fiteiro
conversa afiada? só no fiado, porque o dono é desconfiado


muito além dos aviões de carreira

Quem viveu a época, pode relembrar. Quem era muito menino, como eu, pode comprovar o que ouviu falar. Quem não havia nascido, pode descobrir se era tudo mesmo verdade. Não importa onde arranjar dinheiro, mas é fundamental colocar as mãos neste calhamaço de 340 páginas, edição grande em papel antes imaculado, com as principais páginas do Pasquim. Prometem mais três volumes, mas é melhor ir logo dando conta deste. Tem a famosa entrevista, na íntegra e com todos os asteriscos, da Leila Diniz e muitos textos e ilustrações deste pessoal que está na capa. O Pasquim foi um acontecimento único na imprensa brasileira, ao reunir, numa mesma publicação, egos grandes demais para um semanário alternativo em plena ditadura militar. Deu no que deu. Ficaram as páginas para contar a história.

Tarso de Castro viveu intensamente. Morreu de vício - no caso o álcool - mas não de tédio, como defendia Maiakóvski. Em 280 páginas, Tom Cardoso rememora a trajetória do gaúcho de Passo Fundo que fez sucesso no Rio e São Paulo, nos anos de chumbo. Neste período, Tarso de Castro bebeu, amou e participou da criação de publicações que se tornaram marcos do moderno jornalismo brasileiro. É livro para ser lido de um gole só, como fiz na noite passada. Serve como um belo acompanhamento à antologia do Pasquim, porque Tarso foi o homem responsável pelo surgimento do semanário. Não é à toa que seu nome está em primeiro na lista da capa do livrão. Valeu, Jacobina, pelo empréstimo. Um brinde aos amigos de boa vontade.



Escrito por goethe às 13h54
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ó menina vai ver nesse almanaque como é que tudo isso começou...

Onde encontrar a relação dos nomes das pessoas que figuram na capa do disco Sgt. Pepper's, dos Beatles? Qual o tamanho oficial de uma corda para uma competição de cabo-de-guerra? Em quais países do mundo os motoristas dirigem pela mão esquerda?

A resposta mais cômoda seria procurar na internet, mas a tela não supera o prazer de uma folha de papel. Principalmente no caso d'A Miscelânea Original de Schott, que ganhou uma versão brasileira no final do ano passado. O inglês Schott gostava de passar alguns dias pesquisando em bibliotecas britânicas. Os achados se transformavam em postais personalizados para os amigos até quando recebeu um convite para transformar tudo em livro. A primeira edição saiu em 2002. E a que temos a satisfação de manusear em português segue o mesmo estilo da original, inclusive no formato, tipo de papel, fonte das letras e número de páginas (158). Os acréscimos para Brasil incluem uma relação de frases de Machado de Assis. Parece um livro antigo. E é nisso que reside a graça da história.

Por algo em torno de R$ 30,00, é um investimento para a vida inteira. Cabe bem numa mochila para uma viagem nas galáxias ou em uma temporada forçada numa ilha deserta.

Lançado originalmente em 2004, este Almanaque Dúvida Cruel nem pode ser considerado tão original assim. A fonte de inspiração é mesmo o trabalho de Schott. Em 221 páginas, a brasileira Priscila Arida distribui temas diversos como expressões em tupi-guarani e o sincretismo dos santos católicos com os orixás. Serve como um bem-vindo complemento ao trabalho citado acima. E é bem mais barato. Este exemplar, adquirido nas americanas.com, saiu por R$ 15,90.

Fundo musical sugerido para este post...



Escrito por goethe às 08h34
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a vida é feita de som e fúria

As capas acima fazem parte de uma lista das 100 piores de todos os tempos. Para conferir o restante, clique neste link: http://rateyourmusic.com/list/djlanda/the_100_worst_album_covers_ever/. No final da página ainda vai encontrar outros links para novos absurdos. Melhor tirar as crianças da sala...



Escrito por goethe às 22h13
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espere por sua vez na fila

Washington realmente usava dentes falsos de madeira? Eu pensava tê-los visto há muito tempo em Mount Vernon, mas Mount Vernon tem agora uma página na internet que alerta que os dentes de madeira são um mito. Os mitos moldam as mentalidades, e também podem ser encontrados em lugares estranhos, como salões do século XVIII, onde abasteceram Condorcet de material para imaginar a si próprio como um borgeouis de New Haven e deram a Brissot a oportunidade de procurar americanos exóticos em Paris – não apenas Lafayette e seus índios, mas Hector Saint John de Crèvecouer, o normando transformado em fazendeiro americano que passava por perito em nobres selvagens.

 

A própria internet está cercada de um mito: a idéia de que ela veio anunciar uma nova fase da história, a “era da informação”. Também a esse respeito o século XVIII nos oferece uma oportunidade de aguçar nossa consciência histórica, pois aquela também foi uma era de informação com seus próprios meios de comunicação, e eles transmitiram mensagens que ainda podem ser recuperadas na documentação que restou. Num dia produtivo de pesquisa, pode-se até juntar partes do sistema de comunicação pelo qual elas fluíram. Essa tarefa histórica coincide com a meta geral deste livro: abrir linhas de comunicação com o século XVIII e, ao segui-las até suas origens, compreender o século “como ele realmente era”, em toda a sua estranheza.

PÁGINA 14

 

A introdução do euro em 2002 suscitou questões fundamentais: a moeda unificaria a Europa? O que mantém a Europa unida? Como a Europa pode agir como uma comunidade?

 

Pensa-se primeiro nos conquistadores: César, Carlos Magno, Napoleão, Hitler. Mas seus impérios ruíram, e a geografia continuou mudando. A Europa acabava nas florestas germânicas numa determinada época e nos Urais na outra. Ela não tem fronteiras naturais, nem mesmo no Oeste, onde os britânicos ainda dizem que estão partindo para a Europa quando viajam de carro para a França.

 

A Europa é de fato um estado de espírito. Começou como um mito, o rapto de Europa, filha de Agenor em Tiro, e evoluiu rumo a um modo de vida baseado no sentimento de pertencer a uma civilização comum. Essa mentalité collective desenvolveu-se ao longo do próprio processo de civilização, a experiência compartilhada de viver sob a lei romana, a religião cristã e a cultura secular desenvolvida na Idade das Luzes.

 

Essa cultura comum esfacelou-se no século XIX, quando a Europa fragmentou-se em Estados-Nações, mas seus princípios persistiram. Tendo sido articulados por filósofos de toda parte, de Kant em Königsberg a Filangieri em Nápoles, eles foram proclamados em 1789 pela Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão: “Os homens nascem e crescem livres e iguais no tocante aos direitos (...). Esses direitos são a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão”. Eles foram reafirmados pela Declaração Universal dos Direitos do Homem adotada pelas Nações Unidas em 1948. Mantêm-se ainda como os fundamentos da Europa que se ergueu novamente no final do século XX.

 

A famosa boutade de Kissinger – “Se eu ligar para a Europa, que número devo discar?” – erra o alvo porque a Europa corresponde a um conjunto de símbolos e a um sistema de valores. O euro é um deles, mas seu valor vai flutuar de maneira errática, enquanto os valores do Iluminismo estão profundamente enraizados no passado.

PÁGINAS 91-92

 


O historiador Robert Darnton, norte-americano e professor da Universidade de Princeton, é um dos grandes conhecedores do Iluminismo. Neste livro de 241 páginas, lançado originalmente em 2003 (no Brasil, no ano passado), ele nos convida a percorrer a Europa - principalmente a França - no século XVIII. Os pequenos detalhes é que fazem a diferença e, neste aspecto, Darnton é mestre. Escreve como se parecesse fácil. O que aconteceu naquele período tem reflexos nos dias de hoje. Em oito capítulos, oito aspectos de uma sociedade que buscava a universalidade e um dentista. Pensando bem, um tira-dentes era o sonho de consumo mais imediato. O prazer de mastigar tem mais importância do que supõe a vã filosofia...



Escrito por goethe às 00h25
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e vamos botar água no feijão

"É tempo que este paiz se emancipe da tutella Europea debaixo da qual tem vivido até hoje; é o tempo que elle se apresente com seu caracter natural, livre e independente de influencias estrangeiras, guisando a seo modo os innumeros produtos de sua importante flora, a exquisitas e delicadas carnes de sua tão variada fauna, acabando com este anachronismo de accommodar-se com livros estrangeiros, que ensinão a preparação de substancias que não se encontrão no paiz, ou só custosamente podem ser alcançados".

O autor anônimo do livro O Cozinheiro Nacional, lançado no século XIX, lançava um grito de independência das nossas panelas. Nada de macaquear os estrangeiros quando se pode fazer uma boa moqueca. No lugar do vinho, cachaça. O palmito substitui bem a alcachofra. A revista Nossa História de março traz um belo dossiê sobre a culinária brasileira. Um povo é aquilo que come. Por isso, nas minhas andanças, procuro sempre visitar o mercado público das cidades. A visão e cheiro dos alimentos, além da higiene do local, contam mais do que qualquer guia de viagem. A revista não deixa de ser uma volta ao passado e um alerta: só teremos futuro se preservarmos a farinha do nosso pirão.



Escrito por goethe às 12h44
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pau, pedra, fim do caminho

A idéia é simples como um samba de uma nota só: convidar alguns especialistas para que eles indicassem os 100 melhores discos de música popular brasileira. Feita a apuração, organiza-se uma lista e publica-se um livro. O autor, o formado em Filosofia pela Unicamp e pesquisador de MPB André Domingues, preenche um espaço vazio nas nossas estantes. Em 210 páginas, ele dedica-se a reproduzir a ordem das faixas das obras selecionadas e tece comentários sobre a importância de cada disco no contexto da época. A seleção pode não ser das melhores, mas a edição é bem cuidada neste livro lançado em 2004. Uma das pequenas falhas foi não ter reproduzido a capa dos discos, que representam também uma informação a mais na relação artista - público. A única exceção é feita com os dez discos que mais receberam votos, listados em ordem alfabética. Também faltou um índice remissivo, para se localizar rapidamente quem influenciou quem nessa longa estrada da vida musical. No mais, atire a primeira pedra aquele que nunca sofreu por amor.

OS DEZ MAIS, SEGUNDO O LIVRO

BEBADOSAMBA - Paulinho da Viola (1996)

CARTOLA - Cartola (1976)

CLUBE DA ESQUINA - Milton Nascimento e Lô Borges (1972)

2 EM 1: ROSA DE OURO - Clementina de Jesus, Aracy Cortes e Conjunto Rosa de Ouro (1965/1967)

ELIS & TOM - Elis Regina e Tom Jobim (1974)

O GRANDE CIRCO MÍSTICO - Chico Buarque e Edu Lobo (1983)

O MITO - João Gilberto (1990)

PARATODOS - Chico Buarque (1993)

TROPICÁLIA - Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Nara Leão, Tom Zé e Os Mutantes (1968)

URUBU - Tom Jobim (1976)



Escrito por goethe às 13h11
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o incrível brancaleone da norcia

Cinco anos depois de O Exército Brancaleone, o diretor Mario Monicelli conta com a ajuda do ator Vittorio Gassman para uma nova aventura do herói destrambelhado. Desta vez, o objetivo não é fama e fortuna, mas seguir para Jerusalém, para lutar na conquista do Santo Sepulcro. Para esta empreitada, Brancaleone conta com a ajuda de novos companheiros, uma trupe tão bizarra quanto a da primeira história. Organizado em pequenos quadros, o filme mostra o lado mais bizarro da Idade Média, onde os personagens nem sabem bem a que papa obedecer: Clemente ou Gregório? Mesmo 36 anos depois (a obra foi gravada em 1970), os créditos iniciais continuam sendo um dos mais inventivos que estes meus olhos míopes já testemunharam. Foram baseados na Opera dei Pupi, um gênero popular siciliano de um tipo de marionetes.

O grande mérito deste DVD, além do preço de R$ 9,90, é ter sido lançado com um cuidado maior do que O Exército Brancaleone, que tem as imagens cortadas e o áudio sofrível. Brancaleone ainda merece tratamento melhor.



Escrito por goethe às 11h18
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perdendo a cabeça em 500 anos (parte I)

Até o advento da geladeira, no século XX, a comida estragada foi a maldição crônica e uma severa limitação ao comércio de vários produtos, especialmente o peixe. Quando os pescadores de baleia bascos aplicaram ao bacalhau as técnicas de salga que vinham usando com a carne de baleias, descobriram um casamento particularmente bom. O bacalhau tem quase zero de gordura e, se bem seco e salgado, raramente estraga. Ele poderia durar mais do que a baleia, cuja carne é vermelha, e o arenque, um peixe gorduroso que havia se tornado um produto salgado popular nos países nórdicos na Idade Média.

 

Mesmo o bacalhau seco e salgado estraga se for deixado por muito tempo em ambiente quente e úmido. Mas, para a Idade Média, ele era incrivelmente durável – um milagre comparável à descoberta, no século XX, do processo de congelamento rápido, que também se iniciou com o bacalhau. Ele não apenas durava mais que os outros peixes salgados mas tinha um sabor mais agradável. Uma vez seco ou salgado – ou ambos – e depois reconstituído através da imersão, esse peixe apresenta uma carne em lascas que, para muitos paladares, é muito superior à carne branca e suave do bacalhau fresco, mesmo na moderna era da refrigeração. Para a população pobre que raramente podia comprar peixe fresco, ele era um alimento barato e de alto valor nutritivo.

 

O catolicismo deu aos bascos a sua grande oportunidade. A igreja medieval impunha dias de jejum nos quais era proibido manter relações sexuais e comer peixe, mas as comidas “frias” eram permitidas. Como o peixe vinha da água, passou a ser considerado frio, assim como as aves aquáticas e a baleia, mas a carne era considerada como comida quente. Os bascos já vendiam carne de baleia aos católicos nos “dias de jejum”, que incluíam todas as sextas-feiras, já que Cristo fora crucificado numa sexta-feira, nos quarenta dias da quaresma, e em vários outros dias assinalados no calendário religioso cristão. No total, a carne era proibida em quase metade dos dias do ano, e os dias de jejum acabavam por tornar-se dias de bacalhau salgado. O bacalhau tornou-se quase um ícone religioso – um soldado mitológico na cruzada pela observância cristã.

PÁGINA 30

 

 

Os britânicos tinham bons motivos para preocuparem-se com a América do Norte. Em 1677, 98 anos antes da causa da independência americana transformar-se em guerra, a Coroa britânica recebeu um bilhete educado dos habitantes da Nova Inglaterra, acompanhado de dez barris de uvas-do-monte, dois de mingau de milho e mil bacalhaus. Talvez não tão amargo quanto dez barris de uvas-do-monte, o bilhete dizia: “Nós humildemente concebemos que as leis da Inglaterra estão confinadas por quatro mares, e não atingem a América. Os súditos de Sua Majestade aqui não estão representados no Parlamento, então nós não nos consideramos impedidos de negociar por ele”.

 

O que Charles fez com os mil bacalhaus e todas aquelas uvas-do-monte não se sabe, mas ele não fez absolutamente nada em relação aos Atos de Comércio e Navegação. Entretanto, a lei foi dobrada pela força do mercado. A Nova Inglaterra produzia bacalhau demais para o mercado britânico. Seria impossível vender tudo na Grã-Bretanha, e a frota mercante britânica não tinha capacidade para reexportar tanto bacalhau. Apesar dos Atos de Comércio e Navegação, os britânicos foram obrigados a permitir que a Nova Inglaterra comercializasse diretamente o bacalhau.

 

Livre das restrições, como calculara Adam Smith, o comércio cresceu. Em 1700, as Índias Ocidentais britânicas já não eram capazes de absorver todo o bacalhau da Nova Inglaterra, e nem conseguiam abastecer totalmente sua indústria de rum, que era um desdobramento do comércio de bacalhau. O rum ilustra bem a diferença entre a Nova Inglaterra e a Terra Nova. Enquanto esta última importava rum jamaicano e o engarrafava, o que faz ainda hoje, a primeira importava apenas o melado, construindo a sua própria indústria de rum para vendê-lo em mercados estrangeiros. Havia agora três meios para se comprar escravos na África ocidental: dinheiro, bacalhau salgado ou rum de Boston.

PÁGINAS 83-84



Escrito por goethe às 02h05
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perdendo a cabeça em 500 anos (parte II)

Durante a guerra, o preço do peixe atingiu níveis altíssimos e o pagamento à Islândia era feito em dólares, o que facilitava os negócios com as tropas americanas estacionadas na ilha. Os islandeses construíram alojamentos e bases militares americanas e começaram a importar uma grande quantidade de produtos dos Estados Unidos.

Quando a guerra acabou, a Islândia era outro país. Uma das mudanças mais importantes foi a obtenção, em 1944, da independência total do país em relação a Dinamarca, obtida através de negociação com a ex-metrópole. Agora, a Islândia estava livre para gerir suas próprias relações com o resto do mundo. Devido ao bacalhau, o país transformara-se de sociedade colonial do século XV em nação moderna do pós-guerra no período de apenas uma geração. W.H. Auden, que passara bastante tempo na Islândia nos anos 30, retornou em 1964 e ficou atônito com as transformações. Ele foi até um de seus ex-guias, agora um professor, e perguntou como tinha sido a vida para os islandeses durante a guerra. “Ganhamos dinheiro”, respondeu o professor.

PÁGINA 137

 

Há uma grande diferença entre viver em uma sociedade que caça baleias e em uma que as observa. A natureza está sendo reduzida a preciosas demonstrações para entretenimento e educação, algo muito menos natural que a caça. Estaremos caminhando para um mundo onde nada mais restará da natureza a não ser os parques? As baleias são mamíferos, e os mamíferos não põem milhares de ovos. Fomos forçados a abandonar a caça comercial e a criar mamíferos domésticos para comer, preservando os selvagens da melhor maneira possível. É muito mais difícil acabar com os peixes do que com os mamíferos. Mas, após mil anos caçando o bacalhau do Atlântico, sabemos afinal que é possível.

PÁGINA 204


Não resisti. Domingo foi dia de bacalhau. Em lascas, fritas no azeite, com bastante cebola, e ao forno, com batatas, cebola roxa, pimentão, azeitonas e ovo cozido. A culpa foi do Mark Kurlansky, que fez uma extensa pesquisa sobre a importância do Gadus morhua - o nome científico do bacalhau do Atlântico - na história da civilização ocidental. Em 253 páginas, ele apresenta situações onde o dito cujo - hoje ameaçado seriamente de extinção por sua pesca intensiva - ajudou a fazer fortunas e a consolidar nações. Publicado inicialmente em 1997, teve uma primorosa edição brasileira lançada em 2000 pela Nova Fronteira. A excelente encadernação e o papel encorpado valorizam ainda mais as receitas que estão reunidas na parte final, junto com curiosidades sobre bacalhau. Além disso, Kurlansky teve a sacada de iniciar os capítulos com citações de grandes escritores, como Cervantes, Alexandre Dumas, Émile Zola, Hermann Melville e James Joyce. Para se comer com os olhos.



Escrito por goethe às 01h40
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o nome do homem morto

O assassinato de Gaitán marca o início da história moderna da Colômbia. Haveria muitas teorias sobre Roa, que haveria sido recrutado pela CIA ou pelos inimigos conservadores de Gaitán, ou ainda por comunistas extremistas que temiam que sua revolução fosse adiada pela ascensão dele. Uma investigação independente por agentes da Scotland Yard determinou que Roa, um místico frustrado com grandiosas ilusões, havia desenvolvido um antagonismo contra Gaitán e haveria agido por conta própria. Espancado até a morte no local do crime, Juan Roa levou seus motivos consigo para o túmulo.

Fossem quais fossem seus motivos, os tiros que disparou provocaram o caos. Todas as esperanças de um futuro pacífico para a Colômbia foram enterrados. Todas as forças de diferentes linhas de mudança explodiram em"La Bogotazo", um espasmo de desordem tão intenso que deixou grande parte da capital em chamas antes de se espalhar por outras cidades. Muitos policiais, devotos do líder assassinado, juntaram-se à multidão furiosa nas ruas, assim como estudantes revolucionários como Fidel Castro. Portavam faixas vermelhas no braço e procuravam dirigir as massas, entusiasmados, achando que seu momento havia chegado, mas logo perceberam que a situação estava fora de controle. Os bandos foram ficando cada vez maiores, à medida que o protesto descambava para destruição aleatória, bebedeira e saques. Ospina convocou o exército que, em alguns lugares, disparou contra as massas.

A visão de futuro de todos morreu com Gaitán. O esforço inicial para demonstrar uma nova era de estabilidade e cooperação ficou severamente manchado e as delelegações estrangeiras se apressaram em assinar a carta e abandonar o país. As esperanças esquerdistas de despertar uma nova era comunista na América sumiu na poeira. Castro se refugiou na embaixada cubana quando o exército começou a caçar e prender os agitadores de esquerda, que foram responsabilizados pelo levante, mas mesmo a versão da CIA sobre o evento acabaria por concluir que os esquerdistas foram vítimas, como todos os outros. Quanto a Castro, um historiador da agência escreveu, o episódio foi profundamente desolador – "pode ter influenciado sua adoção, em Cuba, nos anos 50, de uma estratégia de guerrilha em vez da revolução através de desordens urbanas".

PÁGINAS 20-21

Pablo tinha um potente telescópio instalado na sacada que dava para Medellín, que se abria sob seus pés como um feudo pessoal, de modo que pudesse ver a esposa e os filhos em suas várias residências lá embaixo. Eles os visitavam com frequência na prisão. Uma pequna área de recreação foi construída para Manuela, com uma grande casade brinquedo, cheia de bonecas. Em seu 42° aniversário, 1 de dezembro de 1991, fizeram uma festa. A mãe lhe deu dois chapéus de pele russos; Pablo anunciou que dali por diante seriam sua marca registrada. Assim como Che Guevara usava uma boina e conhecia-se Fidel Castro por causa de sua barba e charutos, Pablo seria reconhecido pelos grandes chapéus russos. A família e os amigos jantaram peru recheado, caviar, salmão fresco, truta defumada e salada de batata. Pablo posou para fotografias na mesa com Maria Victoria e os dois filhos, com a mãe orgulhosa em pé atrás deles.

Não era uma prisão normal em outros sentidos, também. Pablo, por exemplo, não se sentia obrigado a permanecer lá de fato. Raramente perdia um jogo importante de futebol em Medellín; a própria polícia bloqueava o trânsito para facilitar o acesso da comitiva de Pablo na ida e volta do estádio que ele havia construído anos antes. Também foi visto fazendo compras de Natal em um shopping center da moda em Bogotá. Em junho de 1992, festejou o primeiro aniversário de sua prisão com seus amigos e com a família em um clube noturno de Envigado. Para Pablo, essas excursões eram uma trivialidade... afinal, ele sempre voltava. Havia feito um acordo com o governo e pretendia honrá-lo, mesmo pregando peças em seus carcereiros, de vez em quando.

PÁGINAS 104-105

Uma semana depois da fuga de Pablo, uma corte colombiana rejeitou o apelo de seus advogados para considerar a fuga como uma ação legítima, tomada por ele temer por sua vida. Não havia como consertar as coisas. O confortável acordo de Pablo havia ruído por completo.

Pablo estava novamente em fuga, mas desta vez a caçada seria feita com total cooperação dos Estados Unidos. Durante os seis meses seguintes, a equipe da operação americana secreta na Colômbia iria crescer para quase cem pessoas, fazendo da embaixada de Bogotá o maior escritório da CIA no mundo.

Os homens envolvidos nessa caçada sabiam que havia só um fim possível. Ele próprio já sabia. Era algo que todos compreendiam, mas não ousavam falar. O esforço não era mais no sentido de prender Pablo. Os colombianos não tinham mais paciência para tentar levá-lo a julgamento e depois trancafiá-lo; ele já havia mostrado como tudo isso era inútil. Não podiam extraditá-lo e julgá-lo nos Estados Unidos; as balas e subornos haviam tornado a extradição legalmente impossível. Não, desta vez a caçada seria definitiva.

Quando se encontrassem, iriam executá-lo. Prática comum na América do Sul, tinha até uma expressão para denominá-la:"La Ley de Fuga".

PÁGINAS 154-155


Domingo tem eleição na Colômbia. Um grande esquema de segurança foi montado pelo governo para garantir a segurança num país onde as guerrilhas e traficantes de drogas controlam boa parte do território. É neste contexto que o livro do jornalista Mark Bowden ganha atualidade. Matando Pablo, lançado em 2002, narra em 261 páginas a ascensão de queda e Pablo Escobar, o líder do Cartel de Medellín que promoveu uma escalada de violência, inclusive mandando explodir um avião comercial, depois que perdeu o status de cidadão de bem. De suplente de deputado e empresário, passou a ser considerado um criminoso, responsável pelo envio das maiores cargas de cocaína para os Estados Unidos. Após um breve período em que se entregou e passou a viver em uma confortável prisão construída por ele mesmo, Pablo continuou mandando eliminar os adversários, mas não ficaria mais impune. O governo colombiano ficou refém do dinheiro e da tecnologia ianque. Abriu mão de sua autonomia para conseguir um mínimo de estabilidade social. Treze anos depois da morte de Escobar, a situação mostra que a troca não foi vantajosa.

Na Bolívia, no início deste ano, o presidente Morales anuncia que os Estados Unidos queriam interferir na política de segurança interna, exigindo a nomeação de comandantes que lessem pela sua cartilha. O descendente de indígenas disse que o seu país era pobre, mas podia se virar sem os dólares para a compra de armas e treinamento de soldados. Erradicar a coca da Bolívia também não será fácil para os representantes de Bush.

Bowden, que faz parte do primeiro time dos jornalistas investigativos dos Estados Unidos, merecia uma sorte melhor na edição do seu livro no Brasil. O trabalho de tradução (Maria Cristina Vida Borba) e de revisão (Walter Corrêa) é um atentado. Erros de concordância e grafias diversas de uma mesma palavra atrapalham a narrativa.



Escrito por goethe às 13h41
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Trás-os-Montes, Alentejo e outras sacanagens

EU, PEDÓFILO, ME CONFESSO

Estive aqui pensando e cheguei à conclusão de que também abuso das crianças. É que uma das minhas maldades favoritas é peidar na cara dos sacanas dos meninos.
Às vezes, estou numa calçada, esperando que o sinal fique verde, e ao meu lado está uma mãe que traz o guri pela mão.
O que gosto é de esbordolhar o cu todo, ver o franzir do nariz da criança e, quando já estou do outro lado da rua, ouvir o "buáááá" infantil de quem não entende de onde vem o cheiro nauseabundo.
Também gosto de fazer isto em animais. Infelizmente, esses não choram, só fungam.

PÁGINA 195


Existe vida inteligente na blogosfera. E sacana também. O exemplo vem de Portugal. Foi no país do bacalhau que, em 2003, foi publicado O Meu Pipi. Compilação dos melhores momentos do blog de mesma alcunha, vendeu mais de 40 mil exemplares, uma façanha levando-se em conta que o autor é anônimo. Descendente bastardo de uma linhagem literária onde se misturam Aretino, Gonçalves Dias, Gregório de Matos e Petrônio - e todos aqueles literatos que um dia chutaram o pau da barraca - Pipi realmente merece os elogios de Mario Prata, que se encarregou de fazer a tradução do português lusitano para o português tupiniquim. O cara realmente escreve bem para caramba. Não recomendado para quem ainda pretende fazer vestibular para o céu. Por R$ 9,90, nas Lojas Americanas, a livraria dos pobres de bolso mas não de espírito.



Escrito por goethe às 13h45
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Con los pobres de la tierra...

Quem gostou de Buena Vista Social Club já ganha milhas de bonificação nesta nova viagem aos ritmos cubanos. Gravado em formato digital e lançado oficialmente em 2000, este filme, dirigido pelo francês Karim Dridi, foi escolhido para a Quinzena dos Realizadores do Festival de Cannes. É um road movie movido a rum e a charutos, onde acompanhamos a viagem de Miguel Del Morales, conhecido como El Gallo, por cidades cubanas. Ele se encontra com amigos que, na maioria, também são da velha guarda musical da ilha caribenha. Não há um roteiro definido e a impressão que se tem é que todos em Cuba tocam algum instrumento ou possuem voz de canário. Pobres, porém decentes. As imagens e os personagens que surgem nas andanças de El Gallo surpreendem, mas o melhor mesmo é a música. São mais de 20 canções nos mais variados estilos, que fazem a gente até mesmo esquecer o amadorismo da direção em algumas cenas. Como na que o protagonista deita-se para dormir, com sapato e tudo, e depois é acordado para tocar com o anfitrião, supostamente no dia seguinte. Ou o pessoal não tem roupa para trocar ou é feliz assim mesmo. Por R$ 14,90, o DVD pode ser encontrado em algumas lojas de departamentos. Mais barato do que um bottom do Che Guevara.

P.S. O título deste post é um trecho da letra de Guantanamera (Con los pobres de la tierra/ Que mis versos dejar/ Porque el arroyo de la sierra/ Me complace mucho mas que el mar)



Escrito por goethe às 15h10
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meu corpo é minha fortaleza (parte I)

A peçonha é uma mistura de venenos e enzimas, substâncias que dissolvem tecidos corporais. Cada tipo de cobra produz a sua própria variedade; o efeito da peçonha no interior do corpo depende de cada “receita” individual. A cobra coral que encontrei perto da latrina utiliza principalmente um veneno que age sobre os nervos, enquanto a que dormiu com Antônio prefere envenenar o sangue. Os dois tipos são rápidos e mortais, porque atacam o corpo em seus pontos mais fracos – as frágeis reações químicas que são fundamentais para a dinâmica da respiração, dos batimentos cardíacos e da coagulação do sangue.

As contrações musculares fazem com que o coração pulse e os pulmões respirem. Músculos são máquinas poderosas, que podem suportar muitos danos e continuar funcionando. Mas, como muitas outras máquinas, ficarão congelados se desligadas. Eles dependem de um suprimento constante de eletricidade, que lhes chega através da rede disseminada de nervos. Há pequenos espaços entre cada célula nervosa e entre a célula nervosa e o músculo. Quando a corrente chega ao final de uma célula nervosa, encontra um vazio que precisa superar, caso queira continuar seguindo em frente. A terminação nervosa libera uma substância química chamada neurotransmissor, que flutua sobre aquele vazio e acende a célula nervosa seguinte. A última célula nervosa antes do músculo termina em um grupo de cachos, como se fosse um soquete com um enorme número de pinos, que se alinham, mas não se ligam exatamente ao seu correspondente no músculo. Outro neurotransmissor precisa flutuar sobre esse vazio e estabelecer a conexão entre os dois. É exatamente a concretização dessa última e delicada etapa que a peçonha da cobra coral impede. A peçonha imita o neurotransmissor e preenche o vazio, mas não conduz o sinal. A transmissão de impulsos elétricos é interrompida; os músculos funcionam irregularmente, então enfraquecem e, finalmente, ficam paralisados. A vítima tem convulsões, entra em colapso e perde a capacidade de falar. Em poucas horas, a paralisia atinge os músculos pulmonares e cardíacos. Os pulmões param de funcionar e o coração pára de bater.

SELVA – PÁGINAS 67-68

 

Assim, o corpo esfomeado mantém uma rígida hierarquia quando lança mão de suas próprias fontes de energia. Quando os carboidratos começam a acabar, ele busca os depósitos de gordura, depois as reservas nos músculos, até que sobrem apenas as proteínas em órgãos fundamentais e uma pequena quantidade de gordura fundamental, tanto como ingrediente-chave para a produção de hormônios quanto como isolamento elétrico para as transmissões de células nervosas e de cérebro. Nesse ponto, o peso do corpo foi reduzido á metade. O corpo está se comendo a si mesmo, vivo.

Após 36 dias no mar, os passageiros e a tripulação do Mary-Jeanne estavam vivendo em corpos em decomposição. Sua única fonte de nutrientes foram alguns pássaros e peixes-voadores, que eram rapidamente devorados assim que pousavam no convés. Eles chegaram a passar 18 dias sem qualquer alimento. No trigésimo sexto dia, avistaram terra firme, perto o bastante para que conseguissem identificar casas e árvores, antes que uma mudança de corrente os levasse de volta para um horizonte vazio. Os passageiros perderam a esperança e, com ela, o restante de sua força. Seus corpos já não eram capazes de “proteger” as gorduras e proteínas essenciais. E assim que estas são consumidas, os sistemas do corpo perdem o equilíbrio; seguem-se o caos e a morte.

Foi assim para aqueles a bordo do Mary-Jeanne. Os passageiros começaram a morrer. Os corpos foram jogados no mar e devorados por tubarões. Ainda assim, nunca ocorreu aos sobreviventes tentar voltar a pescar, mesmo que isso significasse usar partes de corpo humano como isca. Eles estavam morrendo de fome cercados de comida por todos os lados, porque eram mentalmente despreparados para aquela privação e incapazes de produzir qualquer desejo de sobrevivência. No septuagésimo quarto dia, o barco foi finalmente avistado por um petroleiro italiano e dois corpos com vida foram resgatados.

ALTO-MAR - PÁGINAS 152-153

 

Toda a água encontrada por Prosperi durante a sua provação foi reciclada ao beber a própria urina. Isso pode parecer o mesmo que beber veneno – e de certa forma é -, mas ajudou a prolongar a sua sobrevivência. Os sais na urina nunca estão concentrados quanto no sangue. Assim, devolver o líquido para o corpo significa acrescentar proporcionalmente mais água do que sal, um aumento no volume do fluido. Como a urina contém uma alta concentração de uréia – uma toxina que pode acabar prejudicando os rins -, ela só pode ser bebida aos poucos. Assim, embora pareça certo beber sua própria urina, isso pode se transformar rapidamente em um problema.

Essa precaução deve ser igualmente aplicada à comida. Como qualquer outro carnívoro, Prosperi tentou caçar, mas teve sorte de não ser bem-sucedido, pois embora talvez partilhasse com os animais ao seu redor a mesma fome, não partilhava o mesmo metabolismo. Animais predadores têm enzimas resistentes ao calor que digerem outros animais com maior eficiência e eliminam os subprodutos com menor perda de água que os humanos. Os animais caçados têm um grande volume de gordura e proteína; comê-los demanda mais energia e desprende mais calor do que comer plantas, que são fundamentalmente carboidratos de fácil digestão. É por isso que visitantes humanos em climas quentes comem menos e freqüentemente sentem uma aversão instintiva a carne e gorduras.

DESERTO – PÁGINA 193



Escrito por goethe às 14h45
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meu corpo é minha fortaleza (parte II)

Os pulmões serão os primeiros a sentir o aperto. A uma profundidade de trinta centímetros, haverá aproximadamente noventa quilos de pressão sobre a caixa torácica. Trinta centímetros mais abaixo e chega-se ao limite para inalar ar atmosférico; abaixo desse nível, os músculos do pulmão não têm força suficiente para se expandir, enfrentando a pressão da água. Um prisioneiro em fuga que tente se esconder sob a água respirando através de um caniço oco preso pela boca deve escolher água lamacenta, pois só poderá mergulhar 60 centímetros caso pretenda continuar respirando.

As paredes complacentes do trato digestivo – esôfago, estômago e intestinos – também não são páreos para a pressão da água, e entram em colapso rapidamente. O colapso, em si, não é um problema, pois não produz dor e, diferentemente da respiração, ingerir e defecar não são coisas que um mergulhador faça normalmente sob a água.

FUNDO DO MAR – PÁGINA 216

 

Sem nenhuma fonte de calor para se contrapor ao ambiente, as partes sacrificadas – braços, pernas e rosto – rapidamente esfriaram até a temperatura externa, bem abaixo do ponto de congelamento. A água no interior dos tecidos formou cristais, que cresceram extraindo água de células isoladas. Em outras palavras, as mãos, os pés e o nariz de Makalu tinham sido ressecados pelo congelamento. Até esse ponto, a gangrena é reversível. A adição de calor derrete a água e, como no caso de comida congelada, os tecidos podem ser reconstituídos. Porém, com a exposição prolongada, as células começam a sucumbir. O gelo se forma no interior das células murchas e, quando ele se expande, a célula se rompe. As células endoteliais que formam o revestimento macio dos vasos sangüíneos são particularmente suscetíveis a danos. Quando sua superfície se rompe, o resultado lembra o que acontece quando um vaso é cortado pelo lado de fora. O dano é interpretado de forma equivocada pelas proteínas do sangue em circulação, chamadas fibrinas, que passam a atuar como se estivessem reagindo a um vaso cortado. A fibrina forma coágulos para fechar buracos, que na verdade não estão ali. À medida que o dano endotelial se espalha, os coágulos são depositados em toda parte, obstruindo o fluxo em todos os vasos. Mesmo que aquela parte do corpo seja aquecida, os coágulos são permanentes e o fluxo continua bloqueado.

GRANDES ALTITUDES - PÁGINAS 302-303

 

Quando você gira em torno da terra, seu corpo, que estava pesando 270 quilos, descobre que não pesa absolutamente mais nada. Você solta seu boldrié e flutua para cima, experimentando a sensação deliciosa de ser tão leve quanto o ar. Mas dentro do seu corpo, as coisas também estão flutuando. Seus órgãos internos estão boiando. Você inconscientemente fica apertando seu abdômen para empurrá-lo de volta para baixo. Por ter sido sacudido para frente e para trás pelo excesso de gravidade, o pobre sistema vestibulococlear dos ouvidos deixa de receber qualquer informação. Os receptores de pressão dos pés também não estão informando nada. O resultado de tudo isso é a sensação de estar de cabeça para baixo. Para que você se oriente, precisa de referências visuais, mas elas freqüentemente não existem ou são enganadoras. Nada na cápsula o ajuda a diferenciar alto de baixo – para cima é onde quer que sua cabaça esteja. Girar um botão dá a sensação de o botão permanece parado e que o painel de controle e toda a espaçonave estão girando ao redor dele em sentido contrário. A náusea começa a crescer dentro de você.

ESPAÇO SIDERAL – PÁGINA 330


Kenneth Klamler é médico e se especializou em atender a pacientes que se aventuram em ambientes extremos. Já participou de expedições à Amazônia e integrou a equipe da National Geographic Society que fez a medição mais precisa do pico Everest. No livro O Corpo No Limite, ele utiliza 420 páginas para contar um pouco de sua experiência pessoal e para misturar informações científicas e relatos de pessoas que sobreviveram ao inferno - seja ele na terra, na água ou no espaço sideral. É altamente recomendado para se levar a uma ilha deserta. Ou dentro de um barco à deriva, no deserto, ou numa espaçonave...



Escrito por goethe às 14h40
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um oscar escrachado

Num ano em que a safra de filmes era excepcionalmente boa, a Academia resolve mostrar porque reflete tão bem a sociedade norte-americana. Numa cerimônia tão chata quanto um jogo de beisebol, a cerimônia de entrega dos Oscars na madrugada de hoje foi um convite para desligar a televisão. Preferi terminar de ler um livro do que ficar vendo a procissão de atores e produtores agradecendo à família pela estatueta que vai ser leiloada na fase das vacas magras. Não foi nenhum esforço saber que Munique, o filme mais adulto de Spielberg, não seria contemplado. Será que os caubóis da montanha tirariam o chapéu para Crash, considerado pelos seis mil votantes o melhor filme da temporada? Valei-me, Rubens Ewald Filho!



Escrito por goethe às 14h30
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um garotinho fazendo uma bolinha de sabão

Ainda aproveitando o rescaldo do carnaval, separe os caraminguás restantes para investir em Orlandivo. Sambaflex é o disco mais recente deste músico que é mais reverenciado fora do Brasil do que por estas plagas. Toda compilação estrangeira de música suingueira tupiniquim das décadas de 60 e 70 deve trazer pelo menos a faixa Onde Anda O Meu Amor. Não conhece? Talvez então traga armazenadas na memória as melodias de outras duas da lavra do Orlandivo: Bolinha de Sabão ("sentado na calçada/de canudo e canequinha/tuplec, tuplin/eu vi o garotinho/tuplec, tuplin/fazendo uma bolinha/tuplec, tuplin/bolinha de sabão) e Vô Batê Pa Tu, gravada por Baiano & Os Novos Caetanos, nome de fantasia usado por Chico Anysio e Arnaud Rodrigues (Vô batê pa tu batê patu/Pa tu batê/Pra amanhã rapá não me dizer/que eu não bati pa tu/pa tu poder bater).

Orlandivo é descendente direto do samba-rock e até a voz meio anasalada revela logo que ele bebeu na mesma fonte de Jorge Ben e Bebeto. Foi crooner da banda da orquestra de Ed Lincoln e lançou poucos discos solo, o último em 1976. Depois disso, ficou por aí, fazendo shows esporádicos e vendo seus vinis sendo disputados a tapa pelos gringos. Produzido por Henrique Cazes, Sambaflex traz Orlandivo interpretando suas obras mais conhecidas, bota balanço em duas músicas de Caimmy, Doralice e Rosa Morena, e ainda ganha o reforço modernoso de Marcelinho da Lua. É o humor dos bons a serviço da música.

Em tempo: a capa do disco entrega uma mania de Orlandivo. Ele costuma acompanhar-se sacudindo um molho de chaves.



Escrito por goethe às 11h35
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babilônia em chamas

Passamos por seu monumento, A União, que se erguia numa ilha de tráfego na borda ocidental da cidade, num tipo de portão de acesso a Bagdá para os viajantes que chegavam pela estrada da Jordânia. A própria embaixada jordaniana ficava apenas uns 200 metros mais adiante. Reparei que o monumento chamava a atenção com tantas perfurações de bala, e alguém acrescentara umas pichações em árabe em volta da base. Ele não comentou a desfiguração de sua obra; parecia totalmente impassível. Perguntei-lhe o que diziam as pichações. Eram slogans políticos, disse-me, traduzindo: “Viva Talabani” (um dos principais líderes políticos curdos) e outra “Viva Sistani” (o grande aiatolá dos xiitas). Observou:

- Sabe, Jon, os verdadeiros problemas estão apenas começando no Iraque. Os americanos podem ter conquistado ou libertado o país, ou seja lá o que for, mas agora têm um trabalho realmente árduo pela frente. Acho que vai ser muito, muito difícil os americanos lidarem com todos os partidos e grupos étnicos. Precisam agir depressa para as coisas voltarem a funcionar e impedir que esses diferentes grupos entrem no vácuo.

Vimos algumas pessoas andando pelo acostamento da estrada, carregando bandeiras verdes e pretas. Eram peregrinos xiitas, indo de Bagdá a Karbala, 80 quilômetros ao sul, como parte da festa religiosa anual de Arbayeen, para comemorar o fim dos quarenta dias de luto pela morte de seu venerado mártir, o imã Hussein. A visão dos peregrinos transtornou Ala Bashir.

- O maior problema que eles precisam resolver o mais rápido possível são essas pessoas religiosas. Os americanos devem pô-las logo em seu lugar ou elas vão causar inúmeros problemas. – Embora por nascimento fosse xiita, Bashir era um virulento anticlerical. Nos últimos dias, dissera-me repetidas vezes que considerava muito importante que o Iraque pós-Saddam permanecesse um Estado oficialmente secular, e se afligia com o ressurgimento xiita, com a ocupação por Moqtada al-Sadr da Cidade de Saddam, que começara a se manifestar desde a derrocada de Saddam. Acreditava tratar-se de um jogo de poder dos clérigos linha-dura do Irã para expandir sua influência no Iraque, e disse que não seria contra os Estados Unidos decidissem lançar logo em seguida uma invasão do Irã. – E não apenas eu – continuou. –Acho que muitas, muitas pessoas no Iraque apoiariam isso, porque todo mundo sabe que o Irã é o maior desordeiro da região inteira. Isso é um fato.

PÁGINAS 285-287


Foi uma guerra particular terminar este livro, não pela sua qualidade em si, mas pelas outras obrigações que surgiram ao longo dos últimos dois meses. As 373 páginas da narrativa de Jon Lee Anderson ajudam a mostrar o Iraque nos últimos dias da ditadura de Saddam e explicam o motivo do fracasso da intervenção militar liderada por Estados Unidos e Grã-Bretanha. Jornalista conceituado que escreve para a revista The New Yorker, Anderson permaneceu em Bagdá quando começou a invasão e testemunhou os estragos de uma guerra para uma população civil indefesa. Em 21 meses de permanência no Iraque, conviveu com gente próxima a Saddam, como Alan Bashir, médico particular e artista plástico oficial, cuja preocupação sobre o futuro do seu país parece mais atual do que nunca. Autor de uma elogiada biografia de Che Guevara, Anderson inaugura com A Queda de Bagdá uma série sobre Jornalismo de Guerra lançada pela editora Objetiva. História escrita com tinta, sangue e lágrimas.



Escrito por goethe às 14h05
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el nombre del hombre es pueblo?

 

La escuela de samba Vila Isabel, que recibió un financiamiento de Petróleos de Venezuela, se alzó el miércoles como campeona del carnaval de Río de Janeiro.

La escuela Vila Isabel, cuyo único título de campeona era el ganado en 1988, presentó el domingo un desfile que llevó a la audiencia en un viaje por América Latina, desde México hasta la Patagonia, reseñó AP.

Las carrozas y bailarines de Vila Isabel avanzaron en medio de la samba ''Soy loco por ti, América'', cantada en portugués y español, en un acto sin precedentes en el Sambódromo, templo del carnaval brasileño.

Al escuchar al jurado proclamarla por ganadora, los integrantes de la escuela y sus simpatizantes estallaron en aplausos y algunos agitando banderas amarillo, azul y rojo, los colores de la bandera de Venezuela.

Caracas, miércoles 01 de marzo, 2006  - El Universal (www.eluniversal.com)


Num universo dominado por bicheiros, a Vila Isabel venceu o carnaval do Rio com a ajuda de um caudilho. Hugo Chávez, presidente da Venezuela, liberou US$ 1 milhão (cerca de R$ 2,11 milhões) para garantir o desfile de carros alegóricos com representações dos povos que formam a América Latina. Se na vida real é difícil a integração, na avenida da fantasia tudo é realizável, principalmente com a ajuda de algumas verdinhas. A latinidade levada ao Sambódromo resumiu-se numa procissão de lugares-comuns sobre como os estrangeiros vêem os falantes de espanhol e português neste continente. Uma banana para quem compactua com essa idéia.



Escrito por goethe às 21h01
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carnavalizar a mente e o coração

Foto: Carlos Oliveira/PCR

Depois de tantos carnavais (título de um dos seus discos inspirados), Caetano Veloso desembarcou em Pernambuco em pleno reinado da folia. Declarou ter realizado um sonho antigo. Foi, nas entrelinhas, um reconhecimento tardio. A Bahia deve muito a Pernambuco em se tratando de festa de rua. O frevo eletrificado por Dodô e Osmar em cima de uma fubica com megafones acabou gerando filhos bastardos, como a axé music. Caetano gostou do contato com a multidão, apesar de devidamente cercado por seguranças. Emocionou-se com os blocos tradicionais e até segurou uma calunga de maracatu. Sem querer querendo, Caetano tornou-se um dos símbolos do carnaval deste ano na terra dos altos coqueiros. Atrás de uma orquestra de frevo só não vai quem já morreu...



Escrito por goethe às 20h51
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