essas mãos invisíveis

Acredito que o escritor, pelo menos este escritor que sou, escreve seus romances como escreveu Euclides da Cunha Os sertões, se impondo um determinado objetivo, a partir de certo paradigma, para materializar uma certa ambição, pondo a serviço dessa iniciativa seus conhecimentos e paixões. E o resultado sempre escapa de seu controle; não sei se por baixo ou se algumas vezes – como acho que aconteceu no caso de Os sertões – está muito por cima do que foram os desígnios do autor ao escrevê-lo, mas o resultado é alguma coisa que não é, sob nenhuma hipótese, exatamente aquele a que se propôs. Isto talvez é o mais fascinante da criação literária (a criação artística em geral): saber que, por meio desse processo do qual sai um romance, uma obra teatral ou um poema, alguma coisa passa a fazer parte do mundo, algo que nós – que o escrevemos – fomos capazes de produzir, mas no qual obviamente entraram outras mãos invisíveis que colaboraram e imprimiram uma certa orientação, e em algum momento desviaram o curso previsto, e no qual algumas vezes o resultado final foi uma surpresa absoluta para o próprio autor.
PÁGINA 127
Em 2005, o peruano Mario Vargas Llosa lançou estas 366 páginas de verbetes sobre lugares, obras e personagens (existentes e imaginários) da América Latina. É um inventário de opiniões às vezes contraditórias, escritas em diferentes épocas (e a falha do livro é não situá-las adequadamente), por um dos grandes nomes da literatura do continente. Autor do extraordinário A guerra do fim do mundo, baseado na obra de Euclides da Cunha e na trajetória de Antônio Conselheiro, Vargas Llosa faz uma espécie de testamento em vida. Os leitores agradecem. Gracias a Luiz por este regalo de cumpleaños.
Escrito por goethe às 09h08
[ ]
[ envie esta mensagem ]
|