hai-kai sisifiano

dá muito trabalho
arrumar o que fazer
com tanto feriado
Escrito por goethe às 11h12
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este é o som do candomblé
Formado inicialmente por Erivaldo, Heraldo e Dadinho, todos de Cachoeira, os Tincoãs - cujo nome é originário de uma ave que habita o cerrado brasileiro - iniciou sua carreira em 1960 no programa da TV Itapoã, Escada para o Sucesso, interpretando canções, em sua maioria boleros, inspirados no sucesso do Trio Irakitan. Chegaram inclusive a gravar um disco intitulado Meu Último Bolero, sem alcançar o êxito esperado. Em 1963 Erivaldo desligou-se do grupo e a este foi incorporado outro componente, Mateus, que com os demais formaria a base principal do conjunto. Renovaram o repertório e partiram para adaptar os cantos de candomblé, sambas de roda e cantos sacros católicos. Mas foram os terreiros de Candomblé que deram a base principal da musicalidade dos Tincoãs. Em 1973 gravam o segundo disco produzido por Adelzon Alves, e o primeiro como representantes legítimos da música afrobaiana. Este LP é um marco importante da música brasileira, não apenas pela qualidade das músicas, como também pelo arranjo com características de coral feitos a partir de canções oriundas dos terreiros de candomblé, tendo como base apenas quatro instrumentos: violão, atabaque, agogô e cabaça. Este disco também revela o talento dos componentes como compositores, principalmente Mateus e Dadinho, que assinam a maioria das músicas.
O texto acima foi capturado lá no Wikipedia. É uma excelente apresentação para os Tincoãs, trio que vem sendo redescoberto nos últimos anos. Como de regra, primeiro no exterior e depois no Brasil. Carlinhos Brown, através de sua gravadora, batalhou para relançar um disco gravado em 1982 que até então era inédito no mercado nacional. O álbum de 1973, onde os três aparecem na beira do mar, chegou a ganhar uma edição em CD pela EMI, dentro da sua série comemorativa de cem anos de fundação, mas é difícil conseguir uma cópia. A solução pode ser o link http://rapidshare.de/files/16570657/Os_Tinco_s.rar.html, disponibilizado pelo site Acesso Raro, que merece depois uma visita mais detalhada. É um exemplo raro de grande sincretismo musical que só poderia ser cozinhado por estas terras. Saravá.
Escrito por goethe às 13h45
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nostalgia e modernidade

São mais de 30 músicas, entre o show realizado em 2004, para celebrar os 30 anos do grupo, e muitas imagens de arquivo. O Fernando Meirelles, que ganhou fama com Cidade de Deus e O Jardineiro Fiel, participa como diretor estreante de clipe que passou até no Fantástico. Mas sucesso de massa nunca foi a do pessoal do Rumo. Essa coisa do cantofalado não é de fácil digestão para os ouvidos acostumados com a baba pegajosa das paradas. Por aproximadamente R$ 30,00 - preço oferecido pelas lojas on-line - pode-se ter acesso a um DVD que resume bem toda uma história musical. Ná Ozzetti e Luiz Tatit à frente, nunca a vanguarda paulistana dos anos 80 esteve tão dentro de casa.
Escrito por goethe às 21h38
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o homem é o lobo do homem

Ninguém era bondosamente traficante de escravos. A profissão era cruel e exigia dureza e frio na alma. Quem a exercia estava sempre de chicote na mão. Compravam-se, porém, e se vendiam escravos com a mesma indiferença, ou falta de remorso, aflição ou angústia, com que um empresário contemporâneo despede empregados e despenca famílias na indigência. Algum desassossego, ou, mais que isso, um sentimento de pecado, devia, contudo, freqüentar o espírito de alguns dos que comerciavam com seres humanos. De Domingos José Martins escreveu o cônsul inglês Louis Frazer, que tinha “uma aparência melancólica”. Era um triste, e, “se um sorriso jovial” clareava “a sua expressão por um momento”, desaparecia “tão rapidamente” quanto tinha vindo. Procurava talvez acalmar a consciência, ao dar apoio ao padre Borghero e seus companheiros da Societé dês Missions Africaines de Lyon, quando estes iniciaram, em 1861, o apostolado em Ajudá. Foi Domingos José Martins quem praticamente financiou a reconstrução da capela do forte de São João Batista e a instalação dos sacerdotes. E poderiam ser oferendas expiatórias as obras pias a que se dedicou no fim da vida Joaquim Pereira Marinho. Provedor e benemérito da Santa Casa de Misericórdia de Salvador, deixou grande parte de seus bens para a caridade, como a pagar uma grande dívida. Mas é possível também que tivesse inquietações de consciência por ter comerciado com negros, nem que se mostrasse hipócrita ao declarar em seu testamento que jamais fizera mal ao próximo. Como tantos de seu tempo, na Europa e nas Américas, provavelmente não considerava os africanos como seus semelhantes, mas, sim, uma humanidade à parte ou uma subumanidade, de cuja barbárie a escravização resgatava.
Não se podia servir desta triste desculpa Francisco Félix de Souza. Casado com africanas, tinha filhos mulatos e netos que não se distinguiam dos meninos com quem brincavam. Dele nos ficou a memória familiar de um patriarca afetuoso. Como também restou a lembrança de ser invariavelmente solícito com os ex-escravos retornados do Brasil.
Estes tinham-se transformado em estrangeiros, eram realmente estrangeiros ou considerados como tais. E dos estrangeiros se julgava o Chachá no dever de cuidar. Era a ele, afirmou John Duncan, que os brancos deviam a segurança de que gozavam em Ajudá. Se punha empenho e até zelo em proteger os estrangeiros, é porque talvez – vá como hipótese, quisesse pagar a outros o que ficara a dever àqueles que o receberam na Costa, quando ali chegou desvalido e paupérrimo.
PÁGINAS 145 E 146
Francisco Félix da Costa nasceu em Salvador, em 1754 ou 1768. Morreu no dia 8 de maio de 1849, em Ajudá, no Daomé, atual República do Benim. Deixou dezenas de filhos e uma história de um self-made man, que saiu da pobreza para se tornar um dos mais importantes empresários do seu ramo: o tráfico de escravos. Chegou a possuir uma fortuna estimada em US$ 120 milhões, mas nos seus últimos dias já mostrava sinais de bancarrota. Da sua vida, pouco se sabe, e é deste mínimo que o embaixador Alberto da Costa e Silva, considerado o maior "africanólogo em língua portuguesa", se aproveita para tecer o perfil deste personagem, em 207 páginas recheadas de referências bibliográficas. Se a leitura no início é lenta, por conta da referência de nomes e lugares, depois encontra porto seguro no estilo clássico do historiador. Um homem vale o quanto pesa?
Escrito por goethe às 07h49
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na grama do aterro, sob o sol

E digo à humanidade, Não fique especulando sobre Deus,
Pois eu que especulo sobre tudo não fico especulando sobre Deus,
Não há seqüência de palavras pra dizer como estou em paz em relação a Deus e à morte.
Escuto e contemplo Deus em cada objeto, e assim mesmo não entendo quase nada,
Nem entendo como pode haver alguém mais maravilhoso do que eu mesmo.
Por que querer ver Deus melhor do que este dia?
Vejo Deus em cada uma das vinte e quatro horas, em cada momento,
Nos rostos dos homens e mulheres vejo Deus, e no meu próprio rosto no espelho;
Encontro cartas de Deus espalhadas pela rua, todas assinadas com Seu nome,
E as deixo onde estão, pois sei que onde quer que eu vá outras vão chegar
pontualmente e para sempre.
PÁGINA 127
Pela primeira vez no Brasil, o livro Folhas da Relva, de Walt Whitman, ganhou uma versão nacional na íntegra. Foram necessários apenas 150 anos para que isto acontecesse. O que tínhamos antes eram apenas trechos selecionados em livretos como o lançado pela editora Brasiliense, no final dos anos 80. Para reparar este lapso de tempo, a editora Iluminuras fez, em 2005, uma edição caprichada, bilíngüe, com direito a um esclarecedor posfácio (na verdade, quase um outro livro) escrito pelo tradutor Rodrigo Garcia Lopes. Este Folhas da Relva, na verdade, é a reprodução da primeira edição norte-americana, já que Whitman, ao longo dos anos, só fez aumentá-lo com a adição de novos poemas. É um marco da literatura mundial e uma personalidade fascinante, como às vezes os norte-americanos podem ser. Melhor uma relva na mão do que um Bush no poder.
Escrito por goethe às 10h21
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flores de plástico não morrem

Aperte o cinto. Ligue o CD player. Ou melhor, antes veja o filme no DVD, se não teve a sorte de assisti-lo na telona. Flores Partidas, dirigido por Jim Jarmusch, é mais uma oportunidade de se conferir o talento dramático de Bill Murray. Na história, é um solteirão metido a conquistador que recebe a notícia de que uma das ex-namoradas de duas décadas atrás teve um filho dele. Para auxiliá-lo na viagem ao passado, seu vizinho se dispõe a fazer um levantamento de como estão e onde moram as mulheres. De quebra, ainda anexa um CD com músicas de Mulatu Astatke, compositor etíope. É o grande destaque de Flores Partidas. Na verdade, a trilha sonora é o ponto alto do filme, que nos deixa meio assim, largados na rua.
Escrito por goethe às 11h03
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a ponte é para ir e para voltar

Na travessia imediatamente anterior, minhas lentes não eram tão grossas e nem meu cabelo tão assim, grisalho. Minhas lembranças eram mais leves e minha memória, mais pesada.
Na travessia imediatamente anterior, eu era um menino. Desta vez, sou pai. Pai de um menino com a mesma idade que eu tinha quando passei por aqui pela última vez!
Na travessia anterior, eu passei por aqui deixando meu país para estudar na distante universidade. Agora, deixo meu filho na mesma universidade e também para estudar.
Na travessia anterior, ninguém discutia comigo meus direitos sobre Ramallah. Agora, eu pensava no que se pode fazer para preservar a meu filho o direito de vê-la. Devo retirá-lo dos arquivos dos expatriados e dos refugiados, ele que nem deixou sua pátria nem procurou refugiar-se? Tudo o que fez foi ser um menino no exílio.
Agora passo do meu exílio para... o país deles? Meu país? Cisjordânia e Gaza? Os territórios ocupados? As Zonas? Judéia e Samarra? O Governo Autônomo? Israel? Palestina?
Será que existe neste mundo algum outro país em que as pessoas se confundam tanto ao se referirem a ele?
Na travessia anterior, eu era óbvio e as questões também eram. Agora, sou ambíguo e vago; tudo é ambíguo e vago.
No entanto, aquele soldado, de solidéu, não era nem um pouco vago. Pelo menos, seu fuzil brilhava muito. Seu fuzil era minha história pessoal, história de meu estranhamento. Seu fuzil retirou de nós a terra da poesia e nos deixou a poesia da terra. Em sua mão, terra; na nossa, ilusão.
PÁGINAS 29 E 30
Depois de 30 anos, o poeta Mourid Barghouti consegue autorização para retornar ao local onde nasceu. Isto foi em 1996, mas uma década depois, a situação para quem é palestino não mudou muito. O livro de memórias de Barghouti continua atual. E admiravelmente bem escrito. No lugar do lamento, perplexidade. A grande figueira que foi cortada e que o filho não vai poder nunca provar o fruto. Para esta edição brasileira lançada no início do ano, o próprio Barghouti escreveu uma pequena apresentação. "Quantas vezes encontramos a nós mesmos e a nossos problemas em livros cujos autores são separados de nós por oceanos e continentes". Em 207 páginas, podemos espiar do outro lado do muro.
Escrito por goethe às 08h55
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aventura através do espelho

Uma adolescente, com complexo de culpa, parte numa jornada extraordinária em um mundo de fantasia. Só ela pode encontrar a solução para o problema que ameaça todas as criaturas. A história já foi contada em filmes como Labirinto e História Sem Fim (neste caso, o protagonista era um menino). O que diferencia Mirrormask (Máscara da Ilusão, no Brasil), é o talento de quem está por trás do projeto. O diretor Dave McKean e o roteirista Neil Gaiman fizeram a fama no universo dos quadrinhos, numa parceria que, entre outros frutos, rendeu Sandman. Foi para aproveitar este talento visual que a Jim Henson Company, fundada pelo falecido criador dos Muppets, propôs um filme. Lançado no ano passado, saiu diretamente em DVD por estas plagas. Mirrormask tem roteiro parecido com outras duas produções da Jim Henson, o já citado Labirinto e O Cristal Encantado. Vale muito o preço da locação pelo visual e pelos extras. E além do mais, um pouco de fantasia não faz mal a ninguém.

Escrito por goethe às 10h25
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