uma história incompleta, e isso não era nada original. Toda calamidade cria suas próprias sombras dilatadas de confusão. O mito sempre está embutido nas primeiras versões. Poucos meses depois que o Titanic afundou, George Bernard Shaw comentou que o desastre levara a uma "explosão de revoltantes mentiras românticas".
PÁGINAS 266-267
Os jornalistas do jornal The New York Times, Jim Dwyer e Kevin Flynn, conversaram com policiais, bombeiros e funcionários da administração do World Trade Center. Também entrevistaram dezenas de sobreviventes e tiveram acesso a documentos, e-mails e transcrições de conversas telefônicas ocorridas durante o período em que as torres gêmeas resistiram ao choque dos aviões pilotados por terroristas. O resultado foi este livro, 102 Minutos, um exemplo de como uma apuração responsável pode mostrar as falhas de segurança e derrubar versões defendidas pelas autoridades. O atentado de 11 de setembro de 2001 teve seus heróis anônimos dentro de um inferno duplo vertical de mais de cem andares. São 313 páginas numa edição onde gráficos ajudam a explicar porque houve o desabamento de um dos símbolos do capitalismo norte-americano. Uma nova era começou a partir dos escombros dos edifícios. E aquela esperança de tudo se ajeitar, pode esquecer...
Escrito por goethe às 23h05
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a peleja da gangue do axe contra os donos do chiqueiro
A imagem acima praticamente vale mais do que mil palavras. Kung-fusão, o título em português de Kung Fu Hustle, vale cada centavo gasto na locação do DVD. E ainda luta, com vantagens, para ser considerado um dos melhores filmes de 2005. Tudo obra de Stephen Chow, o diretor, roteirista e ator desta doideira toda, uma amostra de que o cinema chinês, com sua indústria baseada em Hong-Kong, também vai dominar o mercado mundial. É comédia, com direito a citações de obras ocidentais, e muitas lutas coreografadas da melhor qualidade. Os personagens são caricatos, mas justamente nisso reside a graça. O Síndico e a Síndica, que dirigem o bairro batizado de Chiqueiro, são inesquecíveis. Tanto que o filme está na minha lista de compras para este 2006.
Escrito por goethe às 21h43
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promessa de ano é atualizar blog

Escrito por goethe às 01h56
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o cardisplicente profissional da esperança
  
Estava no Ceará, no meu retorno anual à origens para ajudar a evitar que eu me torne definitivamente um besta, quando vi o primeiro dos três livros acima numa filial da Saraiva no shopping de Juazeiro do Norte. Antônio Maria, coisa rara e, por isso, preciosa na prateleira. Decidi não comprar porque tratava-se do diário que ele escreveu por dois meses, entre março e abril de 1957. Achei pouco tempo para mergulhar na vida de uma personalidade como o pernambucano de coração grande. Grande e fraco. Logo me arrependi, ainda mais porque na volta ao Recife encontrei-me com Débora, a autora do blog Janela Para o Infinito (link ao lado, vai lá depois) e ela me mostra outro livro do Antônio Maria, o do meio na trilogia acima. Decidido a me refazer da besteira cearense, resolvo pedir os dois livros pelo telefone quando descubro que havia saído mais um, o Seja Feliz e Faça os Outros Felizes, lançado no final do ano passado. Foi o que fiz. Tornei-me um feliz adquirente das obras de Antonio Maria, esperando que venha mais. Dos três melhores lançamentos editoriais de 2005, ele encabeça a lista, seguido de perto pelos quatro livros do Mochileiro das Galáxias de Douglas Adams e os 14 volumes de Buda, o mangá maravilhoso de Osamu Tezuka.
Antônio Maria de Araújo Moraes, morreu aos 43 anos de idade, no dia 15 de outubro de 1964, na porta de um bar em Copacabana. Amou, bebeu, viajou e, principalmente, escreveu sobre tudo o que torna a sobrevivência mais suportável. Cronista - e aí vai um trocadilho impertinente - de mão cheia, sua obra está espalhada pelos jornais por onde passou. Suas primeiras coletâneas, lançadas no final da década de 1960, há muito estavam esgotadas. Foi a partir de 2002 que a editora Civilização Brasileira resolveu apresentar Antônio Maria às novas gerações. Coube ao jornalista Joaquim Ferreira dos Santos a tarefa de pesquisar as mais de três mil crônicas e agrupá-las por temas. As 47 agrupadas em Benditas Sejam as Moças (2002) tratam exclusivamente da relação homem x mulher. As 34 de Seja Feliz e Faça os Outros Felizes (2005) apresentam o lado irônico de Antônio Maria, deliciosas observações sobre tudo e todos. Os dois livros possuem o mesmo defeito: são curtos demais, pouco acima das cem páginas que se lê de uma juntada só. O Diário de Antônio Maria (2002) serve como uma extensão para quem já conhece um pouco mais o autor.

Seja Feliz e Faça os Outros Felizes
Queria aquela mulher que, em público, não despertasse outro sentimento senão o de respeito. - A MULHER FEIA
CLÁUDIA RÚBIA: "... sou, enfim, uma mulher muito bonita. Que devo fazer para ingressar no cinema?". Comprar a entrada. O fato de você ser bonita não quer dizer que entre de graça nos cinemas. - CARTAS DE LEITORES
Todos os doentes, quanto menos grave for a doença, mais precisam de carinhos formais; exatamente, os ridículos. - A CONSOLAÇÃO DA DOENÇA
Na vida conjugal, o marido precisa dizer besteiras constantemente. Senão, não é marido. É uma visita. - O ATRABILIÁRIO
O único tipo de mulher que Adamastor evita: as trágicas. As que se atiram pela janela, de dez em dez minutos. Mesmo assim, vive-se com elas, desde que o apartamento seja térreo. - ADAMASTOR E A MULHER
O homem só tem duas missões importantes: amar e escrever à máquina. Escrever com os dois dedos e amar a vida inteira. - CAFÉ COM LEITE
Cuidado, gente. Cuidado. Há dois Antônios. O Antônio Poente, diante de quem as mulheres baixam os olhos e os cães latem; outro, o Antônio Alvorada, que oferece constante periculosidade, mesmo às famílias que rezam unidas. - O CÃO E O MENDIGO
Citações dos outros dois livros em posts posteriores...
Escrito por goethe às 01h12
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bota o rei congo no congado

O estiloso Mingiedi e o ikembé bem no chão, perto da caixa de som
Sorry Franz Ferdinand, Strokes e outras mumunhas mais. O melhor da música em 2005 veio da África. O disco mais surpreendente do recém-finado ano passado chama-se Congotronics. O som produzido pela banda Konono Nº 1 vem de uma parafernália que poderia ser encontrada em qualquer ferro-velho do Recife ou de outra cidade brasileira. É da percussão tradicional e dos sons extraídos de metais amassados que o grupo liderado há 25 anos por Mingiedi, um virtuose no instrumento tradicional chamado ikembé (uma quase grelha ou um protótipo das garras de Volverine) faz a festa, tudo devidamente amplificado por microfones e equipamentos artesanais. A música do Congo ganhando o mundo. A verdadeira música eletrônica de baixo custo mas de longo alcance.
 
Montar uma banda desse tipo até que é barato, difícil é ter talento para tocar

Música para as massas com tecnologia testada e aprovada da gambiarra

http://www.crammed.be/craworld/crw27/e/
Escrito por goethe às 00h20
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