Agora Rabin estava junto ao carro, prestes a embarcar. Amir partiu para suas costas desprotegidas, tirando uma pistola de dentro da calça, e disparou uma, duas, três vezes, literalmente à queima-roupa. De acordo com Damti e alguns dos policiais próximos, Amir gritou ao mesmo tempo: "Não é nada. Não são balas de verdade. São de pólvora seca. Não é de verdade". O próprio assassino negou isso, dizendo mais tarde que esses gritos partiram de outra pessoa. Rabin voltou-se, a meio, para o agressor e então caiu para a frente, sobre seu lado esquerdo. O guarda-costas Rubin, também sangrando, empurrou o primeiro-ministro para dentro do Cadillac e pulou atrás dele. Damti colou-se ao volante e partiu acelerado, deixando um cheiro de borracha queimada no ar. Atrás dele, Amir foi empurrado para o chão e depois encostado contra a parede por um grupo de oficiais da polícia. Um deles segurou firmemente a garganta de Amir com o braço esquerdo. Nos jornais do dia seguinte, em meio aos olhares de espanto, de pânico, captados pelos fotógrafos, apenas um homem parecia impertubável. Yigal Amir.
Judeu não mata judeu. No dia 4 de novembro de 1995, o primeiro-ministro de Israel foi assassinado em Tel Aviv, quando saía de um discurso em defesa da paz. Yitzhak Rabin estava recebendo um bombardeio de críticas dos ultra-ortodoxos depois de ter, meses antes, ainda que relutantemente, apertado a mão de Arafat em Washington, selando um acordo para a saída de assentamentos judaicos na Cisjordânia. Rabin foi protagonista da maioria das guerras vividas por Israel desde que a ONU decidiu, em 1947, resolver um problema criando outro: os judeus ganharam uma pátria e os palestinos viram-se sem território. Estrategista militar dos mais respeitados, estava disposto a conviver com os vizinhos em fronteiras demarcadas. Publicado originalmente em 1996 com o título Unfinished Mission: The Life and Legacy of Yitzhak Rabin, este livro é uma excelente biografia de Rabin, resultado do trabalho de uma equipe de repórteres do jornal The Jerusalem Report. No Brasil, o título foi alterado para O Soldado da Paz, que pode induzir a idéia de que, depois de morto, Rabin foi santificado. De forma alguma. As mãos dele também foram manchadas pelo sangue árabe. As 338 páginas são, na verdade, um excelente painel para perceber como Israel não tem outra alternativa senão a percebida por Rabin e, mais recentemente, por Ariel Sharon. Mais de uma década depois, o discurso do primeiro-ministro no palanque armado em frente à Prefeitura de Tel Aviv continua válido.
"Eu fui soldado durante 27 anos.
Lutei enquanto não havia esperança de paz, a grande chance, que deve ser agarrada...
Sempre acreditei que a maioria da nação deseja a paz e está preparada para aceitar os riscos da paz. E vocês, aqui, que vieram tomar posição a favor da paz, assim como outros que não se encontram aqui, são a prova que a nação quer paz e rejeita a violência. A violência está solapando os fundamentos da democracia israelense. Ela deve ser rejeitada e condenada e deve ser contida. Não é o caminho do Estado de Israel. Democracia é nosso caminho...
A paz não é somente uma oração. É primeiro uma oração, mas é também a aspiração realista do povo judeu. Mas a paz tem seus inimigos que estão tentando prejudicar-nos, torpedeando a paz... Não há caminho indolor em frente para Isrel. Mas o caminho da paz é preferível ao da guerra.
Este comício deve mandar uma mensagem ao público israelense, aos judeus do mundo, às multidões, no países árabes e em todo o mundo, que a nação de Israel quer a paz e por isso eu lhes agradeço".