me segura senão eu caio

Ok, Pernambuco vem perdendo espaço, ao longo dos anos, na mídia nacional televisiva. Rio de Janeiro e Bahia monopolizam praticamente as imagens que depois são divulgadas no exterior, como exemplo da eterna e inexplicável alegria brasileira. Até São Paulo, com suas escolas de samba, têm transmissões ao vivo garantidas pela maior emissora nacional. Com sua variedade de ritmos (que só ganham destaque, é preciso ressaltar, neste curto período de Momo), Pernambuco consegue apenas algumas inserções em telejornais. Entre a menina bonita de abadá baiano e o caboclo suado do maracatu rural pernambucano, os closes e o maior tempo de exibição ficam com a primeira alternativa. Melhor que seja assim. Carnaval por aqui ainda não se tornou exibição, com cobrança de ingresso. A platéia também toma parte da peça. Até que a mídia os separe.
Escrito por goethe às 08h45
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nem só de caviar vive o homem

Nascido em 1923, Lev Borodulin fazia parte de um novo mundo. A União Soviética já engatinhava como uma congregação comunista e ele descobriu que poderia documentar os passos de uma nova potência. Durante a segunda guerra mundial, na qual participou como soldado, ele foi designado para coletar imagens que representassem a luta contra o invasor alemão. Em 1945, fez as primeiras fotos profissionais, numa estação de trem, dos combatentes que retornavam do front. Em 1947, teve a primeira imagem publicada num jornal. Depois disso, Borodulin se dedicou a viajar pelo país, apresentando aspectos inusitados dos povos que eram submetidos a um regime único de governo. Dentro do regime, ele mostrava que nem só de caviar vivia o soviético. Borodulin também ficou conhecido como um grande fotógrafo na área esportiva, registrando várias olimpíadas. Em 1972, mudou-se para Israel, onde continuou fotografando. Em 2003, foi homenageado com uma grande restrospectiva pelos seus 80 anos de vida. Deixou a melhor das impressões. Vale a pena visitar os links abaixo, o primeiro apenas com suas fotos e o segundo, mais abrangente, com imagens de outros fotógrafos soviéticos.
Em Inglês: http://www.borodulincollection.com/main.html
Em Russo: http://www.borodulincollection.com/index.html
Escrito por goethe às 14h44
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se não me defendo, quem me defenderá?

O Setembro Negro foi revelado no outono de 1971. Nascera depois de um massacre. Em meados de 1970, o rei Hussein da Jordânia ficou numa situação difícil. Os palestinos, que naquela época representavam 60% da população do país, estavam a ponto de derrubar o regime. Batalhas sangrentas ocorreram nas ruas da capital, Amã. Milhares de palestinos foram dizimados pelo exército de Hussein. Os comandos sobreviventes, derrotados, fugiram para não morrer. Milhares entraram na Síria e dali foram para as redondezas de Beirute, capital do Líbano. Uma vez lá, começaram a reconstruir uma infra-estrutura terrorista.
A missão primária do Setembro Negro era vingar as mortes causadas pelo regime hashemita de Hussein. A primeira ação foi o assassinato do primeiro-ministro jordaniano, Wasfi Al-Tell, que viam como o grande inimigo dos palestinos. Al-Tell foi morto no Hotel Sheraton do Cairo, em 27 de novembro de 1971. Um dos assassinos se inclinou e, para espanto das testemunhas, lambeu o sangue de Al-Tell.
O assassinato do primeiro-ministro foi o primeiro dos muitos realizados por vingança. Os comandos do Setembro Negro, atuando na Europa, detonaram bombas na embaixada da Jordânia, em Genebra, atiraram coquetéis molotov na embaixada em Paris e metralharam o embaixador na Inglaterra.
O Setembro Negro era diferente de outras organizações terroristas: não tinha escritórios, endereços, líderes autorizados ou porta-vozes. Os membros da Fatah adotavam o segredo formado à volta do Setembro Negro, alimentando sua aura de mistério, sua força marcial e potencial de propaganda. Mas o Setembro Negro não era tão autônomo quanto parecia - Salah Khalaf, conhecido como Abu-Iyad, representante de Arafat e um dos comandantes da Fatah, era o líder não-oficial do grupo.
PÁGINAS 34-35
O público não sabia de uma reunião supersecreta convocada pela primeira-ministra dias antes. Na quarta-feira, 6 de setembro, uma hora depois de Zamir voltar de Munique, a primeira-ministra Golda Meir chamou a Jerusalém os membros do seu gabinete, entre eles o ministro de Defesa, Moshe Dayan, e o assessor da primeira-ministra e ministro da Educação, Cultura e Esportes, Yigal Allon. Eles ouviram Zamir, que, em palavras secas, mas contundentes, contou o horror dos assassinatos que acabara de testemunhar. Os ministros ficaram lívidos. Era necessária uma resposta. Mas muitos estavam frustrados: contra quem retaliaremos? Quem atingiremos? Quem são os comandantes do Setembro Negro? Será que o grupo ao menos tem bases?
Ao final da reunião tinham decidido pelos ataques aéreos e o subseqüente ataque por terra, mas todos os presentes reconheceram a necessidade de ir além da retaliação-padrão. O olhar de determinação implacável no rosto da Velha Senhora lhes dizia que estava preparada para dar os difíceis passos necessários. Ela queria estabelecer um novo padrão. Entendia que Israel não podia mais oferecer resposta e retaliação. O imperativo do Talmud de "se alguém vem te matar, levanta-te e mata-o primeiro" precisava ser seguido à risca. Era necessária uma nova resposta israelense, uma que pudesse ficar impressa nas mentes dos conspiradores em todos os lugares e ser lembrada pelo mundo livre.
PÁGINA 94
Betzer resolveu a questão. Os soldados mais baixos iriam vestidos de mulher. Barak seria a morena sensual, Lonny Rafael e Amiram Levine, futuro general e chefe adjunto do Mossad, seriam louras.
Os homens levaram todas as suas armas e os explosivos sob os paletós e nos cintos ou, no caso das "mulheres", em suas bolsas da moda e dentro dos sutiãs. Durante um outro exercício prático, Muki Betzer, um homem de ombros largos com um paletó dois números maior do que ele, andou de mãos dadas com Barak, a morena, até a entrada do edifício. Depois disso, o tenente-general Elazar aproximou-se de Betzer e, apalpando seu casaco, perguntou:
-O que você tem debaixo disso?
- Quatro granadas no cinto, uma submetralhadora Ingram debaixo de um braço, uma Beretta debaixo do outro e oito carregadores, com trinta balas cada um, nesses bolsos - respondeu Betzer, mostrando uma fileira de bolsos costurados por dentro do paletó. Elazar aprovou com a cabeça.
Cada soldado compreendeu que se alguma coisa saísse errada com o plano, estariam sozinhos. Nenhuma cavalaria iria aparecer em Beirute. Uma noite, depois de um longo dia de treinamento, Betzer chamou os outros três do seu grupo.
- Vamos executar uma missão incomum no coração de uma cidade agitada. Haverá guardas nas portas do local. Os terroristas estarão armados. Haverá centenas de civis desarmados à nossa volta. O que temos de fazer é nos concentrar em Najar; ele precisa pagar por seus pecados - Betzer fez uma pausa. - Se fizermos como planejamos, iremos deixar a cidade intacta. É verdade, qualquer coisa pode acontecer, mas vamos manter a calma, a confiança e a cabeça fria. Cada problema tem uma solução. - Por fim, sentindo que precisava martelar o objetivo da missão, Betzer disse: - Esta é a primeira vez que vamos atacar um inimigo que tem um nome, não um adversário desconhecido com uma arma. No que diz respeito ao Estado de Israel, esses três homens cometeram crimes de guerra. Essa é uma vingança por Munique. Precisamos que eles sintam nossa raiva e tenham medo de nós.
PÁGINAS 152-153
Munique, o mais recente filme de Steven Spielberg, é uma obra que trata das consequências do episódio ocorrido durante as Olimpíadas de 1972, quando 11 atletas israelenses acabaram sendo mortos depois de serem atacados por terroristas palestinos dentro do alojamento sem nehum tipo de segurança especial. O drama, transmitido ao vivo pelas emissoras de TV, levou para os lares ocidentais a guerra surda travada no Oriente Médio entre israelenses e países árabes com o apoio e a conivência dos Estados Unidos, União Soviética, Inglaterra e França.
Munique, a obra de Spielberg, não é somente um filme de ação. A retaliação israelense com a caçada aos responsáveis pelo ataque em Munique é um pretexto para se colocar questões como as reações das pessoas diante de um chamado. As implicações éticas do seu trabalho em relação aos outros. Fazer parte de uma sociedade e, na maioria das vezes, sentir-se só.
O correspondente da revista Time em Jerusalém, Aaron Klein, avança onde Spielberg não pode aprofundar em duas horas e meia de filme. Contra-ataque, livro de 227 páginas lançado no Brasil em janeiro deste ano, pegando carona na polêmica criada pelo cineasta, apresenta os bastidores da Operação Cesaréia, criada por Israel para caçar os terroristas que ameaçavam a integridade física dos judeus em todas as partes do mundo na década de 1970.
Aaron Klein conversou com mais de 50 participantes dessa força de segurança secreta e não identificou nenhum arrependimento de suas ações. Não existia um Avner, o personagem principal do filme de Spielberg, entre eles. O livro detalha situações que são até mais espetaculares do que as cenas do filme de Spielberg, assim como destaca o fracasso de uma ação israelense na Noruega que resultou na morte de um inocente. Indicado para os que querem conhecer mais detalhes sobre um conflito que hoje domina as manchetes de jornais.
Escrito por goethe às 10h26
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aventuras de um visigodo étnico

Antônio Maria Araújo de Morais estava fazendo 19 anos (nasceu em 17 de março de 1921) quando chegou ao Rio, em março de 1940, a bordo do ita Almirante Jaceguai. A cidade tinha 1.764.411 habitantes. Quase todos cantavam que o passarinho do relógio estava maluco, achavam que Elvira Pagã era uma uva e fingiam não ver, no prédio moderninho do MEC, que Carlos Drummond de Andrade e Sérgio Buarque de Holanda bancavam os amigos e se estapeavam, óculos quebrados, por causa de um xodó comum. O vai-da-valsa já era grande. Trêmulo de pinga, Pixinguinha larga a flauta e fica com o saxofone. Ninguém notou a presença de Antônio Maria. Nessa primeira partida pelos gramados cariocas, ele chutaria todas as bolas no fotógrafo. Ficou uns dez meses por aqui. Passou fome. Foi humilhado. Preso.
PÁGINA 22
A gangorra emocional impressionava. De noite eufórico e feliz no meio das rodas, no dia seguinte Maria podia avaliar a noitada como um punhado de "horas que deviam ser dormidas e perdem-se em conversas que não levam a nada". O sentimento trágico da vida o acompanhava o tempo todo. Um estado entre o melacólico e o reflexivo diante da condição humana. As noites de Copacabana eram muito simpáticas mas incompetentes em lhe oferecer um sentido para a vida. A Manchete de 1953 diria que no fim da noite, de volta ao Cadillac, Maria carregava sentimentos de gosto acocacolado n'alma.
PÁGINA 77
Antônio Maria encerrou as anotações em seu diário sem qualquer explicação. Talvez preguiça e falta de tempo. Talvez porque, como diz num dos dias, desconfiasse que Mariinha o andasse lendo. Ou porque ele mesmo andou mostrando a duas amigas e a partir daí sentiu que escrevia diferente, sentiu que poderia ser lido pela posteridade e, ao contrário do que se tinha prometido no início, começou a posar no texto, a escrever com menos naturalidade. Sabe-se lá o motivo da interrupção, apenas lamenta-se. Era Antônio Maria em estado bruto, imprevisível, carente profissional, desconfiado da humanidade como um todo, desgovernado pela busca do grande amor nas mulheres mais erradas, e ao mesmo tempo capaz de reflexões belíssimas sobre elas.
...
A última anotação de Maria no diário foi em 19 de abril. Não por acaso uma Sexta-feira Santa. Dia consagrado à dor.
PÁGINAS 150-151

São 185 páginas para serem lidas de um fôlego só. Como na vida de Antônio Maria, o tempo passa rápido graças ao talento do cronista Joaquim Ferreira dos Santos, que vem se dedicando a resgatar a obra do pernambucano que foi figura fundamental das noites cariocas entre as décadas de 1940 e 1960. Esta biografia, na verdade, é uma edição revista e ampliada de Noites de Copacabana, lançada em 1996 dentro da série Perfis do Rio. Por causa da autobiografia de Danusa Leão publicada no segundo semestre do ano passado, Joaquim Ferreira dos Santos optou em oferecer novos detalhes sobre esta relação que acabou de enfraquecer ainda mais o coração do cardisplicente Maria.
O texto só não merece um elogio total pela deselegância de Joaquim Ferreira dos Santos em responsabilizar os nordestinos - "paraíbas e cabeças-chatas", no dizer dele - pelo fim do glamour existente na ex-capital federal. Na página 65, uma prova de como ele chutou a bola no fotógrafo: "Costuma-se dizer que o bairro naquela época era uma imensa vila habitada exclusivamente pela classe média. Os paraíbas e suburbanos, nossos visigodos étnicos, já estavam por lá. Mas eram poucos, serviam apenas, como se fosse num filme da Metro, para dar cor exótica, tropical".
Mulato, gordo e pernambucano, Antônio Maria era um "visigodo étnico". Mas soube usar a ironia como uma arma a favor. Aprende com ele, Joaquim.
Escrito por goethe às 15h02
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a vida em cima de um palco

Tinha visto este filme em DVD no final de janeiro e descubro que foi a atração da Sessão de Arte na semana passada. Com certeza, em tela grande este filme do diretor Richard Eyne ganha mais força. Produzido em 2004, a história que mostra o período em que as mulheres ganharam o direito de atuar nos palcos ingleses é eficiente graças aos atores principais, Billy Crudup e Claire Danes. Em 1660, os papéis femininos no teatro eram sempre representados por homens. Ned Kynaston (Crudup) é o grande intérprete dos papéis femininos, mas cai em desgraça depois que o rei Charles II (Rupert Everett) resolve acabar com a reserva de mercado. Maria (Claire Danes), sua ex-camareira, ocupa seu lugar. Bons diálogos e a interpretação de trechos de Otelo, de Shakespeare, garantem o dinheiro da locação. Se a moda é mostrar relações entre pessoas de mesmo sexo, A Bela do Palco mostra como o tema pode ser tratado de uma forma não enfadonha. No mais, como curiosidade, Crudup e Danes tornaram-se realmente um casal depois das cenas no palco. A arte imita a vida que imita a arte.

Escrito por goethe às 19h50
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time is on my side

Aos poucos e fiéis leitores (se é que ainda exista algum): mesmo sem ter sido atualizado nas últimas semanas, este blog não pode ser ainda considerado clinicamente morto. Ainda mais em mês que se comemora aniversário. Há dois anos que o fiteiro abriu suas portas com a proposta de oferecer uma variedade de pequenas bobagens. Agradeço à clientela selecionada que arriscou ter seu nome anotado na caderneta de fiado. No mais, espero que tenham gostado do show que mandaram fazer lá no Rio de Janeiro...
P.S. Sobre o show dos Stones, não posso deixar de pensar em duas pautas ótimas:
1) Entrevistar o professor de português de Mick Jagger, que deve ser o mesmo que dá aulas para a Luciana Gimenez. Se duvidar, deve ter sido o filho dele com a dita cuja, mas ele pode ser perdoado por ser uma criança.
2) Localizar o camelô que vendeu a camiseta bandeirosa usada no final do show. Garoto-propaganda como esse só daqui a 62 anos...
Escrito por goethe às 23h24
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i can't believe the news today

exemplo de mico?
ouvir vox na tv
dizendo: "bono é ito"
Escrito por goethe às 23h03
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em copacabana tudo é rei ou rainha

Este cara poderia ter estado no palco na noite do último sábado, tocando como um Rolling Stone. Shuggie Otis disse não ao convite feito em 1974 por Mick Jagger e Keith Richards para se integrar ao grupo. A vaga de guitarrista existia com a saída de Mick Taylor. Coube a Billy Preston, uma espécie de "pedra rolante honorária", fazer a proposta. Shuggie polidamente recusou, ressaltando que tinha seu próprio grupo e um contrato com uma grande gravadora. Ron Wood foi a segunda opção dos Stones. Inspiration Information era a grande aposta de Shuggie Otis naquele ano. O disco do filho do músico de blues Johnny Otis trazia canções inspiradas e tocadas em grande parte apenas por Shuggie, considerado não apenas um guitarrista excepcional mas também respeitável baixista e tocador de bateria, piano, órgão e vibrafone. Os arranjos para metais também foram criados por ele. Pena que o mercado norte-americano não entendeu a proposta de funk com pitadas de soul, rock e outros gêneros musicais em voga na década de 1970. O fracasso retumbante retirou Shuggie de cena. Alguma semelhança com a história de Tom Zé? Pois foi o mesmo dono da gravadora Luaka Bop, o ex-Talking Head David Byrne, que ressuscitou Shuggie Otis. Inspiration Information foi reeditado em 2001. Vale realmente a pena ter na discoteca, até mesmo por toda esta história. Mesmo parado, Shuggie não criou limo. Apenas evitou a limusine.
Escrito por goethe às 22h42
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um mergulho nas entranhas do poder

Quando a nave fez uma manobra à direita, em direção ao bairro do Braço, Ele pôde ver ao longe a Esplanada do Pescoço, onde estão os ministérios, e a Grande Cabeça, onde ficam os Jardins da Testa e o Parque Ecológico da Cabeleira.
Viu Também a parte mais nobre da Grande Cabeça: a Praça Tríplice. Ali estão instalados os três poderes. Ao norte há dois prédios cilíndricos:o do Sumo Tribunal, que faz as vezes de olho esquerdo, e o edifício do Congresso, que é o olho direito. Curiosamente, o apelido do Congresso é Zoológico. Um pouco mais ao sul vê-se uma construção comprida e triangular: o Palácio do Nariz, sede da presidência da República. Quando o viu, Ele pensou: “Um dia o Nariz será meu”.
Logo abaixo está a Praça da Gargalhada, destinada a grandes festas e, raramente, a manifestações populares. Visto de cima, este rossio parece uma meia-lua. A idéia do arquiteto era que a Cabeça tivesse a expressão de um rosto sorridente, sugerindo otimismo e confiança. Porém, quando a obra foi concluída, percebeu-se que a parábola ficara mais acentuada que o planejado, dando ao rosto uma expressão um tanto debochada.
PÁGINA 13
Uma hora depois Ele e Zebra entravam no túnel da Clavícula, a caminho da Pirâmide, mas, antes de contar o que aconteceu nesse templo religioso, quero mostrar como às vezes um detalhe levava Seu pensamento para longe: um pequeno grão de poeira entrou no Seu nariz, fazendo-O dar um retumbante espirro; curiosamente, a mancha que o ranho deixou no lenço lembrava os contornos de Seu estado, e assim Ele começou a lembrar de quando era candidato à assembléia estadual.
Novamente teve o apoio de Touro, que agora era secretário de Agricultura. Assim, todo fazendeiro que vinha pedir algo para o sogro tinha que prometer o voto de seus empregados para o genro.
Seu adversário na região era um professor chamado Ornitorrinco. A campanha dos dois foi muito diferente. Ornitorrinco disse que daria prioridade à saúde, Ele prometeu uma fonte luminosa em cada cidade do estado; Ornitorrinco disse que lutaria por mais escolas, Ele, que construiria mais presídios; Ornitorrinco não tinha dinheiro para a campanha, Ele foi financiado por Touro e outros fazendeiros; Ornitorrinco falava que era preciso ser realista, Ele, que transformaria aquela região no lugar mais rico do país, ou melhor, do mundo, ou melhor, do universo.
Ele ganhou fácil. Ornitorrinco dá aulas até hoje.
PÁGINA 129
Lançado em 2000, este livro de 230 páginas e letras grandes de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta continua sendo atualizado pelos acontecimentos em Brasília. Em tempos de deputado reclamando que 55 dias de férias é um período muito pequeno, a história de um político relatado por um verme que percorre seu corpo cumpre o seu papel de sátira. Numa capital projetada que tem a forma de um corpo humano e num Congresso que é um verdadeiro zoológico, o hospedeiro de pequenas criaturas tem seus sonhos de glória, nem que isso signifique mandar todos à merda. Um bom exemplo de livro que se pode levar ao banheiro sem passar vergonha.
Escrito por goethe às 22h17
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vai um malboro mentolado aí?

O Segredo de Brokeback Mountain, o filme do tawainês Ang Lee que é o favoritíssimo do Oscar deste ano é um comercial de Marlboro mentolado. Um romance vitoriano transportado para o século 20, onde o tema das classes sociais diferentes – o grande obstáculo de preconceito a ser superado – é trocado por relação amorosa entre pessoas do mesmo sexo. Dizem que esta produção vai entrar para os anais do cinema. Pode até ser, mas é um filme menor de Ang Lee, que já tratou do mesmo tema com em Banquete de Casamento, mas com outra abordagem. Enchendo o bolso de dinheiro e a estante de prêmios, o diretor apenas mostra que é esperto o suficiente para estar atento às novas marés do mercado. Num cenário onde os casamentos gays pipocam nos países europeus, seria muito interessante fazer um filme sobre dois cowboys nos Estados Unidos, país que sob a administração Bush encarna como ninguém o retrocesso e o preconceito. Polêmica garantida e distribuição certa em pelo menos um grande mercado formado por várias nações. No mais, a crítica toda aplaudiria a iniciativa. Ser pioneiro sempre é um diferencial bem remunerado numa indústria tão competitiva. Para finalizar, a comunidade gay iria adorar ver na telona dois homens se agarrando dentro de uma tenda. Hollywood vai agraciar Ang Lee não por isso, mas pelo final da história, que acabou agradando aos conservadores da Academia. E é por isso que o Oscar vai para ele.
Adendo: Em se tratando de filme com temática homossexual, aposto mais em Capote, que deve entrar em cartaz neste final de semana, em pleno Carnaval. O ator Philip Seymour Hoffman é o grande favorito a ganhar a estatueta, encarnando o escritor que, numa espécie de “Madame Satã literária” na década de 50, encarou o preconceito de frente no Sul dos Estados Unidos.
Escrito por goethe às 22h12
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