fiteiro
conversa afiada? só no fiado, porque o dono é desconfiado


todo mundo em pânico

Distante da Noruega, um pequeno grupo acompanhava o caso com atenção. Eram os detetives da Scotland Yard, membros de um grupamento de elite chamado Unidade de Obras de Arte e Antiguidades, mais conhecido simplesmente como o Esquadrão de Arte. A matéria apareceu no fim de semana. Na manhã de segunda-feira, 14 de fevereiro de 1994, a primeira coisa que fez o chefe do Esquadrão foi telefonar para seu melhor agente secreto.

- Charley, você soube da história de O grito?

- Vi no noticiário de ontem à noite.

- Você acha que podemos ajudar?

Oficialmente, uma pintura roubada que seja propriedade de outro país nada tem a ver com a Scotland Yard. A caçada de O grito certamente seria complicada e dispendiosa, e potencialmente perigosa. “Digam mais uma vez”, decerto perguntariam os poderosos da polícia, “por que isto seria problema nosso?”.

E não era má pergunta. A resposta honesta, nas palavras do detetive Charley Hill, era que o caso nada tinha “a ver com o policiamento de Londres. Mas é bom demais para deixar passar”.

PÁGINAS 35 E 36

 

Décadas depois, O grito iria adquirir fama universal. Já não era visto como expressão do tormento de um homem, foi tomado, em vez disso, como o grito de desespero que pode partir praticamente de qualquer indivíduo. Munch sentiu-se em pânico e esmagado. Passado meio século, depois da morte de milhões de pessoas em duas guerras mundiais e ante a ameaça de morte por bombas atômicas de todas as demais, tais sentimentos encontravam ressonância por todo o planeta. As tendências da cultura pop – a ascensão do existencialismo dos cafés, o gosto pela depressão européia à la Bergman, os boatos sobre a morte de Deus – haviam tornado modernas a angústia e a alienação. Em março de 1961, a revista Time proclamava o novo clima com uma matéria editorial intitulada “Culpa e angústia”. A ilustração da capa? O grito.

(...)

Para o pintor norueguês, destituído de humor negro, o destino de O grito teria sido uma piada de crueldade inimaginável. Ele começou a pintar na esperança de que o público fosse capaz de “entender a santidade” de suas imagens. Com o tempo, a mais famosa dessas imagens iria enfeitar chaveiros e máscaras de Halloween e, na versão do ator mirim Macaulay Culkin, servir de emblema para um dos maiores sucessos de Hollywood. A figura central de O grito, segundo proclama um historiador da arte, constitui agora “a contrapartida da familiar carinha feliz”.

PÁGINAS 97 E 98


No dia 12 de fevereiro de 1994, dois homens usam uma escada para entrar na Galeria Nacional, o mais importante museu da Noruega. Saem com a tela O grito, avaliada em US$ 72 milhões. Em 260 páginas, o jornalista norte-americano Edward Dolnick conta a saga do resgate da obra-prima de Edvard Munch, numa história envolvendo detetives da Scotland Yard e escroques europeus. Além de descrever a história de O grito, Dolnick narra detalhes de outros roubos de quadros, esculturas e jóias que desafiaram a polícia e traça pequenas biografias dos mestres. Uma excelente leitura para quem gosta de Sherlocks, Poirots e Maigrets da vida real, como também para quem pretende aprender como se faz um texto baseado em depoimentos e pesquisas.



Escrito por goethe às 06h05
[ ] [ envie esta mensagem ]


trocando em miúdos

Só resta disponível uma caixa das oito lançadas pelo Sesc de São Paulo, mas mesmo assim continua sendo um grande investimento. Por R$ 50,00 pode-se comprar uma coleção de 12 CDs e um livro com a transcrição dos depoimentos gravados de músicos brasileiros para as séries MPB Especial e Ensaio, produzidas por Fernando Faro para as TVs Tupi e Cultura. É uma boa opção para o dia dos namorados ou mesmo para quem está sozinho. Segue abaixo a transcrição do site da loja do Sesc (http://www.sescsp.org.br/loja/index.cfm?forget=8&inslog=27) e a relação dos artistas que fazem parte do sexto lote. Entre os destaques, Chico Buarque, Dorival Caymmi e Guinga, que ilustra este post com a capa do CD acima. O fim está próximo, meus amigos.

A Coleção de CDs "A Música Brasileira Por Seus Autores e Intérpretes" traz um amplo mapeamento da música brasileira no século XX: coleção de 8 volumes, com 12 ou 13 CDs cada, com a gravação em áudio de parte do acervo dos programas "MPB Especial" (TV Tupi) e "Ensaio" (TV Cultura), criados e dirigidos por Fernando Faro. Os convidados tocam, cantam e falam de seu trabalho, de sua vida e relembram casos. Cada volume é acompanhado de um livro com a transcrição literal dos depoimentos dos artistas, precedida por uma breve apresentação, que relembra o contexto da época.


Alaíde Costa
Antônio Nássara
Antônio Nóbrega
Banda de Pífanos de Caruaru
Carmélia Alves
Chico Buarque
Dorival Caymmi
Elton Medeiros
Guinga
Henricão
Roberto Ribeiro
Zé Menezes



Escrito por goethe às 18h01
[ ] [ envie esta mensagem ]


você pega o trem azul, o sol na cabeça

Então a Ásia estava do lado de fora da janela, e eu era carregado através dela a bordo daqueles expressos que vão para o Oriente, admirando tanto a balbúrdia dentro dos trens quanto aquelas pelas quais passávamos. Qualquer coisa é possível num trem: uma refeição deliciosa, uma noitada, um jogo de cartas, uma intriga, uma boa noite de sono e monólogos de estranhos construídos como contos russos. Minha intenção era embarcar em cada trem que aparecesse pela frente da Victoria Station em Londres até a estação central de Tóquio; tomaria a linha secundária até Simla, atravessaria o passo de Khaybar, e tomaria a linha direta que conecta as ferrovias indianas com as do Ceilão; viajaria no expresso de Mandalay, no Flecha de Ouro da Malásia, nos trens locais do Vietnã, e nos trens com nomes mágicos como o Expresso do Oriente, o Estrela do Norte e o Transiberiano.

Eu procurava trens; encontrei passageiros.

PÁGINA 14

A franqueza da conversa, como de muitas outras que tive nos trens, devia-se à viagem compartilhada, à comodidade do vagão-restaurante e à certeza de que jamais nos reencontraríamos. As ferrovias são um mercado persa para os romancistas, um bazar, onde qualquer pessoa paciente teria uma recordação para saborear mais tarde sozinha. As lembranças sempre eram inconclusivas, mas, como nos bons romances, sempre tinham um final. O engenheiro melancólico não voltaria para a Inglaterra, se converteria em um desses velhos expatriados que se escondem em países remotos, com gostos bizarros, uma inclinação pela região local, um ressentimento irracional e uma memória tão fiel que afasta deles estranhos curiosos.

PÁGINA101

Viajar longas distâncias, depois de três meses, é o mesmo que provar vinho ou escolher uma iguaria num bufê internacional. Aproximamo-nos de um lugar, experimentamos e lhe damos uma nota. Uma visita, uma pausa antes de o próximo trem partir impede qualquer desfrute, mas é possível retornar. Assim, de cada longo itinerário surge um mais simples, no qual o Irã é marcado a lápis, o Afeganistão é cortado, Peshawar recebe um sim, Smila recebe um talvez e assim por diante. Depois, o simples cheiro de um lugar ou sua visão de um assento no canto do Vagão Verde é o bastante para influenciar o viajante a rejeitá-lo e seguir adiante. Quando estive em Cingapura, eu sabia que era um lugar para o qual jamais retornaria; detestei Nagoya depois de apenas 45 minutos na estação; Kyoto foi logo escolhida como um lugar para o qual retornaria. Kyoto era como uma garrafa de vinho cujo rótulo você memoriza para assegurar sua felicidade futura.

PÁGINA 390


Em 1973, o escritor norte-americano Paul Theroux embarcou numa jornada pessoal: cruzar a Ásia a bordo de trens. Em 1975, lançou este livro, considerado um clássico da chamada "literatura de viagem". Seu texto elegante passeia entre descrições de lugares e perfis de gente que encontrou pelo caminho. São 453 páginas de uma aventura que, nos tempos de hoje, seria difícil de repetir. Para lamentar o fato de que o Brasil, ainda no época do Império, abdicou do direito de nos oferecer este meio de transporte.



Escrito por goethe às 10h30
[ ] [ envie esta mensagem ]


vem surgindo das cinzas o trem de um novo aeon

Em junho de 1970, bandas de rock se juntaram para uma excursão pelo Canadá de trem. Ao contrário de Woodstock e outros festivais do gênero, tiveram tempo para se divertir enquanto se cruzava o país de leste a oeste. Muita música e bebida antes de subir aos palcos em estádios quase vazios, porque havia protestos pelos US$ 14 cobrados pelas atrações. Este documentário retrata o fim do sonho hippie, com depoimentos de quem sobreviveu à época e performances arrasadoras de Buddy Guy, The Band e Janis Joplin, esta aproveitando bem a companhia dos amigos. Pelo preço de R$ 14,90 (no Bompreço tem), vale ainda mais este DVD duplo, que traz muitos extras como apresentações de artistas que viraram apenas pequenas notas na grande enciclopédia do rock, como Sha-Na-Na.



Escrito por goethe às 10h10
[ ] [ envie esta mensagem ]


o médico e o monstro em ipanema

Foi assim certa noite em 1964, quando bebia com Paulo César Saraceni e Armando Costa num bar de Copacabana. Os três esculhambavam o golpe e as Forças Armadas em altos brados. Numa das mesas próximas havia um grupo de militares que se sentiu ofendido. Estes foram à 13ª Delegacia e convocaram a polícia para prender os difamantes. Armando Costa estava no banheiro quando os policiais chegaram. Ao se aproximarem da mesa, foram desacatados por Roniquito. Levaram Saraceni e ele presos. Armando, saindo do lavabo, tentou ser preso também mas não conseguiu. Na delegacia, embora Saraceni e o delegado tentassem, não conseguiam aplacar a ira roniquitiana. Paulo César ligou para tio Pandiá, que chegou prontamente, conversou com o delegado e convenceu-o a liberar os dois. Conseguiu porque o delegado não agüentava mais o discurso irado de Ronald. Num determinado momento, Paulo César disse que ia embora e levaria o tio Pandiá com ele, para ver se Ronald se acalmava e ia junto. Mas Roni estava tomado de ódio dos militares e continuava sua peroração. Tio Pandiá e Saraceni fizeram menção de partir. Desta vez foi o delegado que estrilou:

- Pelo amor de Deus! Não deixa esse cara aqui não!

PÁGINA 90

Esta história Luiz Carlos Miéle incluiu no repertório dos seus shows.

Roniquito estava no Antonio's, quando chegou uma freqüentadora toda bem-vestida.

Ele perguntou de onde ela estava vindo assim tão chique.

A moça respondeu toda feliz:

- Do Theatro Municipal - e emendou: - Você gosta de Béjart?

Roniquito respondeu:

- Não, eu prefiro Foudet.

A moça ficou rubra de indignação:

- Que grossura! Estou falando do coreógrafo Maurice Béhart!

E Roniquito na maior candura:

- E eu do bailarino Pierre Foudet!

Evidentemente só ele conhecia este profissional da dança.

PÁGINAS 232 E 233 


As primeiras 180 páginas deste livro (em letras grandes) são o relato da irmã Scarlet Moon da vida e "obra" de Ronald Russell Wallace de Chevalier, o Roniquito para os íntimos. As outras 80 páginas são transcrições de textos de Joaquim Vaz de Carvalho, Ruy Guerra, Fausto Wolff, Jaguar, Ferreira Gullar e pequenos relatos de gente como Hugo Carvana, Boni e Chico Buarque. O economista deixou sua marca como boêmio num Rio de Janeiro que não existe mais. Um bom complemento ao livro do Barão de Itararé, adquirido no mesmo sebo na capital carioca, pela metade do preço. Bom assunto para mesa de bar numa sexta-feira.



Escrito por goethe às 07h21
[ ] [ envie esta mensagem ]


[ ver mensagens anteriores ]
 


Meu perfil





BRASIL, PERNAMBUCO, Homem, Livros, Música, Filmes
MSN - paulogoethe@hotmail.com



Histórico
01/05/2008 a 31/05/2008
01/01/2008 a 31/01/2008
01/12/2007 a 31/12/2007
01/11/2007 a 30/11/2007
01/10/2007 a 31/10/2007
01/09/2007 a 30/09/2007
01/08/2007 a 31/08/2007
01/07/2007 a 31/07/2007
01/06/2007 a 30/06/2007
01/05/2007 a 31/05/2007
01/01/2007 a 31/01/2007
01/12/2006 a 31/12/2006
01/11/2006 a 30/11/2006
01/10/2006 a 31/10/2006
01/09/2006 a 30/09/2006
01/08/2006 a 31/08/2006
01/07/2006 a 31/07/2006
01/06/2006 a 30/06/2006
01/05/2006 a 31/05/2006
01/04/2006 a 30/04/2006
01/03/2006 a 31/03/2006
01/02/2006 a 28/02/2006
01/01/2006 a 31/01/2006
01/12/2005 a 31/12/2005
01/11/2005 a 30/11/2005
01/09/2005 a 30/09/2005
01/08/2005 a 31/08/2005
01/07/2005 a 31/07/2005
01/06/2005 a 30/06/2005
01/05/2005 a 31/05/2005
01/04/2005 a 30/04/2005
01/03/2005 a 31/03/2005
01/02/2005 a 28/02/2005
01/01/2005 a 31/01/2005
01/12/2004 a 31/12/2004
01/11/2004 a 30/11/2004
01/10/2004 a 31/10/2004
01/09/2004 a 30/09/2004
01/08/2004 a 31/08/2004
01/07/2004 a 31/07/2004
01/06/2004 a 30/06/2004
01/05/2004 a 31/05/2004
01/04/2004 a 30/04/2004
01/03/2004 a 31/03/2004
01/02/2004 a 29/02/2004




Votação
Dê uma nota para
meu blog



Outros sites
 lotta continua
 janela pro infinito
 impressões de ontem
 gandalf
 soy loco por ti
 a cara da ana
 spoiler
 no meio de salão
 adorada guadalupe
 lilith
 maricota
 chez nous... rock version
 ressaca moral
 jaca mole
 fotos do glauco
 quem navega é renata
 vindaloo