o que você tem nessa cabeça, irmão?

Autópsia, do grego autoptes, significa ver com os próprios olhos o que a história imprimiu no corpo, que marcas a vida deixou. Cada corte e calo, cicatriz e equimose inscreve sua própria história na casca que hospedou o vivo e suas paixões, seus sonhos e suas compulsões. Uma depressão escurecida no terceiro dedo de uma mão direita, marcado pelo apertar obsessivo de uma caneta. Braços ainda firmes após verões remando pequenos barcos e desenhando sonatas de Mozart nas cordas de um violino. Solas endurecidas por anos de liberdade descalça, mesmo na presença de uma rainha. Ela nos trai, também, a carne morta, um arquivo de fraquezas. Pulmões enegrecidos por um cachimbo que nunca conseguiu abandonar. Artérias amareladas de caldos gordurosos tomados com grandes fatias de pão na sua juventude e casquinhas de sorvete cobertas de chocolate chupadas em desafio sem fim. E aqui uma cicatriz em forma de larva gravada abaixo do diafragma, uma lembrança da cirurgia de Nissen que pela primeira vez revelou a marcha célere da morte.
Ao longo de duas horas e meia, Harvey gravou o que viu, com seu leve sotaque de homem do Meio-Oeste e sereno distanciamento científico. Palavras como lesão, contusão e hipóstase lateral apagaram qualquer sentimentalismo pelo brilhantismo perdido pelo mundo. Começou com as medições. Altura: cinco pés, sete polegadas e meia (176 centímetros); Peso: 180 libras (81,6 quilos); Peito: trinta e quatro polegadas e meia (87,6 centímetros) de um lado a outro. Então Harvey se virou para seu carrinho de instrumentos, para suas tesouras de quinze e vinte centímetros, de ponta e curva; fórceps longos e curtos, facas, de lâmina lisa, serrilhada e curvada; tesourões, cinzéis e serras de mão, manual e elétrica. Cada uma delas brilhando.
PÁGINAS 56 E 57
É uma história impressionante. O cérebro do maior gênio retirado sem autorização da família, fatiado e guardado em potes de maionese, cruzando os Estados Unidos e o Canadá numa odisséia de quatro décadas. Neste período, esparsas tentativas médicas de se tentar explicar, através dos neurônios de Einstein, se existe um padrão para a inteligência acima da média. A jornalista Carolym Abraham, canadense especializada em divulgação científica, produz um livro que, nas suas 306 páginas, é uma mistura de biografia, suspense e reportagem técnica. Escrito originalmente em 2002 e lançado no Brasil em 2005, é uma das minhas surpresas deste ano, compensando com sobras os R$ 9,90 investidos.
Última informação: o cérebro de Einstein pesava 1,230 quilo, mais leve que o do filósofo Immanuel Kant, mas mais pesado do que aquele que pertencera ao fundador da frenologia, Franz Joseph Gall.
Escrito por goethe às 11h33
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quem lê tanta notícia?
Nas bancas de revistas, novidades além da alegria e preguiça. A começar pela Piauí, nossa The New Yorker Review of Books, com uma penca de colaboradores distintos e assuntos diversos. Uma Caros Amigos em versão colorida e menos engajada. É revista para se ter em casa, seguindo a máxima do Barão de Itararé de se comprar mais de um exemplar, porque os amigos vão roubar descaradamente. A Piauí vai na contramão das revistas condensadas e quase formadas unicamente por notas. Textos de páginas e páginas, com boas descobertas e colaborações da velha guarda, como Ivan Lessa. Vale a pena também visitar o site, muito bem elaborado e com muita informação disponível, se bem que nada substitui o papel: http://www.revistapiaui.com.br/index.htm

A Rolling Stone voltou a ter uma edição brasileira, depois de três décadas de ausência das bancas tupiniquins. Com Gisele Bundchen na capa, decepciona quem procura algo além do pop. E nem tem site ainda, só um aviso de até breve: http://www.rollingstonebrasil.com.br/breve.html
Pelo menos uma coisa elas têm em comum: são duas grandes revistas. Tanto que não couberam no scanner...
Escrito por goethe às 10h45
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taí, eu fiz tudo pra você gostar de mim

As primeiras a imitar as roupas de Carmen tinham sido as coristas de Streets of Paris, ainda em Boston. Pouco depois de a conhecerem, várias delas começaram a aparecer para os ensaios usando turbantes de passeio e plataformas. Em troca, fora com elas que Carmen aprendera a usar unhas postiças. Sua falta de prática, no entanto, estava sujeita a acidentes – como no dia em que, ao tomar banho, perdeu uma unha postiça dentro da vagina e teve de ir ao ginecologista para extraí-la.
Com o estouro de Streets of Paris e as muitas fotos de Carmen nas revistas, um fabricante de blusas, Mitchell & Weber, de Nova York, consultou Schubert sobre a possibilidade de explorar o nome e a imagem de Carmen em troca de uma porcentagem nas vendas – e desde que ela fizesse algumas aparições ao vivo nos estandes de seus produtos nas lojas de departamento de Manhattan. Schubert aceitou e acertou-se com ele. Outra indústria, a Blume Knitware, Inc., fabricante de suéteres femininos, conseguiu o mesmo de Schubert, com Carmen recebendo de 35 a 50 centavos de dólar por dúzia de suéteres vendidos. Claude Greneker observou essa tendência e, com criatividade de um homem que bebia uísque com leite (sim, fazia isso), resolveu tomar a iniciativa. Escreveu a alguns pesos-pesados do setor de moda, sugerindo-lhes adotar as inovações de Carmen.
A resposta foi esmagadora. Várias empresas atiraram-se à sua sugestão – Carmen, àquela altura, já era irresistível – e nenhuma contestou a exigência de Schubert de que os anúncios, cartazes e vitrines ostentassem o mote: “Hy-yi the South American way!”. O magazine Macy’s foi o primeiro. Logo em julho, começou a vender batas, saias e plataformas – roupas “ao estilo de Carmen Miranda” – e a publicar enormes anúncios de varejo, com o nome e a foto de Carmen remetendo ao Broadhurst Theatre. Era o que Schubert queria: a roupa vendendo o espetáculo, este vendendo a roupa, e ambos vendendo Carmen. Seguiu-se-lhe a Saks Fifth Avenue, com a proeminente presença de Carmen em suas vitrines, inclusive no rosto e nos gestos dos manequins, e um cartaz com a ampliação da letra (em português) de “O que é que a baiana tem?” numa das paredes. E o mesmo com as bijuterias copiadas de Carmen, fabricadas por Leo Glass & Co. e vendidas como sendo “os balangandãs usados por Carmen Miranda em Streets of Paris”. Em troca de exclusividade como fabricante e fornecedor, a Leo Glass pagava a Schubert 5% da receita bruta de venda de seu material. Em todos os casos, Carmen fazia jus a uma participação.
O mesmo ainda quanto aos turbantes produzidos por Bem Kanrich, “criados” por Carmen e vendidos a 2,77 dólares, com um texto que dizia: “Tão encantador quanto o original usado por Miss Miranda, você achará mais fácil adotar a nossa versão de seu turbante. Ele tem o mesmo ‘sabor’ e personalidade de Carmen Miranda: é exótico, vivaz e diferente”. O texto queria dizer que era um turbante prêt-à-porter, que já vinha enrolado.
Mas quem conseguia suplantar o original? Carmen podia inventar um turbante por hora, se quisesse, adornando-o com penas de faisão, rabos de galo e espigas de milho – em pouco tempo, tudo isso começaria a aparecer nos seus turbantes de palco. Além disso, era no turbante que ela prendia os brincos, não nas orelhas – quem mais teria essa idéia? Um repórter lhe perguntou:
“Agora que todas as mulheres aderiram aos turbantes, você continuará a usá-los?”
Carmen nem vacilou:
“Enquanto gostar, vou continuar usando. As outras podem ir lamber sabão”.
PÁGINAS 222 E 223
Uma vida que daria um filme. Uma vida que se esvaiu em filmes, shows, discos e na incapacidade de, às vezes, realizar os sonhos de uma mulher normal. Em 598 páginas, Ruy Castro nos apresenta a Carmen Miranda além dos balangandãs, com direito a imagens e a uma completa filmografia e discografia da notável pequena. Uma obra monumental, que resgata personagens de nossa história recente, no Brasil e nos Estados Unidos. Nem preciso recomendar para os interessados em um texto bem elaborado. Eu, que conhecia apenas os chavões enganosos sobre Carmen e a política da boa vizinhança, virei fã de carteirinha dessa mulher. A ponto de vestir uma camisa "listada" e sair por aí.
Escrito por goethe às 14h40
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há mais coisas entre o céu e a terra

Fiquei arrependido de não ter visto no cinema. Fiquei arrepiado, mesmo no aconchego do lar. Um filme dirigido por um israelense (Hany-Abu Assad) sobre a questão palestina. Dois amigos de infância que são convocados para se transformarem em homens-bomba. O que acontece, depende dos olhos de cada um.
Escrito por goethe às 13h57
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tem dias que a gente se sente como quem partiu ou morreu

Muitos passageiros haviam se levantado para pegar documentos nas bagagens de mão, antes que as comissárias as levassem. Flávia perguntou a um deles:
- Por que você está se levantando? Por favor, sente-se, ponha os cintos e se prepare para o pouso.
A resposta a desconcertou.
- Estou apenas pondo os documentos no bolso. Para facilitar a identificação do meu corpo.
Cada um se preparava a seu modo para a hora do impacto.
O superintendente Gadelha, do Ibama, apertou bem o cinto de segurança de sua colega Ruth Tavares e, só depois, ajustou o seu. Depois de achar duas poltronas vagas, e juntas, que supuseram ser mais seguras, Elza e Rita se sentaram. Deram-se as mãos.
Boa parte dos bêbados melhorara do porre, como se eles tivessem tomado um miraculoso antídoto, e sentara-se comportadamente em seus assentos. Já o mecânico Antônio José, ao contrário, decidiu ir para a cabine de comando. Ergueu-se de sua poltrona e encaminhou-se para a proa. Mas, quando se aproximava da galley dianteira, foi interceptado por outros passageiros, que o seguraram. Só faltava essa. Já bastava cair no meio do mato, em plena noite, que dirá com um intruso atrapalhando os pilotos.
Muitas pessoas liam aflitas os cartões com as instruções de sobrevivência - aqueles aos quais ninguém dá bola até surgir uma ocasião como aquela. Outras procuravam munir-se do máximo possível de travesseiros, para amortecer o impacto.
Régia Azevedo discutia alguns assuntos práticos com o marido Evandro. O casal rememorou onde estavam as chaves do cofre da casa e prometeram um ao outro que, se apenas um dos dois sobrevivesse, este cuidaria das crianças com todo carinho.
Marcioníio Pinheiro alimentava esperanças de sair vivo. Mas sua fé foi abalada quando um azarento (ou realista) gemeu lá do fundo:
- Chegou a nossa hora.
PÁGINAS 244 E 245
Piloto de monomotores por mais de 25 anos e trabalhando no mercado financeiro, o carioca Ivan Sant'anna largou tudo para ser escritor. Acabou de lançar um elogiado livro sobre o que aconteceu dentro dos aviões que foram transformados em armas pelos terroristas do 11 de Setembro. O mais novo trabalho é, na verdade, uma extensão do Caixa Preta, publicado no final de 2000 e que narra os bastidores de três grandes tragédias ocorridos com aviões brasileiros: o RG-820, que se incendiou nas imediações de Paris em 1973; o VP-375, seqüestrado em 1988 entre Belo Horizonte e Rio de Janeiro e o RG-254, que caiu nas proximidades da Serra do Cachimbo, em Mato Grosso, em 1989. São 328 páginas que prendem a atenção pelo drama que poderia acontecer com cada um de nós. Consegui este exemplar no início da semana passada, depois de uma grande procura. Não se podia imaginar que aconteceria logo depois o maior desastre aéreo nacional, com a morte de 155 pessoas a bordo do Boeing da Gol. O trecho do livro que escolhi foi o do vôo da Varig que fez um pouso forçado na mesma hora do novo acidente. Os passageiros tiveram tempo para se preparar para o pior. Uma experiência onde ninguém sai ileso. Muito menos o leitor.
Escrito por goethe às 20h59
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