tudo que sai impresso é epitáfio

Era um livro de capa alaranjada. Foi o primeiro que me lembro de ter levado para casa, depois de ter folheado no lugar onde minha irmã mais velha trabalhava. Na segunda metade da década de 1970, ela era do Mobral, e lá onde os coordenadores se reuniam existiam livros para distribuição. Orgulho-me em afirmar que fui alfabetizado em matéria de poesia por Quintana. Os seus pequenos tesouros, principalmente os aforismos, suficientes para serem entendidos por uma criança, foram o meu primeiro alumbramento. Sorry, Manuel Bandeira, mas entre seu porquinho-da-índia e o urubu pintado de verde, preferi o gaúcho. Rejeitado três vezes pela Academia Brasileira de Letras, tornou-se imortal. Nestes cem anos de Quintana, um pouco de Caderno H.
O Trágico Dilema Quando alguém pergunta a um autor o que este quis dizer, é porque um dos dois é burro.
Palavra Escrita Por vezes, quando estou escrevendo estes cadernos, tenho um medo idiota de que saiam póstumos. Mas haverá coisa escrita que não seja póstuma? Tudo que sai impresso é epitáfio.
Vida Só a poesia possui as coisas vivas. O resto é necropsia.
Sinônimos Esses que pensam que existem sinônimos, desconfio que não sabem distinguir as diferentes nuanças de uma cor.
As Indagações A resposta certa, não importa nada: o essencial é que as perguntas estejam certas.
Cartaz para uma feira do livro Os verdadeiros analfabetos são os que aprenderam a ler e não lêem.
Biografia Era um grande nome — ora que dúvida! Uma verdadeira glória. Um dia adoeceu, morreu, virou rua... E continuaram a pisar em cima dele.
Escrito por goethe às 02h13
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um passeio por garanhuns (parte II)

De volta a Garanhuns para o último final de semana do festival de inverno deste ano. Uma expedição mais turística. A Casa do Artesão foi a primeira parada, para apreciar os bonecos e as demais criações de quem põe a mão na massa. Um roteiro bem família...





... em se tratando dos bonecos que fazem a recepção.

Em frente à Casa do Artesão sobrevive hoje, como centro cultural, a antiga estação de trem. No lugar de trilhos, asfalto.

Para bom entendedor, uma boa placa basta. Pelo capricho, vê-se que não foi barata.


Todo festival que se preze deve ter um desfile de encerramento, com direito a banda e carro-de-som...

...e pernas-de-pau...

... e maracatu com baixo teor de melanina...


... e carro alegórico, mesmo que seja de cachaça. Exemplo claro de que bebida não combina com direção. Dizer também que engarrafou o trânsito seria um trocadilho infame.

A Justiça é cega. Ainda bem que não pode ver o que fizeram com ela.


And the seasons they go round and round And the painted ponies go up and down We're captive on the carousel of time We cant return we can only look behind From where we came And go round and round and round In the circle game
Joni Mitchell de cortesia.

O jogo circular continua. Ou, como aconteceu na Copa, colocaram o verde-amarelo na roda?

Desfocadamente, o cachorro dorme o sono dos justos.

O sagüi, atento, controla a dupla mirim na refeição da manhã. Muito cuidado, o homem vem aí...

Um país é feito de homens e livros. E de placas como essa.

Como uma grife, os santuários da mãe rainha três vezes admirável de Schoenstatt ganham filiais pelo mundo. Em Garanhuns, a réplica da igrejinha alemã foi inaugurada em 2004. No seu entorno, um convento e lojinhas de artigos religiosos e de chocolate, porque nem só de pão vive o turista.

Ok, faz frio e o morro permite uma visão geral da cidade. Mas até a megalomania tem limite.

O Alto do Magano está situado a 1.035 metros acima do nível do mar, de acordo com as informações do menino que se ofereceu, mediante uma módica remuneração, a recitar o que sabia sobre este ponto turístico. Recitar mesmo, porque se fosse perguntado sobre alguma coisa, ele se embananava todo. Magano seria o nome de um escravo que se escondia no monte, no século 19, e acabou sendo assassinado. Se for verdadeira a história, erraram de mártir na hora de erguer uma estátua.

Visão da cidade de Garanhuns a partir do Alto do Magano. A burrinha perto da mãe chama-se Nininha. A menina que cuida dos animais atende pelo nome de Pâmela. Para os conservadores, faria mais sentido se fosse o inverso.

Também no Alto do Magano encena-se a Paixão de Cristo. Contaram que, neste ano, Judas se atrasou para a cena do beijo na face de Jesus. Como os diálogos eram gravados, no momento em que os soldados romanos ordenaram-lhe que osculasse (tudo para não repetir o verbo) o Cristo, ele, longe do ator principal, improvisou: mandou beijinhos à distância, com o auxílio da mão. Acabou enforcado. E fim de história.
Escrito por goethe às 01h19
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ou ficar a pátria livre ou morrer pelo brasil

A cidade de Olinda era uma vizinha siamesa de Recife, mas parecia situada em outro continente e em outro século. As pontes, rios e pântanos que se estendem ao norte, onde se ergue Olinda, pareciam marcar uma mudança total, não só de geografia, mas de época, em relação aos edifícios modernos e as avenidas costeiras de Recife. A criatura que foi buscar Finkelstein e Carmelo num Volkswagen branco na rua Bernardo Vieira de Melo era mesmo quase um arcanjo: um padre baixinho e jovem que não conseguia disfarçar seu caráter sacerdotal nem com a roupa esporte que usava. Era limpa demais para ser de um laico. As meias cinza combinavam com a camisa, o vinco da calça azul parecia traçado com um tira-linhas (sentia-se o metal de um experiente ferro de passar e uma mão monástica sobre o ferro), e a cor preta dos sapatos terminava de configurar a delação. Falava espanhol bastante bem, embora com sotaque, e pediu que o chamassem de Juan.
...
Dom Helder, mais baixinho do que imaginara, adiantou-se para recebê-los com os braços abertos. Carmelo ficou impressionado com as olheiras do bispo. Eram umas olheiras tipicamente brasileiras, que não obedeciam à falta de sono, ao choro nem a nenhum sofrimento contumaz, mas que formavam parte da paisagem humana do país, de sua saborosa mistura racial, como as sardas e as bochechas vermelhas na Escócia ou as sobrancelhas obstinadamente juntas dos turcos. Algo parecido acontecia com certos olhos femininos brasileiros, cujas pálpebras pareciam viver no meio do caminho entre em cima e embaixo, sonolentos, lânguidos, preguiçosamente sensuais.
Dom Helder os fez sentar, ofereceu café e, quando chegaram a garrafa térmica e as xícaras, fez um sinal à freira de que saísse e fechasse a porta.
- Quem é o colombiano? - perguntou com amável curiosidade.
- Eu, dom Helder - informou Carmelo.
- País adorável - disse o bispo em espanhol. - Estive lá durante o Congresso Eucarístico... que ano foi?
- Sessenta e oito, dom Helder - informou Carmelo.
- Isso, sessenta e oito. Gostei das pessoas, da montanha verde, da comida: como se chama aquela sopa de batata? Não é ajiaco?
Carmelo agradeceu com uma inclinação de cabeça e confirmou o nome do prato, que de imediato lhe trouxe à memória os almoços dominicais na casa da avó.
- A Argentina é muito diferente - disse depois. - Vou lá de vez em quando, e também gosto muito. Mas é uma coisa bem diferente, claro.
PÁGINAS 174/175 E 177
Um grupo que viaja junto, seja por simples turismo ou obrigações familiares e profissionais, é formado sempre por pequenas solidões. O colombiano Daniel Samper Pizano utiliza o Brasil como tema do seu segundo livro, descrevendo com humor a jornada de dez dias de um grupo de jornalistas estrangeiros a convite do governo Médici, no ano de 1972, para testemunhar o suposto milagre nacional. Entre apocalípticos e integrados, norte-americanos, ingleses, japoneses e até um argentino convivem com o protagonista Carmelo nas andanças pelas capitais brasileiras. Daniel Samper Pizano fez uma boa pesquisa para descrever os cenários, só tropeçando ao dizer que Olinda e Recife tinham um único prefeito. Em Pernambuco, Carmelo e Finkelstein, o argentino, encontram-se secretamente com dom Helder Câmara, um reconhecimento de que o velhinho foi mesmo porta-voz internacional contra a ditadura. Entre espionagens, apostas e aventuras amorosas, Impávido Colosso justifica os elogios de Millôr Fernandes, que escreve nas orelhas deste livro de 237 páginas.
Escrito por goethe às 14h19
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um passeio por garanhuns (parte I)

Festival de Inverno de Garanhuns não se resume apenas aos shows noturnos e ao frio para nossos padrões nordestinos. A edição deste ano trouxe algumas novidades, como sessões de cinema gratuitas com filmes nacionais e latino-americanos, espetáculos de teatro e espaços para venda de artesanato. Passear pela cidade durante o dia pode proporcionar imagens interessantes, como o Lampião e o profeta lado a lado numa simpática lojinha de marionetes. Os bonecos encantam pelos detalhes, como a alpercatinha e o olho meio fechado do cangaceiro e a vasta barba branca do vizinho. Cada um deles custa R$ 40,00. Depois do festival, a dona fecha a loja e se muda para Maceió. A coisa não tá para brincadeira.

O circo passou, mas ficou o cartaz. Coitada da Catarina.



Só lembro o nome dela: Dani (ou seria Dany?). O do tecladista não consegui guardar. O palco estava montado em cima de uma banca de revistas. O público estava do outro lado da rua, bebendo cerveja e aplaudindo o repertório calcado na Jovem Guarda e algumas músicas de seresta. Mas Dani, em seu vestido de veludo, estava emocionada. Lembrou que já cantou em Raul Gil e que agradecia a oportunidade. Também existia uma bailarina, mas ela se escondeu atrás do lençol que servia de camarim. Não ficou para a posteridade, como seu parceiro.
A garoa espantou a platéia, até porque era a hora do almoço. Mas Mateus e Catirina chamavam as atrações regionais.

Depois de uma breve conversa, o vendedor de amendoim, o homem do algodão-doce e o velho engalanado se despedem. Talvez orgulhosos de uma cidade que tem um telefone público em formato de boneco de neve.



A última atração era um grupo de bacamarteiros de Caruaru. A principal atração do grupo era o menino louro, filho do organizador da apresentação. Todo mundo tirou foto. Ele só fez desfilar, disparar não, até porque sua arma era de brinquedo e não precisava mesmo.


Câmara de Vereadores de Garanhuns. O resultado da sessão está no meio da rua.

Mesmo desfocada, a foto de "Os 3 do fórro" serve como despedida.
Escrito por goethe às 15h21
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periodismo engajado em duas lições

"Me golperaron, Mono", le avisé al camarógrafo Gerardo Lozano, mientras tocaba a la puerta de la casa para tratar de recuperarne en el interior. Cuando entramos descubrí uma escena cuyo recuerdo me persigue desde entonces. Las piedras repiqueteaban sobre el techo de chapa agujereado, provocando un estruendo infernal. El la cama, varios chicos de corta edad lloraban y gritavan aterrorizados.
Era una escena surrealista, un televisor reproducía en directo el enfrentamiento que ocurría al otro lado de la ventana, contra la que las mujeres de la casa habían posto un colchón como protección elemental.
En ese instante me olvidé del piedrazo y del dolor, y conmovido por el miedo y la deseperación de esas mujeres y niños comencé a discribirlos poniendo palabras a las imágenes de Lozano.
"La pantalla devuelve imágines virtuales de una situación que ellos no necessitan ver por televisión porque la viven en la realidad", comenté descorriendo el colchón para que pudiera apreciarse por al ventana a los gendarmes que disparaban buscando protección detrás de los árboles.
No tuve idea de la repecusión provocada por la imagem hasta que, días después, de regreso a Buenos Aires, el periodista Luis Vázquez me comentó: "Julio, qué bárbaro lo de Jujuy. Parecia una escena de la guerra en Kosovo". Sin propornérmelo y por la culpa de una piedra indiscreta, había mostrado por primera vez una cara desconocida de la cruda realidad social argentina.
PÁGINAS 125 E 126

Si alguien quiere leer este libro como una simple novela policial, es cosa suya. Yo no creo que un episodio tan complejo como la masacre de Avellaneda ocurra por casualidad. Pudo no suceder? Pero al suceder actuaron todos o casi todos los factores que configuran al vandorismo: la organización gangsteril; el macartismo ("Son trotskistas"); el oportunismo literal que permite eliminar del proprio bando al caudillo en ascenso; la negociación de la impunidad en cada uno de los niveles del regimén; el silencio del grupo sólo quebrado por conflictos de intereses; el aprovechamiento del episodio para aplastar a la fracción sindical adversa; y sobre todo la identidad del grupo atacado, composto por auténticos militantes de base.
PÁGINA 9
Buenos Aires tem mais livrarias do que praticamente todas as existentes no Brasil. São mais de três mil, de simples vendinhas de bairro a grandes redes, como a El Ateneo, que possui uma loja instalada dentro de um antigo teatro, na avenida Santa Fé. É lugar obrigatório de visita, um templo para os amantes das letras. À atendente perguntei se havia algum setor com livros sobre jornalismo argentino. Ela disse que não. Estava em busca das obras de Rodolfo Walsh, um dos tantos desaparecidos na ditadura argentina na década de 1970. Quien Mató a Rosendo? reconstitui um tiroteio ocorrido na Confeitaria Real de Avellaneda, em maio de 1966, onde três pessoas morreram. Da investigação de Walsh foi revelada a verdade, mesmo com todo o silêncio da imprensa e da apuração policial e decisão judicial direcionadas. De um conflito entre grupos sindicais, ele consegue contar a história do desmantelamento da indústria argentina no século XX, cujos reflexos podem-se ver hoje nos tempos de Kirchner. Uma verdadeira aula em 172 páginas.
Já o livro de Julio Bazán estava colocado na prateleira de lançamentos de maio. Jornalista das antigas, ele narra suas histórias, traçando um painel da Argentina dos últimos 30 anos. À frente das câmeras, Bazán cobriu protestos de sindicalistas e das mães dos desaparecidos durante a ditadura militar e depois dos descamisados e aposentados no governo Menem, além de ser testemunha ocular dos grandes dramas recentes do país vizinho, como o incêndio numa discoteca em Buenos Aires, em dezembro de 2004, quando 193 jovens morreram porque a saída de emergência estava bloqueada. "Fué mi cobertura más dolorosa, y compreendí que, ante estas pruebas terribles, la indeferencia como ciudadano e como sociedad es imperdonable".
Escrito por goethe às 14h14
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it hurts to see you dance so well
O ano está ainda na metade, mas já existe um sério candidato ao título de melhor lançamento de 2006. Nesta terça-feira, o primeiro disco da banda The Pipettes chega ao mercado, depois de cinco singles com tiragem limitada de 500 cópias cada. Este grupo britânico rende homenagens, à sua maneira, ao som negro da Motown. Com seus figurinos de vestidos de bolinhas, Julia, Rose e Becki emulam as grandes vozes do soul, com direito a coreografias engraçadinhas. Uma fórmula que deve funcionar muito melhor ao vivo, mas que não perde a graciosidade no CD player. Essas meninas-mulheres da pele branca têm a sua malícia...

http://rapidshare.de/files/21742854/The_Pipettes_-_We_are_the_pipettes__2006_.rar.html
Escrito por goethe às 13h24
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uma aventura patagônica (parte II)

Hora de pegar a estrada, com o devido cuidado de apreciar a paisagem. A grande aposta turística para os próximos anos chama-se Villa La Angostura, pequena cidade de 12 mil habitantes situada a 82 quilômetros de Bariloche, quase na fonteira com o Chile. Quem puder, aproveite antes que o lugar fique desfigurado com grandes placas de neón. Para se chegar lá, as rodovias 237 e 231 margeiam o lago Nahuel Huapi. Dá para ver a cidade inteira de Bariloche ao longe. Hora de parar para algumas fotografias...




Villa La Angostura está situada a 780 metros acima do nível do mar. A apenas nove quilômetros da sede do município existe uma estação de esqui, a Cerro Bayo, mas o charme consiste em aproveitar as pousadas que se espalham pelos bosques, à beira dos lagos da reserva nacional Nahuel Huapi. É cenário de cinema com legendas em portunhol.

As construções de Villa La Angostura são feitas de madeira e pedra. Por se tratar de uma reserva nacional, a madeira, principalmente cipreste, é trazida do Chile. Na temporada de inverno, a neve cobre de branco o cenário. Sinal de dinheiro nos cofres. Até a próxima estação.

Boneco de neve (de cimento) esperando sua vez.

As pousadas de Villa La Angostura são de padrão elevado. A maioria não oferece mais de dez quartos para os hóspedes, que podem contar com o conforto de piscinas aquecidas, lareiras e uma paisagem na janela que parece uma pintura.

Fora do inverno, as pousadas recebem turistas que querem percorrer trilhas, passear de barco ou praticar a pesca esportiva. Particularmente, acho estas opções mais atrativas do que caminhar com quilos de roupa e raquetes nos pés.

Para quem gosta de truta e salmão, a Patagônia é o lugar certo. Geralmente o que é servido é criado em viveiros, mas o peixe acompanhado por um bom vinho nacional não deixa de figurar nos cardápios locais. Em Villa La Angostura, boa parte da comunicação com Bariloche e mesmo com o Chile é feita através de barcos. O cais é um dos lugares que não se pode deixar de conhecer, apesar do vento frio.

A menina que lê o livro vira personagem de blog.

Além dos cachorros, outra atração típica da Patagônia são os carros velhos. Perto do fim do mundo, ninguém se envergonha mais.

Pra encerrar, um cordeiro patagônico. Por isso que preciso voltar.
Escrito por goethe às 00h58
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uma aventura patagônica (parte I)

Quem puder, economize dinheiro ou arranje outras formas de comprar uma passagem para a Patagônia. Realmente vale a pena uma viagem até a cordilheira dos Andes, tendo como base de operações a cidade argentina de San Carlos de Bariloche. No meu caso, consegui a sorte de, em maio, entrar numa comitiva de jornalistas que passaria uma semana visitando lugares turísticos, comendo e bebendo bem, só precisando meter a mão no bolso se fosse para perder peso no cassino. Pretendo voltar, mas evitando a alta temporada, que dura de junho a setembro, onde a brancura da neve compete com os agasalhos de cores berrantes dos milhares de brasileiros que disputam entre si para ver quem chama mais a atenção. A região de Bariloche é linda em qualquer época do ano.

Situada a 770 metros acima do nível do mar, Bariloche é uma cidade com pouco mais de cem anos de história, localizada numa área disputada no início do século passado por argentinos e chilenos. Os índios nativos foram substituídos à força por gente de pele alva: italianos, ingleses, alemães. O clima e o cenário ajudaram a manter as tradições dos imigrantes europeus. A foto acima é a visão da janela do quarto do hotel. Cordilheira ao fundo, o lago Nahuel Huapi é a grande referência da cidade. Na linguagem indígena, é o "lago do tigre". Água gelada, com gosto de sangue no final.

A Mitre é a principal rua de Bariloche. Lojas e restaurantes. Chocolates, artesanatos, roupas, pratos típicos e vinhos. Melhor fazer uma lista antes de sair do hotel para não se perder.

Como lugar cercado de montanhas, Bariloche oferece várias opções de se apreciar a vista de um ponto superior. Um dos mais confortáveis e talvez o mais espetacular dentro da zona urbana é Cerro Otto. Um teleférico leva, em simpáticas cabines vermelhas, os visitantes para o restaurante giratório lá no alto de seus 1.405 metros de altitude. Da sua mesa e sem fazer esforço, a não ser levar o copo ou o garfo à boca, pode-se apreciar 360º de paisagem de cinema. Uma volta completa a cada vinte minutos. À noite, uma discoteca completa o serviço.

Em maio, a temperatura começa a cair até abaixo de zero, criando camadas de gelo nas zonas mais elevadas. Em Cerro Otto, a coisa não estava pra brincadeira.

A 17 quilômetros de Bariloche está Cerro Campanario. Sobe-se ao cume num teleférico de cadeiras. É preciso ter jogo de cintura para acertar o momento de acoplagem. Depois, é se preparar para o desembarque rápido. Uma casa de chá funciona para acalmar os estressados. A paisagem de lagos e montanhas é o remédio melhor, como mostram as fotos abaixo.



Por isso que em Cerro Campanario funciona uma casa de chá.

Oito quilômetros depois de Cerro Campanário está Puerto Pañuelo, o porto mais importante do lago Nahuel Huapi, de onde saem barcos para o Chile e para passeios para a Isla Victoria. Nesta ilha pode-se conhecer o Bosque de Arrayanes, considerado único no mundo pelas características de crescimento das árvores. Os guias afirmam que foi este cenário que inspirou Walt Disney a conceber Bambi. Cervo é uma criatura bastante apreciada na região.

Este cachorro curtia o solzinho fraco na manhã friorenta em Puerto Pañuelo. Não aparentava ser uma das dezenas de criaturas abandonadas que perambulam pelas ruas de Bariloche. Cachorros de raça transformados em vira-latas. Até nisso os argentinos tentam ser melhores.

Confesso que não vi muita neve. Esse boneco mesmo, em Cerro Catedral, famosa base de esqui, a 1.030 metros acima do nível do mar, era de cimento. Não subimos até o topo da montanha. Pelo menos também não descemos de forma vergonhosa, como fazem os esquiadores de primeira capotagem.

Bambi outra vez. Nome de uma pista de esqui em Cerro Catedral.

Os índios da região podiam não erguer seus totens, mas já aceitavam cartão de crédito.
Escrito por goethe às 23h39
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que bonito é...

Aos poucos e fiéis leitores (o contador de visitas não ficou parado neste longo período), o fiteiro retorna às suas atividades depois de quase um mês sem postagem nenhuma. Estava me curando de uma ressaca de uma viagem à Argentina, alguns plantões noturnos e a Copa do Mundo. Entrava na internet era apenas para descobrir sites que disponibilizam discos que dificilmente farão a transição do vinil para o CD, esta mídia que já está com os dias contados.
Pretendo repartir alguns desses achados. E nada melhor pra começar do que este LP distribuído em 1969 para os clientes estrangeiros da Varig. O lado A traz uma narração em inglês da origem do samba e dos instrumentos usados numa batucada. O lado B traz cinco faixas instrumentais, prova prática de toda a malemolência brasileira. Uma delas, "Na Cadência do Samba", quase um hino do futebol tupiniquim, pode representar bem o quanto o país perdeu nestas últimas décadas de criatividade e competitividade. Varig e seleção, duas instituições quase falidas, pedem passagem.

LADO A
http://rapidshare.de/files/23113132/varig.zip.html
LADO B
http://rapidshare.de/files/24134216/Varig2.zip.html
Escrito por goethe às 15h42
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