glub, glub, glub, submarino amarelo

Vinte e quatro horas depois do afundamento, o interior do S-5 permanecia uma tumba. A maioria dos tripulantes perdera a consciência ou caíra em estado de apatia tão profunda que apenas os peitos, que febrilmente se erguiam e afundavam, mostravam que estavam vivos. Alguns ainda tinham forças para arrastar-se até a sala da cana do leme, mas nenhum tinha esperança de conseguir cortar uma saída que prestasse. Dezesseis horas de perfuração, corte de arestas e uso de serra haviam produzido uma abertura ligeiramente triangular, de quinze centímetros de largura e vinte centímetros de comprimento. Com ferramentas adequadas e corpos vigorosos o suficiente, talvez pudessem criar uma saída de emergência em mais de vinte horas, mas não tinham essas vinte horas. O único consolo para alguns era que a saída tinha sido sua melhor chance - a única chance - e tinham dado o melhor de si para abri-la.
PÁGINAS 157 e 158

Para Kolesnikov e os outros 22 submarinistas ainda vivos dentro do Kursk, o fim foi misericordiosamente rápido. Quando, na noite de sábado, os níveis de dióxido e monóxido de carbono chegaram a porcentagens perigosas no interior do nono compartimento, os homens resolveram trocar as placas da unidade de regeneração do oxigênio do submarino. Nesse momento o compartimento estava às escuras, gelado, e sendo lentamente inundado. Enquanto recarregavam as placas, elas entraram em contato com a água e o óleo. Provavelmente um dos tripulantes, já bastante entorpecido, deixou cair uma das placas no chão, então muito alagado, do compartimento. Em teoria, essas placas só deviam ser trocadas usando-se luvas de borracha, sobre uma bandeja, na posição vertical e, de preferência, num ambiente seco. Na prática, portanto, tudo acontecia em condições completamente inadequadas, num compartimento naufragado e parcialmente inundado, exatamente quando as placas eram mais necessárias do que nunca. Uma simples gota de óleo que atinja a placa é suficiente para causar uma imediata reação química, e um incêndio. Reagindo com óleo e água, as placas imediatamente desencandearam uma série de faíscas e labaredas que atingiram a temperatura de 300º Celsius.
Três tripulantes tentaram proteger seus companheiros das chamas e acabaram com graves queimaduras no peito. Muitos sofreram queimaduras fatais. A máscara de oxigênio de um deles derreteu-se, colada ao rosto. Selando definitivamente o destino dos outros submarinistas, o fogo sugou o resto de oxigênio que ainda havia no compartimento. Rapidamente, os sobreviventes caíram em estado de inconsciência, envenenados pelo monóxido de carbono. A maioria não teve tempo nem de pensar em colocar suas máscaras. Posteriormente, os médicos russos fixaram a hora das mortes entre 19 e 20 horas de sábado, 12 de agosto.
Dmitri Kolesnikov, um dos tripulantes que tentou proteger seus companheiros das chamas, morreu com sua mão direita sobre o o bolso da camisa, em cima do coração. Dentro do bolso estava a mensagem para sua mulher, Olga. Quando seu corpo foi retirado do submarino, no dia 25 de outubro daquele ano, sua mão ainda estava na mesma posição. A mensagem era o seu último testemunho.
PÁGINAS 59 e 61
Em 12 de agosto de 2000, o submarino russo Kursk naufragou no Mar de Barents, causando a morte de 118 oficiais e tripulantes. No dia 1º de setembro de 1920, o submarino norte-americano S-5 ficou praticamente na vertical no litoral de Nova Jérsei por causa de um problema com uma válvula mal fechada. Depois de 36 horas, os 40 ocupantes conseguem ser resgatados após terem conseguido fazer uma abertura na parte do submarino que ficou acima do nível da água. Estas duas publicações da editora Landscape, que vem colocando uma série de livros-reportagem no mercado brasileiro, apresentam histórias de heroísmo e tecnologia, incompetência de governos e improvisações salvadoras. Pena que, entre as vítimas, esteja a língua portuguesa. A tradução nos dois livros é sofrível, com erros de concordância e outros naufrágios. Mas vale pelo assunto, principalmente para quem queria ser marinheiro e nunca aprendeu a nadar.
Escrito por goethe às 12h32
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