é preciso estar atento e forte

O dia 22 de dezembro de 1989 é lembrado na Romênia como a data máxima da revolução que derrubou o ditador Nicolae Ceausescu, que governava com mão de ferro o país desde 1965, apoiado pelo regime soviético. A TV nacional mostrou, às 12h08 deste dia, imagens de Ceausescu sendo expulso de Bucareste a bordo de um helicóptero. Dezesseis anos depois, um produtor de TV de uma pequena cidade a leste da capital decide fazer um debate para esclarecer se os moradores locais tomaram parte da revolta ou se apenas comemoraram a chegada dos novos tempos. Dois professores, um aposentado e outro alcóolatra e endividado, são convidados como as últimas opções de uma lista. Quase metade deste filme romeno do estreante Corneliu Porumboiu (também autor do roteiro) se passa no estúdio da TV, com os três personagens sentados e discutindo com pessoas que telefonam. Vencedor da Camera D'Or em Cannes 2006, A Leste de Bucareste (título em português) mostra como um baixo orçamento não amordaça uma boa história. É uma comédia triste com pessoas que tentam se manter dignas num ambiente decadente. A única cópia deste filme no Brasil está em cartaz no Espaço Unibanco em Botafogo, no Rio. É torcer para que circule por outras cidades. E que venha o DVD.
Escrito por goethe às 20h16
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entre sem bater mas não saia sem anunciar

A onda de prisões atingiu centenas de pessoas, e não demorou muito para a polícia arrastar também Apporelly na sua rede. Na tarde de 9 de dezembro de 1935, estava num dos bares que costumava freqüentar - o Café Bellas-Artes - quando os policiais chegaram.
Levado para a Polícia Central, o colocaram frente a frente com o juiz Castro Nunes, da Vara Federal, para responder ao seu primeiro interrogatório. A pergunta inicial do juiz foi a de praxe: "A que o senhor atribui a sua prisão?" E o prisioneiro, com ar contrito:
"- Tenho pensado muito, Excelência, e só posso atribuí-la ao cafezinho.
- Ao cafezinho?!
- Vou explicar, Excelência. Eu estava sentado num bar da Avenida Rio Branco, tomando meu oitavo cafezinho e pensando em minha mãe, que sempre me advertia contra o consumo excessivo do café, quando, justamente nesse momento, chegaram os policiais e me deram voz de prisão. Só pode ter sido por isso, por eu desobedecer aos conselhos de mamãe."
PÁGINAS 96 E 113
Na sua curta carreira de vereador, Apporelly, que nessa época já tinha sofrido mais de um derrame - era hemiplégico e andava com dificuldade -, não tinha mais fôlego para fazer longos discursos:
"O Sr. Presidente: - Advirto ao nobre orador que o tempo está se esgotando.
O Sr. Aparício Torelly: - Peço licença para terminar, e se o tempo está se esgotando...
O Sr. Presidente: - O tempo da sessão está se esgotando.
O Sr. Aparício Torelly: - E eu estou me esgotando também..."
Mas se não costumava fazer longos discursos, seus apartes conseguiram enorme sucesso. Tinha sempre a resposta certa na ponta da língua, e não eram poucos os que iam para as galerias especialmente para ver o Barão em ação. Certa vez, quando o vereador Moura Brasil, reclamando da confusa situação política, declarou que "não conseguia ver as coisas claras", Aporelly aparteou-o:
- Duas gotas, dois minutos... Colírio Moura Brasil!"
PÁGINA 164
O sebo fica no subsolo de um prédio da avenida Rio Branco, em frente à prestigiada livraria Da Vinci. Com a autoridade de quem está flanando pelo Rio numa segunda-feira (ontem), pergunto se tem algum livro sobre o Barão de Itararé. A mulher que está no caixa diz que "chegou alguma coisa" e manda que um atendente procure numa pilha de dezenas de livros que ainda seria catalogados e levados para as respectivas estantes. Ele não encontra, mas eu sim. Estava lá a biografia escrita por Cláudio Figueiredo, livro parido em 1987 e desde então nunca mais relançado. Novinho, apenas com o carimbo do último dono. O preço, R$ 20 anotados a lápis, se converteria em R$ 10, por causa de uma promoção. Emoção demais para um fã do Barão de Itararé, gênio do humor brasileiro. Retomei a posse de um dos livros que mais gostei na minha vida, já que o meu anterior ficou nas mãos de quem eu emprestei e já nem me lembro mais. Aos leitores deste fiteiro: nunca descansem da busca.
Escrito por goethe às 15h21
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o homem se acomoda ao seu destino

Houve ocasiões em que a vida, ou umas primas alcoviteiras, ou a caridade punham no meu raio de ação uma daquelas belezas que eu amava com todo o furor do silêncio. Pois bem, nem mesmo sozinho com ela no sofá da sala, com a mãe ausente jogando canastra, eu tinha coragem de dizer alguma coisa. Quando voltava para casa chutando pedras pelas ruas santiaguinas, as palavras me vinham em tropel. Devia ter dito isso, ou aquilo, minha filha. Na solidão do meu bairro, eu devia parecer um vaso, com a quantidade de flores que abarrotavam minha boca.
E assim iam se passando os dias, eu me cozinhando no meu próprio silêncio enquanto todos os outros umedeciam os lábios nas bocas frescas das garotas do mundo, quando caiu nas minhas mãos um livro de Neruda: Todo o amor.
PÁGINAS 17 E 18
Na infância do vate, em sua cidade sulista de Temuco, ele era fascinado por um cavalinho decorativo posto como publicidade na entrada de uma sapataria. O animal tinha dimensões reais e era o objeto mimado das crianças do lugar, que não podiam passar pela rua sem acariciar sua cabeça de papelão.
Quando retorna a Temuco, já como poeta de fama mundial, quis comprá-lo, mas o dono pediu uma quantia exagerada. Anos mais tarde, um incêndio arrasa a loja e a maioria dos bens que puderam ser salvos são levados a leilão. Entre eles, o cavalo dos seus sonhos com o rabo chamuscado. Por meio deste leilão, ele o consegue.
O nobre animal, porém, havia sofrido queimaduras de diversos graus e precisava de uma cirurgia artística. O poeta pede ao pintor Julio Escámez que o cubra de tinta azul-clara e tons dourados. E, para solucionar o problema do rabo consumido pelas chamas, Neruda pede a três dos seus amigos mais diligentes que se encarreguem do assunto e lhe tragam um rabo substituto. Como os caprichos do vate eram ordens em seu meio, os três encarregados não demoraram a aparecer trazendo cada qual seu rabo. Um era branco, outro amarelo e o último preto. Para não ofender nenhum dos seus rapinantes colaboradores, o dono da casa tomou uma decisão democrática: pôs no cavalo os três rabos.
Eu me retive nesta história porque creio que esclarece de maneira exemplar o flexível conceito acumulativo que o vate empregou na construção de Isla Negra.
Só na casa de Neruda é concebível um cavalo com três rabos.
PÁGINAS 46 E 47
As primeiras 75 páginas são de o relato de um escritor admirador de um poeta. Skármeta alcançou a fama internacional graças a uma obra onde Neruda era protagonista: O carteiro e o poeta. Transformada em filme, a história tem elementos biográficos que em Neruda por Skármeta ficam mais claros. As outras 200 páginas deste livro são poemas de Nerudas em versão bilíngüe, com comentários de Skármeta que esclarecem o contexto da criação das peças. Uma excelente introdução ao universo lírico do prêmio Nobel que morreu pouco depois do golpe militar que trouxe a escuridão para o Chile. O albatroz alçou seu vôo, mas deixou suas pegadas na areia. E ninguém melhor do que Skármeta para contar esta história.
N.B. Como curiosidade, o livro O carteiro e o poeta foi lançado originalmente no Brasil com seu título original: Ardente paciência. Tinha um exemplar da Brasiliense, capa rosa, que acabou nas mãos de alguém que eu queria impressionar.
Escrito por goethe às 08h24
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considerações a respeito do nada

HAI-KAI CORTANTE
político que o valha
sempre passa no
fio da navalha
Escrito por goethe às 21h13
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a césar o que é de césar

Quem tem curiosidade de saber como viviam os cidadãos romanos - e os escravos também - pode saciar um pouco esta vontade com a caixa de seis DVDs que desembarcou há poucas semanas nas prateleiras das lojas e locadoras. Roma, a minissérie produzida pela HBO que está em sua segunda temporada, é um exemplo de superprodução onde todas as coisas estão devidamente no seu lugar. Atores, figurinos, cenários e locações trazem de volta o período meio século antes do nascimento de Cristo. A época da ascensão de César e o fim da República. Sangue, suor e vinho.
Escrito por goethe às 13h49
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arriba e gozando

O único problema desse DVD é não ter legendas, porque o áudio e as imagens estão perfeitos. Na relação custo-benefício, são R$ 14,99 bem gastos. Pio Leiva é da velha guarda cubana e compensa a falta de mobilidade com experiência. Não só ele canta, há espaço até para as Chiki Chaka Girls, que mandam um som mesclado com rap. Filmado num clube em Amsterdam, parece um grande bailão cubano, mas aí é que está a graça. Lembrando mais uma vez o preço do "ingresso" (o preço do DVD), é só ir para o abraço no meio da pista.
Escrito por goethe às 08h51
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acaso sou o guarda de meu irmão?

Thomas Mann terminou Doutor Fausto em janeiro de 1947. Dois anos depois, em 21 de abril de 1949, Viktor, o irmão caçula de Thomas, morreu de maneira inesperada. Exatamente um mês depois, no dia 21 de maio de 1949, Klaus, o filho de Thomas, cometeu suicídio. Trinta anos depois morreu Michael, o filho caçula de Thomas e pai de Frido; possivelmente também se matou. Será que Thomas Mann, o criador de Doutor Fausto, não era ele mesmo um Fausto, um aliado secreto do diabo? E seu romance não atuou nos filhos como um “incentivo” à morte, tal como devem ter sido as primeiras peças de Heirinch para Carla, e o romance Henri IV para Nelly?
O próprio Thomas Mann – segundo ele – teve uma grave crise de saúde devido ao trabalho intenso com seu livro “mais selvagem”; enquanto trabalhava na obra, adoeceu gravemente e teve de operar o pulmão. Tinha exatamente setenta e um anos. Desde a morte de sua mãe, Thomas acreditava que morreria com setenta anos, tal como ela, ou seja, em 1945. Pressupôs que a sua doença e o término desse romance estavam relacionados com sua fantasia sobre a morte.
Thomas Mann, portanto, também estava convencido da força sugestiva de suas obras sobre os outros e sobre si mesmo. Mas parece não ter notado que também estava marcado por imagens e lembranças de sua própria infância, e que determinados temas familiares o atraíam, levando-o a inseri-los várias vezes em suas obras – como por exemplo a morte do menino. Doutor Fausto não é a única obra em que Thomas descreve a morte de uma criança. Em suas primeiras obras também havia morte de crianças: em Os Brundenbrook é Hannos; na novela Der Tod (A morte) é a menina Asuncion. A morte de uma criança sempre aparece ligada à culpa de um adulto ou à morte de um parente masculino, do pai – ou no caso de Doutor Fausto – do tio da criança.
Thomas Mann contou essas histórias porque em sua família ocorreram muitas mortes trágicas de crianças? O irmão de seu pai, Thomas Johann Heinrich, morreu com um ano e meio, quando Thomas Johann Heinrich ainda não tinha quatro anos; Maria da Silva Bruhns, a mãe de sua mãe Julia, morreu durante o parto junto com o filho, o que marcou profundamente a vida de Julia; Emilie Mann-Wunderlich, a primeira mulher de seu avô paterno, morreu logo após o parto, e com ela três de seus filhos, o que foi uma carga muito pesada para o filho do segundo casamento, o pai de Thomas Mann. Os acontecimentos passados continuaram atuando inconscientemente, com sua força destrutiva, por várias gerações?
PÁGINAS 391 E 392
Nunca a vida imitou tanto a arte. Ou a morte imitou a vida. A história da família Mann já rendeu alguns livros, inclusive um exclusivamente sobre a avó dos irmãos escritores Heinrich e Thomas, a brasileira Julia da Silva Bruhns, que nasceu em Angra dos Reis e viveu até os cinco anos de idade em Parati, no Rio de Janeiro. A socióloga alemã Marianne Krüll fez um monumento literário de 515 páginas, com direito a dezenas de notas e uma extensa árvore genealógica. Entre resumos das obras criadas pelos escritores com sobrenome Mann, ela traça um painel das vidas conturbadas desses personagens que viveram entre os séculos XIX e XX. De quebra, um painel da Alemanha neste período. Tudo o que os Mann fizeram está nas páginas deste livro. E nos deles que tanto se consumiram ao longo da vida. Ou da morte. Ou da morte, sei lá.
Escrito por goethe às 13h41
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faz escuro, mas eu canto

As imagens que você está vendo foram captadas numa câmera 3.0 megapixels, sem flash, que veio embutida num MP3 player de design japonês e fabricação chinesa. Comprei o dito cujo, com direito a um cartão de dois gigas de memória, na Feira de Importados, um muambódromo que funciona na capital federal e é atração turística. Lá tem de tudo, de deputado a servidor público, de DVD dos 300 a celulares que só faltam falar. Não deixa de ser uma fiel tradução de Brasília, cidade onde tudo tem um preço. E onde os idealizadores não quiseram morar.

Lúcio Costa e Niemeyer capricharam no projeto de Brasília. Mas a ausência de flash da máquina até que captou mais do que eu queria. Tem início agora um pequeno tour pela cidade das "tesourinhas", aqueles desvios que servem para manter a mesma direção. Somente no último dia dos seis que passei por lá é que entendi o processo.

Catedral idealizada por um ateu, que desenhou certo por linhas curvas.

Palácio da Alvorada, onde um bloqueio está sendo construído para evitar que outros motoristas joguem o carro nas grades.

O guarda faz pose para os futuros contribuintes.

Alerta de duplo sentido.

Concentração de militares na véspera do aniversário da cidade. Muito poder para uma única praça.

O gordinho tentou não dar bandeira, mas estava de olho no vendedor de amendoim.

O pombo faz mais sentido do que os guardas.

Nunca o Palácio do Planalto foi tão vigiado.

Colocaram uma grade entre o povo e a justiça.

Footing da tarde, porque o tempo tem asas.

O congresso proibido para os sem, inclusive gravata.

Cidade de relações exteriores.

A flor do cerrado sobrevive à secura do homem.

No Ministério do Trabalho, o ganha-pão do vendedor de lanche sem emprego.
Escrito por goethe às 13h10
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bico calado, toma cuidado, bento vem aí

Por el año 1569, el demonólogo Johann Wier había contado a los diablos que estaban trabajando en la tierra, a tiempo completo, por la perdición de las almas. Este especialista registró 7.409.127 diablos, divididos en 79 legiones. Desde aquel censo, mucha agua ha pasado bajo los puentes del infierno. Ahora, ¿cuántos suman? Difícil saberlo. Los demonios continúan siendo demonios, amigos de la noche, temerosos de la sal y del ajo, pero sus artes de teatro dificultan el conteo.
Sin embargo, y calculando muy por lo bajito, no resultaría exagerado estimar que por lo menos ocho de cada diez miembros del género humano merecen estar bajo sospecha. Un criterio estadístico elemental empezaría por sumar a los gentíos que no son blancos: sus pieles de colores demoníacos, que van desde el negro carbón hasta el amarillo azufre, delatan una inclinación natural al crimen. Entre ellos, es imprescindible tener en cuenta a los 1.300 millones de miembros de la secta de Mahoma. Desde hace mil cuatrocientos años, estos engañeros usan turbantes para ocultar sus cuernos, y túnicas que tapan sus colas de dragón y sus alas de murciélago. Pero ya el Dante había condenado a Mahoma a pena de taladro perpetuo, en uno de los círculos del infierno de La Divina Comedia; y dos siglos después, Martín Lutero había advertido que las hordas musulmanas, que amenazaban a la Cristiandad, no estaban formadas por seres de carne y hueso, sino que eran "un gran ejército de diablos".
A la portación de piel, habría que agregar la portación de ideas: ¿cuántos suman los enemigos del orden? También ellos son hábiles en el oficio de la transfiguración. Hoy por hoy, el color rojo fuego se usa poco en el mundo, pero los subversivos disponen de todo el arcoiris para reciclarse, y bien saben usar máscaras y disfraces y otros ardides aprendidos de sus viejos amigos, los cómicos de la legua.
Eduardo Galeano - trecho do artigo "Satanases"
Autor da caricatura - Eduardo Baptistão (http://baptistao.zip.net/)
Escrito por goethe às 15h07
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os filhos da pátria-mãe

Um filho de imigrantes ganhou as eleições na França. Mas quem vem de outros países para viver no país não terá a simpatia do descendente de húngaros que sucederá Chirac. Sarkozy venceu porque quer fechar ainda mais as fronteiras. Sintomático o momento de uma nação que já foi uma potência, controlando territórios em outros continentes. Indigènes, o filme de Rachid Bouchareb que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro deste ano, expõe as feridas do preconceito dos franceses em relação aos colonos na época da Segunda Guerra Mundial. Ocupado pelos nazistas, o país recorreu aos nascidos na Tunísia, Argélia e Marrocos para libertar a "Pátria-Mãe". Servindo como soldados de segunda categoria, os indigènes estavam na linha de frente dos combates, mas sofriam com o desprezo na retaguarda. Um filme de guerra que vale os 20 milhões de euros investidos, principalmente por forçar o espectador a pensar. No Brasil, Indigènes recebeu o título de Dias de Glória. Glória para quem?
Escrito por goethe às 17h51
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os preferidos do tio mengele

Um dia, conversando com os anões, Mengele deixou escapar que desde criança adorava Branca de neve e os sete anões, dos irmãos Grimm. Nunca imaginou, porém, a possibilidade de um encontro, na vida real, com uma família assim. As similitudes entre os Ovitz e a ficção dos Grimm o intrigavam; os anões nos dois casos somando um simbólico sete; o grupo de anões diligentes e felizes vivendo e trabalhando juntos, sem nunca se separar. A Branca de Neve de Disney tinha sido um enorme sucesso na Alemanha de Hitler, assim como no resto da Europa. No desenho animado de Disney, os anões tinham sua própria banda e tocavam instrumentos similares aos dos Ovitz: violão e acordeão, baixo e tambor. O público amava a moral da lenda, na qual os anões, vivendo separados da sociedade no meio da floresta, descobriram, junto com Branca de Neve, os benefícios da ajuda mútua. Os anões de Disney protegiam sua princesa e asseguravam seu futuro, enquanto ela cuidava das necessidades diárias deles.
PÁGINAS 130 e 131
Nascidos na Transilvânia, sete irmãos da família Ovitz driblavam a baixa estatura com talento. Levados para Auschwitz-Birkenau, escaparam da morte instantânea para integrar o plantel de aberrações de Josef Mengele. Em 238 páginas, os jornalistas israelenses Yehuda Koren e Eilat Negev contam o antes, durante e depois desta história, uma abordagem diferente do Holocausto. Nenhum conto de fadas, mas bem fundamentado e contextualizado.
Escrito por goethe às 12h40
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um dia vou morrer de susto, bala ou vício

Baseado no livro homônimo de Edgardo Esteban e Gustavo Romero Borri, que lutou nas Malvinas, o filme Iluminados Pelo Fogo é um bom mostruário do que ocorreu com nossos vizinhos há 25 anos, quando a ditadura militar, precisando de apoio popular, mandou soldados inexperientes para reconquistar as Falklands, em poder da Grã-Bretanha desde o século XIX. O diretor Tristán Bauer mostra que é possível fazer um filme de guerra sem grandes efeitos especiais. Foram apenas 74 dias de combate, mas que deixaram marcas nos argentinos que lutaram sem roupas adequadas e provisões. Nos combates, morreram 265, mas suicídios de quem não se adaptou à vida civil já superaram essa marca. São mais de 300. E é depois da tentativa de suicídio de um amigo do protagonista que ele resolve voltar ao local onde viveu seu inferno pessoal. O fantasma das Malvinas ainda assusta.
Escrito por goethe às 11h26
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porque o mundo é um momento

Depois de quatro meses fechado para balanço, o fiteiro tem o orgulho de comunicar a seus clientes e fornecedores que reabriu o cadeado e conta com um novo estoque de livros, discos, filmes e comentários sobre pequenas coisas para compartilhar. Como diria o português Pedro Abrunhosa, o tempo tem asas. Grato pela preferência.
A direção.
Escrito por goethe às 13h45
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alô turma do bonfim

Pela segunda vez, Porto Alegre é a base para visitar os países do Cone Sul. A receita é comprar uma passagem baratinha, ida e volta, para a capital gaúcha e depois fazer o roteiro de ônibus e barco pelo Uruguai, Argentina e Chile. É trilegal.

Era hotel, mas virou Centro Cultural Mário Quintana. Tem cinema, exposições e um barzinho para passar algumas horas agradáveis. No quintal de Quintana. Todos merecemos isso.

Novembro é uma época boa para se fazer o roteiro, por causa da feira de livros. Época de shows e exibições.

Mercado público é a alma de uma cidade. O de Porto Alegre é bem cuidado e tem bares e restaurantes a preços acessíveis. Aviso: quem pedir bife a cavalo não ganha pão.

Depois da barriga cheia, frutas secas para mais tarde.

Pombos na frente da prefeitura.

No subsolo, um espaço diferente para obras de artes. Parece calabouço medieval.

A força de vontade do gaúcho pode ser bronze, mas o sorveteiro da praça desta escultura era de Caruaru.
Escrito por goethe às 13h01
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nada é igual, tudo se transforma

Montevidéu é uma senhora charmosa, abandonada pelos netos. Os uruguaios mais jovens deixam o país, em busca de emprego, principalmente na Espanha. A cidade ficou para os velhos, que tratam com simpatia os visitantes. Sua arquitetura da primeira metade do século ajuda nesta viagem no tempo.

Cerveja de um litro acompanhando a refeição. Seguindo a dieta local.

Mesmo desfocada, uma parilla é uma parrilla.

A igreja do Edir querendo ser universal.

O candombe é ritmo popular e as imagens no muro lembram um maracatu. Continente coroado...

Domingo, dia de futebol. Nem que seja de niños.

O centro estava fechado por causa da reunião dos líderes latino-americanos. Lula não foi. E decepcionou os uruguaios. Os estudantes fizeram o dever de casa.

Estádio Centenário, palco da primeira Copa do Mundo, abrigou um show para celebrar a Cumbre latina. Do Brasil, Arnaldo Antunes.

Era proibido sacar fotos do show. Fiz essa da apresentação do Jorge Drexler, uruguaio show de bola. Para encerrar o giro em Montevideu antes de embarcar para Colônia do Sacramento e depois Buenos Aires.

Colônia de Sacramento fica a duas horas de ônibus de Montevidéu. Foi colonizada por portugueses para fazer frente a Buenos Aires, ainda no século XVII. A capital argentina fica a uma hora de barco. A bacia do Prata foi palco de uma disputa comercial.

A parte histórica de Colônia está concentrada em cerca de oito quarteirões. Dá pra conhecer tudo num dia.

Vista do alto do farol, a 30 metros de altura, Colônia lembra uma Olinda sem ladeiras.

A fortificação dos portugueses virou área cultural.

O farol orientava os navios que traziam suprimentos. Hoje recebe turistas.

O monge é um ator que esperava a visita do presidente português. Pagou os pecados ao sol.

Na entrada do museu, também uma volta ao passado.

E o português não aparecia...

O poder ficou como lembrança no muro.

Os nomes de ruas refletem bem o espírito de uma cidade.

Quem vai à Colônia tem que passar por esta rua de pedras irregulares, tipicamente portuguesa.

Dizem que é rua dos suspiros por causa de uma casa onde moças bonitas ficavam debruçadas na janela.

No barco para a Argentina. Até breve, Uruguai.
Escrito por goethe às 12h36
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mi buenos aires querido

Mais uma vez, a chegada em Buenos Aires foi de Buquebus. Você desembarca em Puerto Madero e é bom levar pouca bagagem, porque os taxistas selecionam passageiros de acordo com a distância do hotel. O jeito foi sair arrastando o peso. Mas o mal-humor dos portenhos é lenda. Que nem no Brasil. Ou qualquer parte do mundo. Mas Casa Rosada só tem lá.

Perto da Casa Rosada, a catedral. A igreja sempre gostou da vizinhança do poder.

Por falar em igreja, foi a partir desta construção que Buenos Aires surgiu. É uma espécie de monastério que hoje abriga uma simpática feirinha de artesanato. Só lembro que fica perto do Cabildo.

Um protesto por dia. E nem por isso a cidade pára.

No fundo, no fundo, "orgullo de ser argentino".

Corações e a torre dos ingleses ao fundo. Fim.
Escrito por goethe às 12h19
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