fiteiro
conversa afiada? só no fiado, porque o dono é desconfiado


foi um caracolito que passou em minha vida

De Mendoza a Santiago são cerca de sete horas de viagem de ônibus. A oferta de transporte é abundante. De microônibus a modernos dois andares, é escolher o horário e partir para a travessia dos Andes. É altamente recomendável comprar a passagem com antecedência, para garantir os assentos da frente.

Comprei as passagens Mendoza-Santiago ainda em Buenos Aires. Na frente, lado oposto, um casal de ingleses de meia-idade, que faziam um piquenique com iguarias roubadas do café do hotel. Atrás deles, um casal de norte-americanos, cara de quem está fazendo uma visita pelos países sulamericanos, talvez algum trabalho de faculdade. Nas poltronas logo à minha frente, uma senhora argentina e um rapaz chileno, este já acostumado a fazer a rota, tanto que passou a viagem quase toda dormindo.

Assim que o ônibus pegou a estrada, começou a batalha pelas melhores fotos. O norte-americano tinha a câmera mais sofisticada, mas se deu mal. O casal inglês à frente, cada um com sua digital, inviabiliza qualquer tomada. Eu, do meu lado, garanti meu espaço, facilitado pela falta de competição.

São túneis, curvas e uma paisagem mudava a cada quilômetro. A viagem rodoviária mais fantástica testemunhada por estas retinas míopes. E o norte-americano sofrendo.

A imagem mostra a dificuldade em se fotografar dentro de um ônibus em movimento. Trata-se da Ponte do Inca, uma passagem de pedra natural sobre um rio, perto de um hotel termal que foi abandonado nos anos 1980 por causa de um terremoto. As agência de viagem em Mendoza oferecem um passeio de um dia por estas paragens, incluindo o Aconcágua, que pode ser visto mais adiante.

O rio ainda com pouca água por causa da época do ano.

Caminhão perdido na imensidão.

Quase perto da fronteira, a puliça argentina.

Subindo os Andes, montanhas nevadas, trânsito intenso.

Operários descansam antes de retomar os consertos na pista.

Vista parcial do Aconcágua, o maior de todos.

Sorria, você está chegando no Chile. Prepare-se para a inspeção, que dura mais de meia hora.

Além de carimbar os passaportes, é preciso passar as malas pelo raio-x. A alfândega chilena é rigorosa, principalmente para evitar a entrada de produtos vegetais (principalmente sementes) que possam destruir a flora original. Certo.

Depois do posto de fronteira, começa a descida dos Andes, já em território chileno. É o início do Caracolito, o trecho de 16 curvas fechadas onde os ônibus parecem que vão mergulhar no sacrifício. Ops, precipício.

Parece cena de filme. E o norte-americano sofrendo porque não conseguia tirar nenhuma foto. Quem passa pelo Caracolito não esquece.



Escrito por goethe às 14h51
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chi-chi-chi-le-le-le-chile!

Depois da travessia, a chegada a Santiago é decepcionante. O terminal de ônibus, na parte onde chegam os carros provenientes da Argentina, é decadente. Fui recebido por um mendigo e um cara com um crachá enorme de taxista, uma identidade ampliada em xerox e plastificada, que me ofereceram seus serviços. Desconfiômetro ativado, saída pela direita e um táxi até o hotel. Em comparação com Argentina e Uruguai, o trânsito no Chile é caótico. E a poluição impede você apreciar a visão da cordilheira. Malas guardadas, hora de rastrear os arredores. O hotel ficava no bairro da Providência, perto das atrações e de bons bares e restaurantes. Uma estação de metrô na esquina facilitaria as locomoções. Transporte público de primeira qualidade, o melhor serviço que já vi em se tratando de capitais de países. No Chile tudo é um pouco mais caro, mas nada que prejudique o orçamento em comes e bebes. Como lembrancinhas, só garrafinhas de pisco. 

Palácio de La Moneda, sede do governo. Onde Bachelet negou as honras a Pinochet, o ditador que virou pó.

Área interna do La Moneda. O acesso é gratuito, mas não se pode entrar nas dependências. Um militar conta detalhes do edifício, inclusive apontando o local onde Allende estava quando o palácio foi atacado.

Allende botando banca.

Perto do palácio, mais precisamente à esquerda.

Com um bom mapa, gratuito nos hotéis, pode-se caminhar do La Moneda para a Plaza de Armas. A catedral mantém-se de pé.

Na Plaza de Armas, apresentações de estudantes nos finais de semana. O povo vai às ruas, sem medo de violência.

Mercado público de Santiago. Abriga muitos restaurantes de frutos do mar, mas o assédio é grande. Se você responder aos garçons que é do Brasil, vai testemunhar a mesma gracinha: batem num calamar (lula em espanhol) e dizem que é nosso presidente. Além da falta de graça, cuidados com os salpicos, porque o bicho é fresco.

Mesmo desfocada, uma amostra da abundância marinha no mercado.

Santiago é para ser apreciada do alto. Muitos mirantes permitem uma panorâmica da capital chilena, como este do Cerro Santa Lucia, local de fundação da cidade. Pode-se subir a pé ou por um providencial elevador, gratuito.

A parte mais alta do Cerro Santa Lucia. O lugar é cheio de estátuas e banquinhos, onde os namorados aproveitam a vegetação.

Tá vendo a santa lá em cima? Vamos para lá.

A estátua de Nossa Senhora está situada no Cerro San Cristóbal, dentro de um parque metropolitano que abriga um zoológico, piscinas públicas, áreas para piquenique e muito verde. No início do século passado, só havia pedras, mas planejamento e paciência deram frutos. Foto tremida pelo sacolejo do ascensor.

Tá vendo a santa? Chegamos.

Mais da santa.

Eu, que não sou santo, aproveitei a Cristal.

Um teleférico leva os turistas para dois pontos dentro do parque. Museus, espaços para crianças e um jardim japonês podem ser visitados.

Como é proibido estacionar, é hora da partida.



Escrito por goethe às 14h08
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como o poeta já dizia

De Santiago, pode-se visitar as cidades de Valparaíso e Viña Del Mar de uma forma bastante econômica. A partir do metrô, desembarca-se na estação Pajarito, que abriga também um terminal de ônibus. São várias opções de coletivos, inclusive micros, para a viagem que dura cerca de duas horas e custa em torno de R$ 30,00. No caminho, paisagem de pequenas cidades e vinícolas, numa estrada que é um tapete. Como Recife e Olinda, Valparaíso e Viña Del Mar são duas numa só. É sair da estação e bater perna, que tem muita coisa para se ver.

Valparaíso está situada de frente para o mar e boa parte da cidade está situada em morros, de onde pode-se cortar caminho através dos ascensores, estes elevadores sobre trilhos que funcionam desde o início do século passado. O ingresso é baratinho (tanto que me esqueci quanto custou) e vale pelo que proporcionou.

De cima, o contraste do mar do Pacífico com o casario e alguns espigões, para lembrar que, mesmo aqui, alguns têm mais pressa dos que os outros.

Valparaíso é um dos portos mais importantes do Chile e sempre foi estratégica para o país pela posição estratégica no mapa. A elite começou a migrar para Viña Del Mar depois de um terremoto.

Ficaram na cidade os artistas, gente que sabe dar cor ao cotidiano.

Por falar em cor, é a estação do amarelo.

Na casa simples, o marinheiro e Neruda.

E Neruda sabia. Tanto que viveu nesta casa, hoje transformada em museu. 

É escadaria para todo lado. E estrangeiro disposto também.

Como era sábado, feira de antiguidades na praça. Nenhuma pechincha.

Hora de seguir para Viña Del Mar.

Bastar pegar um dos microônibus que circulam pela beira-mar que chega-se a Viña Del Mar, cidade de arranha-céus e casas de veraneio.

Em Viña Del Mar tudo é rei. Inclusive um alemão que construiu um castelo, hoje transformado em museu.

Águas mansas e geladas do Pacífico. 

Todos passarão. Eu, passarinho (bença, Quintana).

Hora de seguir viagem. O show não pode parar.



Escrito por goethe às 13h29
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tá vendo aquela igreja, moço?

Na noite do dia 14, saída de Santiago com destino a Puerto Varas, no sul do Chile. Ônibus da Andes Mar, saída às 20h do Terminal Tres Cruces. Chegada às 8h do dia seguinte, com direito a frio e tempo nublado. De colonização alemã, Puerto Varas é uma simpática cidadezinha com suas casas de madeira. Lugar bom de se caminar sem rumo, comer um bom peixe (côngrio) e beber um vinho nacional.

Essa é a ladeira da preguiça.

É deste lago em Puerto Varas que se inicia a travessia de barco até Bariloche.

O cachorro vagabundeia na beira do lago, pescado pela digital.

Madeira que o cupim não rói?

Era uma casa muito engraçada.

Talvez a única grande falha do roteiro, acordar cedo para sair de Puerto Varas no dia 15. Em Santiago, na compra das passagens da Andes Mar, o vendedor afirmou categoricamente que o ônibus não parava em Puerto Varas, apenas em Puerto Montt, capital da província. O embarque estava marcado para as 8h15 e seria preciso contratar um transporte até Puerto Montt, orçado em aproximadamente R$ 40,00. O jeito era tomar o café da manhã logo às 7h, quando começava o serviço. A mesma idéia teve a legião de turistas que iria fazer a Travessia dos Lagos, forma mais endinheirada e romântica de viajar até Bariloche. Foi uma verdadeira batalha campal por pão, queijo e presunto, salada de frutos e tudo mais que a coitada da atendente colocasse na mesa. A turma da meia-idade mostrava uma agilidade impressionante na captura de um croissant. Tinham que estar bem alimentados para a travessia. Cada passagem neste tipo de cruzeiro (são cinco lagos e mais trechos em ônibus) custa mais de duzentos dólares. Por ônibus de linha, o custo se reduz para cerca de R$ 50,00. E a paisagem também é belíssima, com direito a surpresa no trecho mais alto da nova travessia dos Andes. Pena que o motorista não parou para imagens melhores e a sensação de sentir a neve caindo. Ele parou logo depois, no posto de fronteira para carimbo dos passaportes e em Villa La Angostura, porque o carro estava apresentando problemas. Já havia passado das 15h e o balançado, o calor e o filme Quando Um Homem Ama Uma Mulher, com Meg Ryan fazendo papel de alcoólatra, estavam embrulhando o estômago. Mas tudo compensa quando se chega a Bariloche...



Escrito por goethe às 10h40
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no caminho para bariloche

No meio do caminho tinha neve.

Tinha neve no meio do caminho.

E o motorista não parou.

Nesta volta a Bariloche, cheguei a uma constatação. A de que Deus, quando criou este trecho na Terra, estava com mania de grandeza. A prova disso é de que resolveu colocá-lo na Argentina. É a paisagem mais espetacular que minhas fatigadas e míopes retinas já testemunharam. Na praça central, a presença do lago Nahuel Huapi e a estátua de um militar argentino, devidamente pichado de vermelho como assassino dos povos indígenas que viviam na região. Condenado à indiferença dos turistas. Bem-feito.

Simpática prefeitura de Bariloche, com sua arquitetura que mistura pedras e madeira. A cidade é pequena, fácil de se situar. À esquerda do prédio tem início da avenida Mitre, a principal por causa das lojas e restaurantes.

Entre as várias opções de passeio oferecidas pelas agências, com representantes em hotéis, está a da viagem de barco até a Isla Victoria, situada no meio do lago Nahuel Huapi. Custa 60 pesos por cabeça, mais 20 pesos de traslado até Puerto Pañuelo, de onde saem os catamarãs. Do porto pode-se avistar o Hotel Lao-Lao, o mais imponente de todos em Bariloche, um cenário que parece retirado do filme A Noviça Rebelde.

Já no catamarã, começa toda guerra surda travada pelos melhores lugares. Com as câmeras digitais intensificou-se uma espécie de bailado moderno. Basta alguém clicar mirando alguma coisa que outra pessoa faz o mesmo gesto, no mesmo ângulo, na ânsia de não perder nenhum detalhe para mostrar depois aos amigos, nem que seja num blog.

Devo confessar que entrei na dança. Depois que sai do porto, é permitido ficar na parte de cima do barco, para melhor apreciar a paisagem, apreciar do vento que só intensifica o frio. Apesar do dia claro, a temperatura estava em torno de quatro graus. As gaivotas acompanham o catamarã, porque sabem que podem degustar um miolo de pão ou uma bolachinha grátis. A questão é ter paciência para ficar com o braço levantado por minutos até que uma das aves acerte a manobra. Deixei Fernão Capelo para lá e voltei para o quentinho, que é meu lugar.

A chegada em Isla Victoria acontece 40 minutos depois. O lugar já foi até propriedade particular, mas voltou às mãos do governo no período de redescobrimento econômico da Patagônia. A ilha virou integra um parque florestal que abriga espécies vegetais da região e outras trazidas do hemisfério Norte, principalmente dos Estados Unidos e Europa. Virou um samba do ambientalista doido.

O gato se espanta com a invasão dos bichos.

Nesse passeio, a guia fala para mais de 60 pessoas sobre pinheiros, ciprestes, cedros e outras árvores de grande porte que existem na ilha. A trilha é relativamente pequena, acessível para o pessoal de maior idade. Depois, embarque novamente no barco para seguir até o bosque dos arrayanes, em outro trecho da ilha.

Não consegui achar a tradução para arrayanes, mas o que torna especial este passeio é o fato de que só em Bariloche se encontra, no mundo, uma floresta inteira destas árvores. A trilha é percorrida num tablado de madeira e feita em cerca de 15 minutos. Seria melhor se não houvesse tanta gente vindo atrás, uma vez que dois ou três barcos despejam seu conteúdo turístico na mesma hora. Um caso típico de como as pessoas estragam a paisagem. O jeito é retornar para Bariloche. A briga agora é para conseguir um lugar onde se possa descansar, longe do sol na cara.

Antes, uma paisagem vista da ilha.

As agências tentarão lhe vender um city tour batizado de Circuito Chico, que é basicamente um passeio pela borda do lago Nahuel Huapi, indo pouco além do Hotel Lao-Lao. O custo? Cerca de 20 pesos por pessoa. Melhor pegar um ônibus de linha e fazer seu roteiro. Por cerca de dois pesos a passagem, pode-se descer exatamente na frente do teleférico Cerro Campanario, no mesmo roteiro que custaria dez vezes mais caro. A economia vai permitir pagar o acesso ao cume, que não está incluído no pacote oferecido pelas agências.

A vista do alto do Campanario é um alumbramento.

Paisagem nada inútil.

Sem pressa, hora de sentar, tomar uma água e limpar a vista. Neste cenário, chegam umas trintas senhoras mexicanas de uma excursão. O fotógrafo oficial registra a imagem de cada uma delas tendo ao fundo exatamente o cenário acima. Implica com uma por causa da pochete, manda a outra sorrir e depois junta todas na foto em grupo. Uma farra.

Outro passeio imperdível em Bariloche é a subida ao Cerro Otto através do bondinho vermelho. Na avenida Mitre existe um quiosque para a venda dos bilhetes, que dá direito a um ônibus até o acesso. Subida e descida custam mais ou menos 30 pesos. Lá em cima, vale tomar um café ou uma cerveja no restaurante giratório. Nos arredores do cume ainda se encontram pedaços de gelo da última neve. Coragem para subir a ladeira e posar para a posteridade eu tive, mas a imagem é de uso privativo.

Empanadas, a salvação da lavoura.



Escrito por goethe às 08h13
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mi buenos aires querido

De Bariloche para Buenos Aires, o embarque foi num sábado, dia 18, ônibus da Bariloche Tur, dois andares, coche cama, às 14h45. A poltrona é 100% reclinável e com um apoio para as pernas, transforma-se realmente num leito. Ideal para a longa jornada pela Patagônia até a capital argentina. As companheiras de viagem eram velhinhas que não paravam nos seus lugares, numa espécie de dança das cadeiras. Se for fazer esta viagem, prefira ficar do lado direito do ônibus (o oposto ao motorista). A paisagem é mais bonita, série de lagos com água azul e depois a secura da vegetação rasteira e cidades que parecem o interior do Nordeste. Após uma breve parada de vinte minutos em Néuquen, o ônibus segue rapidamente para seu destino, aproveitando as boas estradas. A bordo, direito a refeições, refrigerante ou vinho e filmes em DVD, a começar pelo sugestivo A Marcha dos Pinguins. Depois Todo Mundo em Pânico 4 e Poseidon, este a partir das 21h e em volume alto, para não deixar ninguém dormir. O ônibus entrou no Terminal Retiro, em Buenos Aires, às 9h. A viagem mais longa foi a mais confortável e a mais tranquila. E é bom retornar a uma cidade em que você já ficou íntimo. Os últimos cinco dias de viagem foram passeios descompromissados, idas ao cinema (shopping Abasto e Recoleta, com um multiplex luxuoso ao lado do cemitério) e expedições a lojas e livrarias. E as malas engordando...

San Telmo é um bairro tanguero, onde os turistas endinheirados e mochilheiros das galáxias caminham pelas ruas em busca de novidades, principalmente aos domingos, por causa da feira de antiguidades. Os casarões abrem as portas para vender as fartas bugigangas e algumas preciosidades. É o paraíso dos batedores de carteira. A mais famosa vítima foi a filha de Bush, que teve a bolsa com celular, documentos e dinheiros levada por um gatuno ninja, driblador de cinco seguranças ianques. Foi o assunto da moda em Buenos Aires. Na TV, uma senhora deu a melhor resposta sobre as indefectíveis matérias sobre como se proteger numa cidade grande: "podem levar minha bolsa, soy jubilada (aposentada)".

À venda, produtos de segunda mão, mas de primeira desilusão.

Dia 24. Hora de arrumar as malas e seguir para o aeroporto Ezeiza, depois de 65 pesos de traslado e mais 18 dólares de taxa de embarque. Buenos Aires de mi corazón, a história não se encerra aqui.



Escrito por goethe às 07h58
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